quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sopro

Há muitos anos, havia um campo muito largo, muito verde, numa região que era distante porque só existia na imaginação do sonho adolescente. Não existe nada mais longínquo do que a matéria dos sonhos. E tão confuso como o imaginar que se desprende da realidade cercada de angústia e ansiedade turvando o olhar que mira na direção do destino.

A aventura intensa da vida não se dá apenas nas emoções. Existem as coisas que nada valem e significam ilusões. Essas que mantêm os homens vivos, inquietos e atentos diante do que parece infinito mas que se exaure no sopro do vento.


O pensamento de uma criança incapaz de falar ou o meditar de um velho que esqueceu quase tudo significam sempre a mesma volta da vida em torno de si mesma. Vicissitudes, ausências, silêncio que procura decifrar mensagens de um mundo absurdo que envolve, ilude e não explica.

domingo, 21 de julho de 2013

Política


Neste espaço evito falar de política porque prefiro o olhar sobre o que é humano e não me é estranho. Concentro-me no meu bairro, num espaço ainda menor, demarcado por poucas ruas e alguns botequins onde vou para beber, refletir e procurar entender o mundo e o tempo contraditório em que vivemos.  Mas as manifestações políticas que agitam o país desde junho, e dizem que não são políticas, surpreendem porque negam a si mesmas. Há muito não havia tanta agitação política.

A diversidade de temas, exigências, reivindicações, acusações e gritos dessas passeatas me levam a pensar sobre a origem dessa inquietação. A internet, que concentra as conquistas das grandes mudanças provocadas pela tecnologia, está desorganizando o pensamento doutrinário que o establishment de todos os países via como se fosse a organização ideal da sociedade.

Na longa e dolorosa viagem do homem em busca do conhecimento, a invenção do tipo móvel, por Gutemberg, há  quase seiscentos anos, foi um salto tecnológico que mudou o mundo. Seu impacto conduziu, muitos anos depois, ao iluminismo do século XVIII, o século das revoluções.
Agora, estamos novamente vivendo um tempo de mudanças e um novo salto tecnológico traz consigo impactos revolucionários. Muita água vai rolar. Só não sabemos - ainda - em qual direção.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Esperando o Papa

Eles já chegaram, os peregrinos brasileiros, e estão espalhados pelo bairro. Diferentes dos turistas do verão, que são muito brancos, muito louros, avermelhados de sol. Estes que chegam agora possuem tez diferente. São morenos, feições mestiças da raça brasileira mas com a mesma curiosidade sobre o bairro famoso, falsamente rico e cosmopolita em grande parte do ano.

No metrô, fotografam as escadas e os tapetes rolantes e uns aos outros, sempre em grupos alegres, excitados. Alguns cantam em coro músicas que nunca ouvi. Reconhecíveis à distância, diferenciam-se por uma maneira simples no vestir e que transmite a impressão de um estilo meio por fora da moda do momento.


Entre os turistas louros que vêm em busca do sol do verão e estes que esperam o Papa no inverno, há em comum o gosto pelas sandálias de dedo. Uns são alegres e gregários, ruidosos e curiosos. Os outros, os louros e muito brancos, são solitários, andam em pequenos grupos. Sóbrios e calados, expandem certa alegria quando estão juntos, sentados, bebendo cerveja nos bares que ocupam as calçadas de Copacabana.

sábado, 13 de julho de 2013

Os velhinhos do bairro

Os velhinhos do bairro acordam cedo e muitos vão para as ruas nas primeiras horas cumprirem sua rotina diária. Copacabana, como atestam os censos e as pesquisas, é onde se concentra a população mais idosa da cidade.

Como teve o seu maior surto de desenvolvimento nas décadas de 30 e 40, quem se mudou para cá nessa época, se ainda estiver vivo, está muito velho e mesmo os seus filhos já passaram ou estão perto dos oitenta anos. A ocupação  da orla aconteceu com grandes lançamentos imobiliários primeiro em Copacabana e depois Ipanema, Leblon, seguindo em direção à Barra, onde agora se concentra a população mais jovem.


Os velhinhos saem cedo para as compras e também na busca de contato humano. Socializam uns com os outros nas filas e criam laços com caixas de banco, atendentes de farmácias, seguranças do metrô, caixas de supermercado e com os porteiros dos prédios. Conversam longamente com eles. No Natal e na Páscoa, levam-lhes presentes e ovos de chocolate.

sábado, 6 de julho de 2013

Memória

A experiência vivida se transforma,  com a passagem do tempo, em referências esparsas de épocas que talvez tenham de fato existido, ou não. Mistura-se a fantasias criadas em vivências remotas onde a criança e o adolescente se misturam e criam os sonhos no adulto. Regiões habitadas pelas sombras.

Incidentes imaginados corporificam-se em emoções configuradas de dor e perplexidade, alegria e êxtase. Mas em tudo permanece a lembrança que precisa existir para dar vida a pensamentos mortos. Como a passagem de núvens que assumem formas inesperadas, surpreendentes.


A memória e o momento se confundem no instante fugaz. No estado crepuscular que antecede o sono e lá penetram com a missão de desenhar um mundo paralelo. Universo que surge no clarão de um raio, impressão súbita, talvez louca, de entendimento das coisas irreais.