domingo, 13 de julho de 2014

Reencontro

A última vez em que o vi ele estava sóbrio e dava para perceber que fazia esforço para não beber. Estava morando sozinho num apartamento pequeno mas tinha esperança de que a mulher o aceitasse de volta “por causa das crianças”, me disse. Pensei para mim mesmo que as crianças já não eram hoje mais crianças. Almoçamos num botequim da Rua da Bahia e não conversamos muito mais sobre nós mesmos.

Fomos contemporâneos na universidade e depois colegas de trabalho numa agência de publicidade. Sua visão do mundo bem-humorada o fazia encontrar sempre algo divertido para dizer sobre as situações que enfrentava. Mas daquela vez me deixou a impressão de que as coisas não iam bem na sua vida. Não nos víamos há algum tempo, reparei nos seus dentes estragados, nos seus silêncios.


Falou algo sobre os anos que passavam rápido, nas dificuldades de sobrevivência, na falta de dinheiro que costuma acompanhar o final da vida das pessoas. Depois eu viajei de volta e não tive mais notícias dele, até que me disseram que seu corpo fora encontrado no pequeno apartamento em que morava sozinho. Precisaram arrombar a porta, estava morto há alguns dias.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Velhinhos gays

Oprimidos quando eram jovens, eles hoje estão pelos botequins do bairro olhando os rapazes que olham para as meninas. Nesta Copa do Mundo, mistura de nações e raças em uma espécie de festa, os velhinhos gays se divertem, comportando-se como realmente são, sem precisar fingir a masculinidade que lhes é estranha.

Na juventude sofreram a angústia da rejeição, perseguidos pela moral da época, a religião e os costumes. Procuravam o amor à noite, como os gatos, no dizer de Pasolini,  em um forte poema que escreveu pouco antes de morrer, vítima de um cowboy da meia noite.


Eles agora estão por aí, discretos mas ousando gestual próprio, nem feminino nem masculino, atentos, acompanhando os rapazes que passam vestindo camisas das equipes de futebol do mundo. Na manhã do dia em que o time do Brasil foi derrotado, os quatro velhinhos gays que sempre vejo pela vizinhança andavam juntos no calçadão da praia. Cada um deles vestia uma camisa diferente: Brasil, Alemanha, Holanda e Argentina.

sábado, 5 de julho de 2014

A arte

Em momento de forte depressão, tangido por tristeza intensa, o músico desabafou: como é bom saber tocar um instrumento. E assim resumiu o que tem sido um dos papéis desempenhados pela arte, o de purgar as emoções. Um amigo escritor me dizia que a arte pode ser de alegria, mas supera-se quando reflete os negros porões da vida.

A morte na alma é sublimada na expressão da arte, queria dizer o músico que, embora mergulhado na tristeza, confiava no poder da música que ele próprio sabia tocar. Apenas com seu instrumento, poderia libertar-se dos abismos que o ameaçavam.


O caos imenso das emoções pode melhorar a qualidade da arte praticada pelo artista. Mas não é arte em si mesmo. Pode ser matéria prima, algo que, sob controle do artista, venha a se transformar na percepção única de um momento de beleza sublime ou danação desesperada.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Arraial

A aurora já nos encontrava no mar, a água tinha a cor metálica de chumbo. Batendo nas leves ondulações, o barco avançava e o cheiro do motor a diesel invadia o espaço até que ancorávamos na ponta do Cabo Frio. E começávamos a pescaria que se prolongava até que o sol forte nos expulsasse com o calor e o incômodo da nossa pele em brasa. O banho de mar nos devolveria o suave frescor da brisa que soprava a partir do começo da tarde.

Trazíamos peixes para o almoço, bebíamos e nos divertíamos na conversa à sombra do terraço. A praia quase deserta se estendia por quilômetros de areia branca e se perdia do olhar. Crianças corriam a beira mar, os pescadores cercavam com a grande rede os cardumes avistados do morro da vigia. E os arrastavam até a praia.


A noite era curta porque já estávamos com sono, bêbados e cansados. O por de sol já havia nos dado a quota diária de surpreendente beleza e às vezes o luar também surpreendia. Até os dias chuvosos eram belos com o sentimento que traziam de nostálgica solidão à beira mar. Nós éramos jovens e felizes e ninguém estava morto.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Encontro

No botequim, enquanto Maria lhe servia de graça, como quase todos os dias, café com leite e um pão, conversei com Marquinhos, o maluco da vizinhança. Com o pensamento um pouco mais coordenado e os olhos mais tranquilos, ele falou enquanto comia da quantidade de japoneses andando pelo bairro nessa Copa do Mundo. Qualquer um que não fale a sua língua, para Marquimhos,  é um japonês. Mas preferiu falar dos amigos que morreram.

Sua fala é quase tão confusa como a de um surdo-mudo e me contou que no bar em frente havia um homem bom que conhecia bem. Diabético, morrera de tanto beber. O mesmo aconteceu com um amigo que tinha na esquina da República do Peru, o garçon de uma lanchonete que saia de madrugada pelos bares ainda abertos e que morreu também de tanto beber.


Perguntei se ele gostaria de beber. Olhou no fundo dos meus olhos com seus olhos estrábicos - eu estava bebendo - e disse que ainda não queria morrer. Acabou de comer o pão com café e voltou à rua ouvindo seu rádio que não toca nada para assustar os turistas com a sua miséria, sua feiura e a dificuldade dos loucos em entender a lucidez capaz de matar os que não são loucos.