terça-feira, 18 de novembro de 2014

A tarde


O menino investigava a tarde
e o silvo das locomotivas avisava:
o pai chegava, ia escutá-lo,
ouvir a sua voz e seu silêncio.

Os míticos lugares, as distâncias,
tudo emoldurava um por-de-sol chuvoso,
cortado de andorinhas,
acentuando o desmaiar do dia.

A terra, parto de segredos,
despertava com as nuvens carregadas,
com os sapos, os insetos, plantas
e o verde em brilho dos canaviais.

A voz dos violeiros, o cantar dos carros
e o odor dos últimos engenhos
misturavam cheiro e música, chuva e vento,
aos olhos do menino que esperava.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O contrato


O pacto com Satanaz, uma das lendas mais antigas do Ocidente, enriqueceu os mitos humanos e inspirou Fausto, a obra prima de Johann Wolfgang von Goethe, maior poeta de língua alemã. Mas o medo do inferno não afastou ao longo do tempo os pretendentes a esse trágico contrato no qual o homem entrega sua alma em troca de poder, fortuna e sucesso na vida.

Muitos, como o personagem do poeta alemão, quando descobrem o amor tentam desfazer a promessa feita a Mefistófeles mas já será muito tarde. A cobrança não deixará de ser feita pois tudo o que fora prometido foi entregue em poder, fortuna e sucesso mas o amor estava fora do acordo. Outros poetas exploraram o tema, como Pushkin, Valéry e Fernando Pessoa.


O poema de Goethe levou sessenta anos para ser escrito e mesmo assim não foi considerado pronto pelo autor. É uma das obras eternas da literatura porque na vida são muitos os que aceitam fazer o contrato e, quando tentam desfazê-lo, sua alma já é refém e estará para sempre acorrentada às trevas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SRD

Ela tem poucos meses de vida e vai ocupando os espaços da casa. A lembrança da outra ainda não se dissipou e às vezes me faz chamá-la pelo nome da que morreu. Mas não se intimida, pula no colo, interrompe minha leitura, pisa no teclado do computador a me dizer que está presente, ali mesmo, e me olha desafiadoramente.

Acompanha-me quando me levanto, entrelaça-se entre minhas pernas, arrisca-se a um acidente, pois posso pisá-la, ela pode me provocar um tropeço e queda. Cresce pelo milagre da comida. Sua cauda ganha corpo, torna-se peluda como a dos angorás, revela a mistura de raças de uma espécie mestiça, independente e misteriosa. Em sua identidade veterinária está escrito SRD, ou seja, sem raça definida


Aprendeu a pedir comida, seus frágeis miados já ganharam diferentes tons, cada um deles significa uma mensagem determinada. Um desses miados me impressiona. É quando ela olha com profunda atenção para dentro dos meus olhos e procura me dizer algo que não consigo entender mas finjo que compreendo, acaricio seu pelo e então ela fecha os olhos e finge que está dormindo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Viver

Temos um compromisso com a vida e procuramos nela permanecer, enfrentar os seus momentos, sobreviver. Lembro-me de um trecho de Saint-Exupéry em que seu personagem, perdido no deserto gelado dos Andes, conclui que nenhum bicho lutaria tanto pela vida, só um homem seria capaz de enfrentar tão grande desafio e sair vencedor.

Desde que nascemos, a partir do primeiro respirar e do primeiro pranto surge uma estranha ligação com o ato de viver. Uma simbiose entre o estar no mundo e o destino que se transfigura em tragédia e dor mas também nos toques de esperança: a constante possibilidade da vida, seu rítmo e seu diário amanhecer.


Doka, que foi meu amigo, um cético, me disse um dia que viver só valia a pena porque não havia alternativa. Não existia vida plena nem completamente feliz mas havia, sim, momentos que compensavam suas mala-aventuras. Estes momentos, dizia, raramente dependiam de nós mesmos. Dependiam do Outro e nisto coexistiam o prazer da vida e o seu inferno.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Velhice


Hoje, sou mais velho do que meu pai. E penso que também mais velho do que meu avô. Quando criança, sempre os olhei como personagens de um mundo diferente do meu, o mundo dos adultos e, mais do que  isso, o mundo dos velhos. Depois eles morreram e hoje cheguei a uma idade que eles não alcançaram. Sou mais velho do que eles, meu pai e meu avô.

O momento em que tive a exata noção de que o tempo  passara e que estava me aproximando da velhice eu vinha pela calçada da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, e uma bela moça que caminhava em sentido contrário me olhava com atenção. Pensei “acho que estou agradando” e, quando nos encontramos de frente um para o outro, ela perguntou “o senhor não é o pai da Fernanda? “ Trocamos algumas palavras amáveis e continuamos nosso caminho mas uma nova consciência me assaltava, a de que eu talvez não fosse mais o jóvem que atraia os olhares pela aparência que tinha, o jeito de me comportar e a maneira dos gestos.

Eu tinha pouco mais de quarenta anos.


(Trecho de depoimento escrito para “Os Novos Velhos”, de Léa Maria Aarão Reis)