quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A palavra impossível


Drummond, um homem calmo, introspectivo e tristonho, teve intuição de como funcionava a máquina do mundo enquanto caminhava pelas estradas ermas e solitárias de Minas. Algo que não compreendemos e nos acompanha, conduz nossos sentimentos e ações, dirige o que fazemos mas não nos induz a evitar o que não fazer.

O conflito e a miséria dos acontecimentos do mundo são algo que procuramos compreender mas deles só escutamos um eco distante sempre renovado.

Outro poeta, Bilac, tão injustiçado pelo modernismo, deixou enunciadas umas poucas perguntas que as palavras são incapazes de responder: e a ira muda? E o desespero mudo? E as palavras de amor que morrem na garganta?

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Contradições


A moça que foi torturada está hoje no centro do Poder. Simboliza que a injustiça, a morte da inteligência e a morte pura e simples como política de Estado sairam por enquanto da cena da nossa História. Até quando, não podemos saber, porque a violência nos espreita em cada esquina e as opiniões estão sempre em choque.

Mas gosto de ver. A reviravolta aconteceu, os que foram banidos voltaram e estão agora procurando defender o que conquistaram, sitiados pelo atraso das mentalidades e de uma ideologia que  o promove. As contradições humanas ganham dimensão épica quando se transferem para a política.

O poder corrompe e a corrupção promove o atraso, a injustiça e uma criminosa ambição de enriquecer rapidamente. A falência da humanidade tal como foi imaginada pelos humanistas. Mas há um certo suspiro de alívio diante do que vivemos no passado recente e do que vivemos agora.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Surtado



Depois de algum tempo em que desfilou de terno branco e gravata, compenetrado e pensativo, Marquinhos surtou. Estava ontem na esquina de Barata Ribeiro com República do Peru. Sujo, barba a fazer, olhos esbugalhados, fones nos ouvidos escutando o rádio mudo que carrega nas mãos.

Tentava organizar o trânsito confuso de Copacabana. Em sua linguagem confusa, xingava motoristas e quem atravessava a rua. Bem de perto do rosto delas, jogou com as duas mãos, ocupadas com o rádio, beijos para as moças fantasiadas que se dirigiam para algum bloco desses que desfilam por toda esta semana. Elas correram assustadas. Quem o conhece do bairro, ria. Os outros mudavam de calçada; alguns, como as duas moças, corriam amedrontados.

Fiz a foto, fui ao bar, pensei como é dificil separar a lucidez da loucura e como uma se confunde com a outra. Marquinhos, louco, expressava seu desejo de ordem para melhorar a vida de todos. Expressava também sua ternura atirando beijos a pessoas desconhecidas e todos procuravam evitá-lo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Pequeno (novo) poema



Uma criança nos olhava e adormecia


Releio confissões e percorro o labirinto
de um louco despertar do dia.
Os olhos, no entanto, a pressentir a noite,
o entardecer assinalando a madrugada fria.

Lembrávamos desse dia, seus segredos.
Uma mulher acenava na distância,
um lírio crescia em sua boca,
uma criança nos olhava e adormecia.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Bandeira


Comecei a escrever quando era muito jovem e triste e arrogante como são os jovens. Lí um poema de Manuel Bandeira e disse para mim mesmo que aquilo eu também poderia escrever.

O poema dizia

“Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
bebi o café que eu mesmo preparei,
depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.”

Desde aquele dia já escrevi muitos poemas, mas nunca consegui escrever um só que chegasse ao menos perto desse poema que Bandeira dedicou a Jaime Ovalle.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Considerações sobre o Nada



Não se tem passado quando se é muito jovem. Só com o tempo uma poeira de memórias vai se acumulando e uma visão cada vez mais nítida surge das brumas dos momentos vividos. Cada um desses instantes corresponderia a uma experiência acumulada na nuvem da vida? Este momento determinado já foi mesmo vivido ou só agora é que está a acontecer? E por que vem carregado de recordações?

Algo indefinido nos acompanha de perto, desde tempos sem lembranças, quando olhar o mundo trazia paisagens, cheiros, cores e uma incompreensível e trágica vivência de cada minuto.

Algo de novo sempre se anuncia como se viera trazido pelas águas de um rio  que sofre a influência das marés numa praia estranha. Um espaço assombrado de fantasmas da vida, palco onde eles riem, te observam e te provocam para uma vez mais tentar entender a existência e os mistérios que nela habitam e nunca foram enunciados, muito menos revelados.