segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A língua geral



A língua geral era o idioma mais falado no Brasil até 1757, quando o Marquês de Pombal a proibiu, expulsou os jesuitas e obrigou o país a falar português. Foram os bandeirantes que a disseminaram país afora e o Padre José de Anchieta escreveu a sua Arte de Gramática da Lingoa mais usada na costa do Brasil, pois queria ser entendido na catequese dos índios. A língua era essencialmente o tupi. Fernão Dias Paes Leme, dizem os registros, não falava português.

Depois da proibição, o velho idioma refugiou-se no dialeto caipira. Até hoje, no interior de São Paulo e em quase todo o Centro-Sul, os rr prounciados com lingua travada no céu da boca são resquícios da língua geral. Nas emissões de rádio e TV dessas regiões, e até na leitura de votos dos juizes do STF que vieram de São Paulo ou do interior, podemos ouvir ainda o eco das vozes do Brasil de antigamente.

sábado, 3 de novembro de 2012

Os predadores


São muitas as profecias do fim do mundo e todas prevêem grandes catástrofes de fogo e água, choque de planetas, batidas de meteoros. Há uma crescente consciência de que a espécie humana pode mesmo desaparecer e o próprio fenômeno da vida significaria  uma doença da crostra terrestre.

Tenho pensado que o nosso maior inimigo na competição pela existência na Terra é o inseto. Quando a humanidade não mais existir, destruida pela doenças, restarão as moscas, mosquitos, baratas, escorpiões, percevejos, maruins e gafanhotos.

Malária, febre amarela, dengue, encefalite japonesa, doença de chagas, doença do sono, leishmaniose, filariose são algumas poucas da infinidade de moléstias transmitidas pelos insetos, que são os verdadeiros predadores do homem.

sábado, 20 de outubro de 2012

Os quatro velhinhos gays



 Há meses que não os vejo juntos como antes, bebendo nos botequins da Barata Ribeiro enquanto seguiam com o olhar os rapazes que passam na direção da praia. Um deles, muito pálido, parecia doente mas os quatro estavam sempre alegres, discutiam viagens, Paris era a cidade preferida de todos.

O mais elegante deles tornei a ver na tarde de ontem, de andar vacilante, apoiado no braço de uma acompanhante. Não estava vestido como antes, quando usava tonalidades claras e um chapéu que combinava com a cor da roupa. Havia um certo descuido na sua aparência. Percebi que negociava com a acompanhante, uma negra alta e forte, o direito de sentar-se à mesa do botequim. Segui caminho, quando voltei ele já se sentara, bebia uma caipirinha e olhava os rapazes que passavam na direção da praia. A acompanhante, que não conseguia disfarçar o mau humor, parecia conformada.

Não sei por onde andam os outros três do grupo dos quatro velhinhos gays.

sábado, 13 de outubro de 2012

Sobre a História


Quando se fala em História, o pensamento é levado a imaginar uma corrente de acontecimentos que teria começo, meio e fim. O mundo inteiro, países, nações e as pessoas como personagens de uma narrativa virtual contada pelo destino. Haveria então uma lógica nos fatos e na sua ocorrência que se sucede no tempo.

Mas não é assim que acontece. Não existe sentido lógico sequer na vida humana, regida por casos fortuitos. A História é uma sucessão de imprevistos. Já se tentou explicá-la através de feitos pessoais de grandes homens ou da lógica dos conflitos. Mas tudo o que aconteceu ou acontecerá no mundo poderia não ter sido. Ou poderia ter sido o seu contrário.

A espécie humana, que domina o planeta, produto de uma contínua evolução, segundo a ciência, poderia não ter existido. Bastaria um pequeno acidente genético, um tropeço ou cataclismo para que não existisse sequer uma História, que é produto do acaso.

domingo, 7 de outubro de 2012

Assalto no metrô


Na estação Chatelet, a mais movimentada, elas entram no vagão lotado, em bando, e lhe empurram forçando a própria entrada. Uma delas, que se colocara bem atrás de você, faz pressão com o corpo contra o seu. Atento, você percebe que, de repente, sua carteira desapareceu do bolso. Pressionada, a menina deixa a carteira cair no chão, aproveita a súbita parada na estação seguinte e foge. O bando a acompanha, nervoso. Ela não teria mais de 13 anos, o olhar era duro, o rosto pálido, de tez doentia. Você suspira aliviado com a recuperação de todos os seus documentos e algum dinheiro.

A Romênia é um país da União Europeia, o mais pobre deles. Egresso de uma ditadura brutal, ainda é dominado pela desordem econômica, a corrupção e o desemprego que chega a mais de vinte por cento entre os jovens. Eles estão emigrando para os países mais ricos em busca de sobrevivência. E roubam, traficam drogas, prostituem-se, formam bandos como aquele da estação Chatelet.

Desde ontem, não consigo esquecer o olhar daquela menina.

sábado, 6 de outubro de 2012

Chez la Vieille


Paris possui bons restaurantes, em qualquer categoria de classe ou preço. Mas é crescente o número de pièges à touristes, as armadilhas para turistas. Nomes de grande tradição como o Pied de Cochon, Brin de Zinc, Le Petit Zinc e Pharamond saíram das mãos de profissionais e foram comprados por grupos empresariais sem compromisso com a qualidade e de olho na multidão de turistas pouco exigente e com bastante dinheiro.

A culinária é uma forma de artesanato, alguns chegam a chama-la de arte. Perde a alma quando passa a ser vista apenas como forma de fazer dinheiro. Parece ter sido este o ponto de vista do empresário Christian Millet quando comprou o bistrô Chez la Vieille (1, rue Bailleul), que fez sua fama quando sua dona era a velha Adrienne.

Millet procurou manter a mesma atmosfera de antes, a mesma decoração das pequenas salas e contratou o jovem chef Itché Tagouma. Vê-se, pelo nome, que ele não é francês. Mas é um mestre da cozinha francesa e tem o que ensinar a muitos chefs da França.