domingo, 12 de outubro de 2014

O sono

Há um território do sono em que as imagens se sucedem sobre o vazio de um espaço infinito. Onde a vontade não atua e os sentimentos se movem opacos, não existe neles o sangrar das emoções impensadas, nem tempo presente, nem lembranças. Apenas uma paisagem em que os ventos revolvem restos da memória e anunciam monções,  tempestades, pesadelos.

Há uma profunda solidão nos amplos patamares, aves de agouro, sóis em crepúsculos vermelhos, baques amarelos, azuis devastadores. A pequena sombra de um fugitivo que procura ultrapassar os limites da fuga e mergulhar na imensidão do espaço. A música dos elementos desencontrados de um carrossel alucinado.


Um menino atônito. Criança de visões despedaçadas em caminhos encobertos. Corre, acena para alguém que o observa do alto e se mantém calado. Não há luz suficiente para revelar esta paisagem em que o imaginário se transforma na vida e seus recortes fugidios. Silêncio, fadiga e sobressalto.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Tarde de primavera

A moça na cadeira de rodas faz esforço para vencer os ressaltos e fendas no calçamento de pedras portuguesas. Penso em como são perfeitas as idênticas calçadas de Lisboa e como elas são precárias em Copacabana. Passa de bicicleta, em velocidade, o homem com o gato amarelo agarrado em suas costas. Ele e o outro, o que carrega um pássaro no dorso, repetem o mesmo desfile todas as tardes.

O dia de primavera parece ser propício também ao diversificado desfile das mulheres, algumas vestindo abrigos de frio, outras em pequenos shorts anunciando o próximo verão. Marquinhos, o maluco, segue discretamente com o olhar a moça de pernas bonitas que move os quadris num rítmo suave e quase provocante.


Foi quando o automóvel cinza atropelou o viralatas amarelo que tentava atravessar a rua. O cão ganiu, tentou levantar-se mas suas patas não obedeceram. Outros automóveis passavam em velocidade, alguns desviavam-se do cão atropelado, outros freiavam e Jorge, segurança do botequim,  atirou-se no trânsito e conseguiu arriscadamente trazer o animal nos braços. Foi um gesto pequeno mas suficiente como testemunho da grandeza humana.

domingo, 5 de outubro de 2014

Uivos

"Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada na busca de uma dose violenta de qualquer coisa”. Assim começa “O Uivo”, célebre poema de Allen Ginsberg na bela tradução de Claudio Willer.

A geração “beat” americana, da qual Jack Kerouac e o próprio Ginsberg foram expoentes, é uma das muitas que se perderam mergulhadas no próprio desespero, em todo o mundo. Mas que deixaram seus rastros na literatura, como o fez a “lost generation” de Hemingway e Fitzgerald, cuja angústia procuraram compensar no álcool, às vezes no suicídio. Maiakovski e Iessenine, poetas russos, tiveram a mesma atitude diante da vida. Maiakovski dizia que “é melhor morrer de vodka do que de tédio”.


Álvares de Azevedo, da geração “mal do século” do romantismo brasileiro, morreu aos 21 anos. A influência de Lord Byron sobre sua poesia e a de outros poetas do Século XIX aproximou artistas distantes que sofriam da mesma melancolia. Borges dizia que todos os poetas escrevem o mesmo poema.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Estrangeiro

O mundo é um país estrangeiro. Ouvi ou li isto em algum lugar, talvez eu mesmo tenha inventado ou sonhado com esta frase. Creio que ela tenha a ver com o divórcio em relação ao que acontece em nossa volta e que não sentimos como parte do que seria a essência do humano.

A radicalização da barbárie e as manifestações da estupidez agridem o senso comum de justiça e de inteligência. Desmentem a civilização que seria a maior conquista em séculos de evolução. Decepções que me fazem lembrar as festas alegres da democracia nos primeiros meses do ano de 1964 e a tragédia que veio depois.


Há uma ameaça presente nos fundamentalismos religiosos e políticos e suas bandeiras obscuras pelas paisagens do mundo. Uma geopolítica perversa promovendo exércitos cruéis, matanças de inocentes, preconceitos e regressões. A nova idade das trevas acena das fronteiras do Oriente. A iniquidade floresce no Ocidente. O mundo é uma percepção estrangeira.

sábado, 27 de setembro de 2014

Amor materno

Até o século XIX as mães não amavam os filhos. A idealização do amor materno é muito recente. Antes, as mulheres tinham muitas crias que morriam ao nascer e elas procuravam se distanciar das sobreviventes. Seria preferível mantê-las longe de si, às vezes pagando a uma ama de leite, do que sofrer com sua morte precoce. As crianças morriam muito cedo numa época em que uma vida longa não passava dos trinta anos.

As que não morriam cresciam solitárias, às vezes criadas por mulheres sem os laços da maternidade, numa atmosfera propícia à infelicidade. Esta solidão levou Freud a investigar o inconsciente e formular sua teoria, uma das grandes construções da inteligência humana.


O desamor está na raiz do ódio, do desprezo profundo, do sofrimento e da vingança cega. O bicho humano tinha desde sempre necessidade do amor que lhe foi negado pela mãe, pois ela própria se defendia da dor de amar uma criança que nascia estigmatizada e condenada à morte.