segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SRD

Ela tem poucos meses de vida e vai ocupando os espaços da casa. A lembrança da outra ainda não se dissipou e às vezes me faz chamá-la pelo nome da que morreu. Mas não se intimida, pula no colo, interrompe minha leitura, pisa no teclado do computador a me dizer que está presente, ali mesmo, e me olha desafiadoramente.

Acompanha-me quando me levanto, entrelaça-se entre minhas pernas, arrisca-se a um acidente, pois posso pisá-la, ela pode me provocar um tropeço e queda. Cresce pelo milagre da comida. Sua cauda ganha corpo, torna-se peluda como a dos angorás, revela a mistura de raças de uma espécie mestiça, independente e misteriosa. Em sua identidade veterinária está escrito SRD, ou seja, sem raça definida


Aprendeu a pedir comida, seus frágeis miados já ganharam diferentes tons, cada um deles significa uma mensagem determinada. Um desses miados me impressiona. É quando ela olha com profunda atenção para dentro dos meus olhos e procura me dizer algo que não consigo entender mas finjo que compreendo, acaricio seu pelo e então ela fecha os olhos e finge que está dormindo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Viver

Temos um compromisso com a vida e procuramos nela permanecer, enfrentar os seus momentos, sobreviver. Lembro-me de um trecho de Saint-Exupéry em que seu personagem, perdido no deserto gelado dos Andes, conclui que nenhum bicho lutaria tanto pela vida, só um homem seria capaz de enfrentar tão grande desafio e sair vencedor.

Desde que nascemos, a partir do primeiro respirar e do primeiro pranto surge uma estranha ligação com o ato de viver. Uma simbiose entre o estar no mundo e o destino que se transfigura em tragédia e dor mas também nos toques de esperança: a constante possibilidade da vida, seu rítmo e seu diário amanhecer.


Doka, que foi meu amigo, um cético, me disse um dia que viver só valia a pena porque não havia alternativa. Não existia vida plena nem completamente feliz mas havia, sim, momentos que compensavam suas mala-aventuras. Estes momentos, dizia, raramente dependiam de nós mesmos. Dependiam do Outro e nisto coexistiam o prazer da vida e o seu inferno.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Velhice


Hoje, sou mais velho do que meu pai. E penso que também mais velho do que meu avô. Quando criança, sempre os olhei como personagens de um mundo diferente do meu, o mundo dos adultos e, mais do que  isso, o mundo dos velhos. Depois eles morreram e hoje cheguei a uma idade que eles não alcançaram. Sou mais velho do que eles, meu pai e meu avô.

O momento em que tive a exata noção de que o tempo  passara e que estava me aproximando da velhice eu vinha pela calçada da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, e uma bela moça que caminhava em sentido contrário me olhava com atenção. Pensei “acho que estou agradando” e, quando nos encontramos de frente um para o outro, ela perguntou “o senhor não é o pai da Fernanda? “ Trocamos algumas palavras amáveis e continuamos nosso caminho mas uma nova consciência me assaltava, a de que eu talvez não fosse mais o jóvem que atraia os olhares pela aparência que tinha, o jeito de me comportar e a maneira dos gestos.

Eu tinha pouco mais de quarenta anos.


(Trecho de depoimento escrito para “Os Novos Velhos”, de Léa Maria Aarão Reis)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A transgressão

A crueldade existente na alma das crianças reflete a essência do caráter do homem. As crianças torturam os animais, agridem umas às outras e desconhecem a solidariedade. Os contos infantis que elas amam são histórias de terror onde o bem é permanentemente ameaçado pelo mal absoluto representado por madrastas, fantasmas e duendes. Os ‘games’ de computador e os filmes prediletos são exercícios de assassinato.

Nascemos, como todas as feras, sem consciência moral e sem o sentimento do outro. Somos salvos – quando o somos – pelo contato com a cultura e a sensibilidade acumuladas ao longo da história das civilizações. A transgressão a esses valores pode sofrer punição severa porque ameaça o equilíbrio da organização social.


O estágio superior da sensibilidade humana se consubstancia na Arte, em cujo exercício o homem pode desafiar regras e afirmar assim a idealização de criatividade que a humanidade projetou para si mesma. O artista tende à melancolia pelo paradoxo da sua imperfeição, no qual se perde enquanto tenta transformar o próprio destino.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Visita

Homens e mulheres que foram meus amigos
penetram no meu sono.
Estão mais jovens do que eram
na hora de sua morte.

Têm o mesmo rosto de quando
havia futuro nos seus dias.

Esses mortos foram meus amigos.
Conheço-os pelo nome, conheci suas almas
e o ritmo dos seus passos.


Agora eles penetram silenciosamente no meu sono.
Trazem algum mistério
que desperta e me convida
para um sono maior e mais profundo.