quarta-feira, 4 de maio de 2011

Paris, anos 20


Os anos vinte e os anos sessenta do século passado foram dois períodos que despertaram coisas novas na cabeça das pessoas, mudaram comportamentos e transformaram o mundo. Os sessenta foram marcados pelo movimento hippie, a libertação feminina e o impacto dos baby-boomers. Os anos entre 1920 e 1930 foram, no entanto, mais criativos.

Por esse tempo, atraidos pelo baixo valor do franco e o alto valor do dólar, entre as duas guerras, chegou a Paris uma leva de americanos que se aliou à vanguarda local e juntos mudaram o que veio depois deles na literatura, na música e nas artes. Hemingway, Cocteau, Picasso, Dali, Fitzgerald, Joyce, John dos Passos, Stravinsk, Prokofiev, Tristan Tzara, o surrealismo e o dadaismo, fizeram uma mistura de inteligência e talento verdadeiramente revolucionária.

Sem um tostão no bolso, às vezes tendo de caçar pombos com uma atiradeira nos Jardins de Luxemburgo para garantir o jantar, Hemingway, já velho, no apogeu do sucesso como escritor, recordava aquele tempo quando, como escreveu em Paris é uma festa , era muito pobre mas também muito feliz.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Jota


Entre as centenas de mortos no trânsito das estradas e da cidade e na violência de cada dia, nenhum jornal noticiou a morte de Jota, que vivia na noite. Seu ponto era a esquina de Viveiros de Castro com Prado Junior, bem no meio da área onde a malandragem divide o espaço com os velhos moradores de Copacabana.

Jota foi encontrado debaixo de uma marquise com um tiro disparado à queima-roupa na testa. Ele fazia a vida prestando pequenos serviços às garotas do Barbarella, ia à farmácia e fazia compras nas lojas noturnas da vizinhança. Dizem que também estava à disposição para subir o morro e buscar algum bagulho a pedido delas ou de um cliente.

Gordo, pequeno, andava rebolando e tinha sempre ar de riso. Vestia um paletó cinza menor do que o corpo e calças jeans sem cor e era este seu uniforme. Parado na esquina, gesticulando e falante, puxava conversa e conhecia pelo nome os motoristas de taxi.

terça-feira, 19 de abril de 2011

La Tour d’Argent


Na mesa ao lado, os quatro velhinhos gays discutiam com o garçon e um deles liderava a indignação de todos contra o aumento no preço do prato. Eles costumam almoçar juntos, sem fidelidade a um único local mas estão sempre nos botequins da Barata Ribeiro, nos três blocos e meio entre Paula Freitas e Rodolfo Dantas.

“Reclama do galego”, disse o garçon, com receosa discrição e olhando para a caixa registradora; atrás dela sentava-se o dono do botequim. Mandaram chamá-lo e o mais alto deles, o que se veste com elegância, faz as sobrancelhas e usa uma bengala, procurou saber a razão daquele preço por um magro filé de peixe.

O dono do botequim acentuou o sotaque da Galícia e informou que estava comprando o peixe bem mais caro porque é assim todo ano na época da Páscoa. Um dos velhinhos riu com ironia e disse que por aquele preço nem o coelho da Páscoa. O da bengala, antes de recolher entre eles o dinheiro para pagar a conta, disse com desprezo que um botequim de terceira classe em Copacabana estava cobrando mais caro do que La Tour d’Argent, quando ele morava em Paris.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ivan


Sua forte compleição atlética trabalhada com halteres pesados e um rosto fechado, com a moldura de um cavanhaque negro, completavam sua figura e o papel de homem mau que gostava de desempenhar. Exibia sua valentia. Quando bêbado, aumentava o volume da voz poderosa e todos se calavam, o bar ficava num silêncio amedrontado que nem parecia um bar.

Vestido de uma sunga de praia, viajava de moto nos fins de semana para Arraial do Cabo e passava a tal velocidade pela blitz da Polícia Rodoviária, em São Pedro da Aldeia, que os policiais não tinham ânimo de persegui-lo.

Gostava de armas. Calou o barulho de uma festa no apartamento de frente com um tiro certeiro no aparelho de som. Tinha medo de baratas e ternura pelos amigos. Na convivência, revelava-se um sentimental que não suportou a solidão. Naquela noite, bebeu uma garrafa de vodka, entrou no mar, nadou até muito depois da arrebentação e ficou lá para sempre.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Segunda-feira


O bairro amanheceu com o trânsito parado nos engarrafamentos. As fábricas de automóveis, produzindo mais de 3 milhões de unidades por ano, despejam esses novos modelos nas ruas. Qualquer dia poderemos despertar e assistir ao nó definitivo. O metrô, depois do fim da baldeação no Estácio, caminha para se igualar ao de Tóquio, onde os passageiros são empurrados com o pé para dentro dos vagões lotados.

Marquinhos em seu delírio tenta organizar o trânsito, cospe no chão e grita com os motoristas palavras que não articula mas que sabemos ser de ódio pelos olhos esbugalhados. As crianças reunidas diante da escola municipal ainda mostram um certo olhar de perplexidade e tristeza.

As previsões do tempo insistiram nos boletins de muita chuva para estes dias, acompanhada de raios e trovões, talvez houvesse enchentes. Mas o sol insiste e contradiz, apareceu em céu claro e as praias continuam cheias. Os turistas ainda estão por aí, de pele avermelhada, as meninas em vestidos leves e sandálias havaianas.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A transitória glória do mundo

Um dos homens mais ricos do mundo foi um sueco chamado Ivar Kreuger, que teve o monopólio da fabricação e venda de fósforos em práticamente todo o mundo. Em seus escritórios localizados no prédio de número 7, na elegante Place Vendôme, em Paris, comandava várias empresas, entre as quais a poderosa Ericsson, e administrava o monopólio de fósforos negociado com chefes de estado em quase todos os países ocidentais.

Kreuger era também um boa-vida, dotado de grande charme pessoal, amante de belas mulheres que frequentavam sua garçoniere no andar logo acima dos seus escritórios. Era também amante dos bons vinhos, que guardava no subsolo do mesmo prédio. Sua adega despertou inveja até no banqueiro J.P. Morgan, seu rival no mundo dos negócios internacionais.

Como todos os grandes investidores, Ivar Kreuger amava os riscos do poker dos grandes negócios, que enfrentava com reconhecida inteligência financeira e dos quais saía ainda mais rico. Numa dessas jogadas, a fusão da Ericsson com a ITT americana, blefou e deu-se mal. Na manhã do dia 12 de março de 1932, Kreuger comprou uma pistola Browning automática de 9 mm e cem balas. Usou apenas uma delas para matar-se com um tiro no coração.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Animais de estimação


O pequeno poodle, inteiramente molhado, treme sob o chuveiro da mangueira operada pela moça da loja de animais. Sairá com o pelo enxuto, perfumado e aliviado do sofrimento que passou no corte do pelo e na tortura do banho. Sua dona, uma mulher de ar deprimido, aguarda o final do tratamento enquanto passeia pela loja e compra comida para o poodle.

Do lado de fora, enquanto olha para a vitrine, uma mulher negra protesta em voz baixa e diz que Copacabana tem tantos mendigos sujos e famintos enquanto aquele cão recebe tantos cuidados.

Ouço e penso que a miséria dos mendigos do bairro não consola a mulher deprimida que compra comida para o cão. Talvez desperte sua compaixão. Mas a solidão vivida nos pequenos apartamentos explica tanto amor pelos bichos e a existência de tantas lojas especializadas no luxo dos animais de estimação.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Previsão do tempo


Um outono envergonhado veio amenizar o calor do verão mas o sol ainda fornece alegria a quem não dispensa a praia. Os vagões do metrô continuam a despejar os banhistas que vêm do subúrbio para Copacabana pelo caminho mais curto criado pelo acesso direto da Linha 2. O movimento é apenas pouco menor que o do verão e as chuvas anunciadas devem ter estacionado no Rio Grande do Sul, quando não escapam para São Paulo.

Os meteorologistas do nosso Hemisfério dificilmente acertam em seus palpites, que esbarram na inconstãncia do tempo ao Sul do globo terrestre. Enquanto ao Norte as estações do ano são bem definidas e as condições do clima apresentam-se previsíveis e imutáveis, possibilitando saber o tempo que vai fazer com grande antecedência, por aqui o regime de ventos e o caminho das núvens mudam a cada instante.

No Brasil, o único boletim meteorológico em que se podia realmente confiar era o da Rádio Tabajara de João Pessoa, que contemplava todas as hipóteses: “tempo bom com nebulosidades, sujeito a chuvas e trovoadas”.

terça-feira, 22 de março de 2011

Manhã cedo


Os botequins da Barata Ribeiro e os quiosques da praia abrem muito cedo, alguns sequer chegam a fechar. As boates e clubes noturnos atravessam a madrugada. Às primeiras horas, Copacabana mostra seus contrastes. Nos bares das calçadas, alguns tomam o café da manhã e outros bebem cerveja após a noite movida a outros prazeres menos inocentes.

A paisagem humana é diversa. Há os que se preparam para o trabalho no desjejum de café com leite, pão e manteiga. Dividem o bar com os boêmios que vêm da véspera e as moças de programa despejadas na rua com o fechamento das boates e que esticam num último gole antes do sono. De olhos vermelhos, observam os que vão andar ou correr no calçadão.

Eles não se misturam. Uns comem sozinhos, outros bebem cerveja ainda animados e os atletas andam a passos apressados em direção à praia. As velhas senhoras seguem para a primeira missa da manhã e olham desconfiada e silenciosamente na direção dos bares.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pedra filosofal


Nenhuma profissão dá garantia de enriquecimento tão rápido quanto a política. Em apenas um mandato, alguns políticos começam a dar sinais exteriores de que ascenderam na escala da fortuna e deixaram para trás tempos difíceis. Economistas pobres, advogados pobres, médicos, funcionários, pastores, empresários modestos parecem ter descoberto a pedra filosofal ao fim de apenas quatro anos.

A vocação para a política pode se revelar cedo, na vontade de mudar o mundo e reparar as injustiças da vida. A iniciação na luta política surge então nas disputas estudantis e evolui para a militância partidária. Ou então aparece como oportunidade para funcionários, líderes comunitários, dirigentes sindicais.

Os que pensam na justiça muitas vezes se transformam diante das tentações e das possibilidades de enriquecer. E os que viram na prática política instigantes oportunidades para fazer dinheiro – talvez a maioria – estes já chegam com o conhecimento completo dos infames labirintos.

sábado, 12 de março de 2011

A Língua Geral


A presença portuguesa no Brasil depois do descobrimento não foi suficiente para, espontaneamente, impor no país a hegemonia da língua portuguesa. Até a segunda metade do Século XVIII, predominava no país a Língua Geral, o tupi, que era falada pela grande nação tupinambá. A ponto de o famoso bandeirante Fernão Dias Paes Leme, como tanta gente na época, nunca ter aprendido a falar português.

A Língua Franca, como também era chamada, foi inicialmente usada pelos jesuitas para ajudá-los na catequese. E espalhou-se pelo país com as bandeiras e as entradas pelo interior. O Marquês de Pombal a proibiu e obrigou a colonia a só falar português, mas a Língua Geral deixou remanescentes em inúmeras palavras do vocabulário brasileiro. O sotaque caipira do sul do país, com os rr de língua enrolada, é uma dessas heranças.

Apesar dos esforços dos governos das antigas colonias portuguesas, que tentam manter a unidade lusoparlante, o falar do Brasil afasta-se cada vez mais dos padrões clássicos. Um saloio português e um caipira brasileiro falam línguas diferentes, dificilmente se entenderiam.

terça-feira, 8 de março de 2011

Marlowe


Junto com Dashiell Hammet, Raymond Chandler renovou a literatura policial americana de uma forma que veio a influenciar dezenas de escritores mundo a fora. Eles foram contemporâneos, criaram arquétipos literários e morreram ambos de tanto beber.

Chandler escreveu oito romances em que a personagem, Philip Marlowe, é um detetive particular que tem uma atitude filosófica diante da vida e joga xadrez. Mas do xadrez ele diz que “é a mais elaborada forma de desperdício da inteligência humana, com exceção de uma agência de publicidade”.

No cinema, Marlowe foi interpretado por diferentes atores, entre os quais Humphrey Bogart e Robert Mitchum, que criaram tipos memoráveis. Ele dizia que “o álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo e o terceiro é rotina. Depois disso, você tira a roupa da garota”.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pássaros


Os pardais que habitavam Copacabana vieram de Lisboa mas foram quase todos expulsos pelos pombos. Outros pássaros, no entanto, parecem desafiar esses inimigos e frequentam o bairro com alguma desenvoltura. Povoam as árvores da Barata Ribeiro e os jardins das coberturas.

Eles vêm das matas que ainda existem no cocoruto dos morros dos Cabritos, São João, Babilônia, Uribu e do Leme. Ornitólogos consideram que, apesar de todas as condições precárias que existem para a vida nas grandes cidades, o número dos pássaros urbanos vem aumentando. Aqui no bairro, basta prestar atenção. Eles estão por aí.

Sabiás, beija-flores, bem-te-vis, cambacicas, canários, quero-queros, sanhaços, andorinhas, trinca-ferros, rolinhas. Os papagaios passam com seu canto rouco e vôo desajeitado pela manhã e regressam no fim da tarde ao Morro de São João. Um ou outro tucano, de vez em quando, aparece para surpreender. Sem contar as aves marinhas em seu incansável mergulho no mar para sobreviver.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Esquentando os tamborins


A enchente do mês passado na região serrana do Rio de Janeiro saiu das páginas dos jornais e do noticiário da TV. Novas notícias, outros acontecimentos dramáticos tomaram o lugar dos mortos de Friburgo, Teresópolis e Itaipava.

As vítimas foram estimadas em mais de mil e muitas ainda se encontram sob os escombros. O barro que restou no caminho das águas enterram os corpos em sepulturas desajeitadas. Muitos jamais serão encontrados e permanecerão para sempre na conta de pessoas desaparecidas.

O luto pelos mortos passa rápido na memória dos vivos. Restam como trágicas lembranças a leishmaniose, a leptospirose, a hepatite A e a toxoplasmose. Pois agora é tempo de festa, do carnaval que excita as multidões e as leva para as ruas exaltando a vida.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Perversa Paixão


Perversa Paixão (Play Misty for Me), primeiro filme de Clint Eastwood na direção, traz alguns defeitos que se pode debitar a sua inexperiência atrás das câmeras. Mas já tem a marca do seu talento.

É uma história com ingredientes de terror filmada em 1971, depois da sua volta aos Estados Unidos. Ele havia passado alguns anos na Europa estrelando spaghetti westerns e aproveitou para aprender com Sergio Leone alguns truques de narração que veio a desenvolver mais tarde.

Play Misty for Me, no entanto, foi feito sob clara influência de Don Siegel, mestre de filmes B hollywoodianos, grande amigo de Eastwood. Ele chega a fazer neste filme um pequeno papel como ator. Vale a pena ver como um bom filme continua bom quarenta anos depois.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Religiões


A crença nas divindades consola as emoções humanas e dá aos homens a esperança de sobreviverem à morte. Compensa a brevidade da vida e assegura a existência de uma outra dimensão desconhecida. Os sacerdotes, intermediários entre os viventes e as entidades divinas, encarregam-se de descrever o além e de assegurar a eternidade do castigo para os maus e da bonança para os bons.

As religiões desprezam a vida em benefício da morte, quando só então existe a possibilidade de paz para as almas e eterno descanso para o corpo. A doutrina das grandes religiões tenta domar o comportamento humano e dele exigir absoluta fidelidade a seus mandamentos.

O sacrifício é cultuado e promovido, pois só através dele são possíveis as recompensas. A repressão aos instintos vitais é a prova de fidelidade aos preceitos divinos. As religiões têm escravizado os homens em troca da esperança.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Poetas norte-americanos


Num de seus enunciados intuitivos e inteligentes, Borges disse que todos os poetas escrevem o mesmo poema. Um poeta que, hoje, começa a escrever um poema, está dando continuidade ao que outro poeta interrompeu, muitos anos antes. Isto parece ser verdade na poesia norte-americana depois da Segunda Guerra. Uma geração de poetas que escreve sob temas diversos, mas parece escrever o mesmo poema.

O país dos supermercados, das conquistas espaciais e das intermináveis guerras de ocupação talvez não pudesse dar origem senão a poetas como Allen Ginsberg, cujo poema O Uivo (Howl) é o manifesto da sua geração. Gary Snyder, W. S. Merwin, Richard Wilbur, Charles Bukowsky, com novos experimentos de linguagem, franqueza rude e um lirismo chocante, escrevem a mais criativa e contundente poesia contemporãnea.

Eles são continuadores de poetas como Edgar Allan Poe e Walt Whitman, que foram tão diferentes entre si na forma e na temática dos seus poemas mas que expressaram a dupla face e o mesmo assombro na forma de olhar o mundo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O enigma Rimbaud


Antes de partir para a África, interrompendo uma obra que já o havia consagrado como um dos maiores poetas de língua francesa, Arthur Rimbaud disse je suis venu trop tard dans un monde trop vieux. Cheguei muito tarde num mundo muito velho. Ele expressou o seu tédio pela vida citando outro poeta, Alfred de Musset.

Rimbaud é um dos grandes enigmas da literatura. Foi grande quando ainda era quase um adolescente, brilhou nos círculos literários de Paris da belle-époque e desapareceu de repente. Gabriel Bounoure escreveu um livro, Le silence de Rimbaud, com o resultado de uma pesquisa que fez seguindo os passos do poeta em sua vida na África.

O que teria feito com que ele abandonasse tudo e partisse numa aventura errante, nem sua própria irmã poderia dizer. Com o irmão no leito de morte, Isabelle Rimbaud escreveu à mãe: "Não, não acredito. É quase um ser imaterial e o pensamento foge apesar dos seus esforços. Às vezes pergunta aos médicos se eles vêem as coisas extraordinárias que ele percebe, e fala-lhes e conta-lhes com doçura, de uma maneira que eu não saberia repetir, suas impressões. Os médicos olham-no nos olhos, estes belos olhos que nunca foram tão belos e nem mais inteligentes, e dizem entre eles: "É estranho." Há, em Arthur, alguma coisa que eles não compreendem."

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sacanagem

O amigo Ricardo Soca, etimologista, manda essas considerações para a Palavra do Dia: Antenor Nascentes propunha uma origem pouco verossímil para esta palavra, baseada no vocábulo árabe acaccá, que significa aguadeiro. Na falta de outra mais consistente, essa etimologia foi recolhida por alguns dicionários, embora Antônio Geraldo Cunha advertisse que sacanagem e sacana são duas palavras de origem obscura.

No Novo Dicionário Banto do Brasil (2003), Nei Lopes afirma que o étimo encontra-se no quicongo sàkana, brincar, divertir-se, jogo, divertimento. Este autor crê que a raíz de sàkana é a mesma de disokana, copular e também de sakanesa , acariciar, esta já mencionada por Silva Maia.

Houaiss data sacana no século XVIII e aponta como sinônimos canalha, devasso e espertalhão, enquanto sacanagem teria aparecido só no século XX, mediante a aposição do sufixo -agem, uma vernaculização do francês -age, empregado em português, entre outras coisas, para dar sentido coletivo a alguns substantivos, como em ramagem, folhagem, etc.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Khadji Murát


A última história contada por Léon Tolstói começa e termina falando de uma flor chamada bardana. Mas é uma novela que narra a saga de um guerreiro tchetcheno que viveu antigamente, numa época em que os tchetchenos já lutavam contra os russos. Tolstói, um dos maiores escritores da história de todas as literaturas, era um pacifista. Em Khadji Murát, no entanto, o tema é a guerra, com sua brutalidade e a coragem que exige dos homens.

O perfil do Czar Nicolau I, traçado neste livro, “com um olhar sem vida, o peito inflado e a barriga comprimida, que transbordava por cima e por baixo da compressão”, é o de um tirano insensível, cruel e ridículo. O poder absoluto, na maioria das vezes, está em mãos de pessoas medíocres.

Publicado em 1912, dois anos depois da morte do autor, Khadji Murát tem sua origem na época em que Tolstói serviu como oficial do exército russo no Cáucaso e ouviu dos camponeses a história do guerreiro que resolveu seguir o seu próprio caminho. Foi a última manifestação do vigor criativo de um grande escritor antes de morrer.