quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Marcha-lenta



Ronaldo foi um homem risonho e tranquilo, de  bela estampa, olhar agradável e tez amorenada como se vivesse o ano inteiro no verão de Cabo Frio. Seu apelido -  “marcha lenta” - ironizava a maneira sincopada que tinha de falar, onde se percebia sempre um toque de sabedoria.

A lentidão no falar tinha origem, diziam, no  hábito de fumar canabis. Mas ele costumava inventar também novas formas de beber. Um dia, apareceu com a inusitada combinação de maçã verde e champagne, que se revelou interessante a todos que experimentamos.

Trouxeram-me a notícia da sua morte no mar. O corpo foi descoberto na manhã de dezembro, indo e voltando, ritmadamente como sua fala, na altura da arrebentação das ondas da Praia Grande, em Arraial do Cabo. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Suicidios



A Lituania e a Coreia do Sul estão no topo da lista e há mais gente se matando na Bélgica, na França, nos Estados Unidos e na Finlandia do que no Brasil.  Seriam eles mais infelizes ou a consciência do mundo é mais aguda por lá do que aqui?

No Haiti e Honduras, praticamente não existem suicídios ao passo que no Japão, onde a vida parece bem melhor, há muito mais gente se recusando a continuar a viver. A lista com as estatísticas está aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_suicide_rate

Tive alguns amigos que se mataram e os admirei pela coragem que tiveram de sair de cena. Mas talvez Norman Mailer e Eduardo Garcia (good night, sweet prince) tivessem razão: a forma mais inteligente de se matar é beber até cair, pois no dia seguinte você amanhece vivo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Velhos



Tenho envelhecido e acompanhado o envelhecimento da minha geração. Estamos sentindo a passagem do tempo, testemunhas do crescimento daquelas crianças que vimos nascer e se transformaram em adultos. Alguns de nós já se foram, outros esperam a vez.

Há o desafio de acompanhar o tempo presente e ainda há lugar para descobertas e decepções. Há os que tentam se manter contemporâneos, afinados com os dias de hoje e há os apegados a verdades absolutas de um tempo passado.

Os que não aceitam a idéia de mudança, não possuem dúvidas e tendem a  se tornar velhos hostis. A velhice significará para eles, cada vez mais, um poço de solidão.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A língua geral



A língua geral era o idioma mais falado no Brasil até 1757, quando o Marquês de Pombal a proibiu, expulsou os jesuitas e obrigou o país a falar português. Foram os bandeirantes que a disseminaram país afora e o Padre José de Anchieta escreveu a sua Arte de Gramática da Lingoa mais usada na costa do Brasil, pois queria ser entendido na catequese dos índios. A língua era essencialmente o tupi. Fernão Dias Paes Leme, dizem os registros, não falava português.

Depois da proibição, o velho idioma refugiou-se no dialeto caipira. Até hoje, no interior de São Paulo e em quase todo o Centro-Sul, os rr prounciados com lingua travada no céu da boca são resquícios da língua geral. Nas emissões de rádio e TV dessas regiões, e até na leitura de votos dos juizes do STF que vieram de São Paulo ou do interior, podemos ouvir ainda o eco das vozes do Brasil de antigamente.

sábado, 3 de novembro de 2012

Os predadores


São muitas as profecias do fim do mundo e todas prevêem grandes catástrofes de fogo e água, choque de planetas, batidas de meteoros. Há uma crescente consciência de que a espécie humana pode mesmo desaparecer e o próprio fenômeno da vida significaria  uma doença da crostra terrestre.

Tenho pensado que o nosso maior inimigo na competição pela existência na Terra é o inseto. Quando a humanidade não mais existir, destruida pela doenças, restarão as moscas, mosquitos, baratas, escorpiões, percevejos, maruins e gafanhotos.

Malária, febre amarela, dengue, encefalite japonesa, doença de chagas, doença do sono, leishmaniose, filariose são algumas poucas da infinidade de moléstias transmitidas pelos insetos, que são os verdadeiros predadores do homem.

sábado, 20 de outubro de 2012

Os quatro velhinhos gays



 Há meses que não os vejo juntos como antes, bebendo nos botequins da Barata Ribeiro enquanto seguiam com o olhar os rapazes que passam na direção da praia. Um deles, muito pálido, parecia doente mas os quatro estavam sempre alegres, discutiam viagens, Paris era a cidade preferida de todos.

O mais elegante deles tornei a ver na tarde de ontem, de andar vacilante, apoiado no braço de uma acompanhante. Não estava vestido como antes, quando usava tonalidades claras e um chapéu que combinava com a cor da roupa. Havia um certo descuido na sua aparência. Percebi que negociava com a acompanhante, uma negra alta e forte, o direito de sentar-se à mesa do botequim. Segui caminho, quando voltei ele já se sentara, bebia uma caipirinha e olhava os rapazes que passavam na direção da praia. A acompanhante, que não conseguia disfarçar o mau humor, parecia conformada.

Não sei por onde andam os outros três do grupo dos quatro velhinhos gays.