terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O gato negro

As crenças medievais e a perseguição religiosa às heresias foram responsáveis por crimes em nome da fé, violência em nome de Deus e desastres provocados pela ignorância e o medo. A caça aos acusados de bruxaria, queimados nas fogueiras da Inquisição, levou ao quase desaparecimento dos gatos nos países europeus, pois acreditava-se que eles eram os animais de estimação das bruxas e por isso deviam também ser mortos.

Ainda hoje há gente que odeia ou tem medo de gatos, um resquício da mentalidade que reinou na Idade Média. A superstição violenta e cega cobrou no entanto seu preço com uma tragédia. A matança dos gatos fez crescer o número de ratos e a peste bubônica se espalhou pelo continente. Chamada de peste negra, matou mais da metade da população da Europa.


O gato negro foi o mais perseguido, torturado e sacrificado. A ignorância associa a cor preta ao mal e à escuridão que assusta. Rituais de magia e religiões primitivas continuam a sacrificar gatos negros nas sextas-feiras sombrias da estupidez humana, incapaz de compreender sua misteriosa beleza.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O peru de Natal

Hernán Cortez descobriu o peru nos mercados astecas, durante a impiedosa conquista do México. Levou-o para a Europa, onde substituiu o ganso que era servido à época nos grandes jantares de comemoração. Mas foi a partir da ceia do Dia de Ação de Graças, nos Estados Unidos, que a imponente ave passou a fazer parte do Natal de vários países, entre eles o nosso.

Na origem do hábito de comer peru na ceia de Natal encontra-se o ritual do sacrifício de vidas aos deuses das religiões. A mesa farta do dia 24 de dezembro compensaria também as dificuldades vividas durante o ano.
O sacrifício do peru obedece também a uma espécie de rito. No Brasil, a tradição do interior mandava começar com o ato de lhe dar um gole de cachaça. Poderia, assim, morrer descontraído e mais ou menos feliz, capaz de oferecer uma carne mais tenra.


Doka, meu velho amigo, recebeu da mãe a tarefa de sacrificar o peru na véspera do Natal. Foi para os fundos da casa, armado de uma faca amolada, deu ao peru um gole de cachaça, tomou outro e repetiu o gesto mais algumas vezes. Apareceu depois com o peru ainda vivo nos braços. Informou à mãe e a todos que estavam na sala que aquele ali era seu amigo, bebia em silêncio, bem comportado e não lhe atanazava o juizo. Não merecia morrer.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sonhos

No meio da noite, a cadelinha emite sons de agonia, acorda e demora algum tempo para voltar a dormir. A gata, em sono profundo, às vezes desperta, pula e abre os olhos como se algo tivesse de repente a ameaçado. Os animais sonham como os humanos? Existe uma área em seu mundo onírico onde a vida continua a assustar com seus fantasmas, íncubos e súcubos da existência adormecida?

Nossa vida não é única, ela muda algumas vezes em fases que permanecem conosco como se fossem vidas passadas. Há coisas que vivemos e que pensamos ter esquecido mas continuam a nos acompanhar. Sem a consciência da razão, certas angústias nos surpreendem, talvez motivadas por atribulados momentos vividos e que continuam a nos atormentar.


Durante o sono, as defesas se recolhem no inconsciente e brumas misteriosas envolvem o horizonte do pensamento adormecido. Retornam imagens da infância perdida, de momentos intensos, vastas emoções, conforme a definição de Freud.  Isto aconteceria também à pequena cadela, à gatinha gentil?  O homem compartilha êxtase, alegria e caos com os bichos que o acompanham?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O destino

Desde o primórdio dos tempos que o homem especula sobre o próprio futuro. Consultas a oráculos e pitonisas, investigação das nuvens, dos astros e das entranhas de pássaros aplacavam ou faziam crescer a sua angústia diante do destino. A ignorância sobre o que vai lhes acontecer ainda provoca ansiedade às pessoas e elas tentam decifrar o mistério do desconhecido.

Homens poderosos, guerreiros do porte de Alexandre Magno, líderes como Julio Cesar e Otávio, todos procuraram perscrutar o futuro. Felizes quanto às boas novas, amedrontados diante de perigos anunciados, confiavam cegamente nos adivinhos. Até hoje os donos do poder e do dinheiro cedem ao medo diante das brumas do que virá. São terreno fértil para a exploração de videntes e profetas.


Aristóteles, entre os filósofos da antiga Grécia, foi um dos que duvidaram da ação dos deuses sobre a sorte dos homens e estudou o herói das tragédias. A responsabilidade pelo que pode acontecer no futuro, disse, encontra-se nas ações humanas e resumia esse conceito afirmando que o destino do homem é o seu caráter.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Universos

Quando olhamos para a representação gráfica do universo, sentimos nossa insignificância e fragilidade. E também a desimportância do nosso pequeno planeta diante da enorme constelação de galáxias e da comprovada existência de outros universos diferentes e distantes deste em que vivemos.

Somos uma partícula de poeira, milagre inexplicável, acidente fortuito numa constelação infinita de possibilidades nunca resolvidas. Não entendemos por quê existimos e a idéia de Deus não é suficiente para explicar o milagre da sobrevivência no cosmos, no caos e no enorme concerto interplanetário.


A inexplicável existência de diferentes universos, sistemas distantes que nossa imaginação não consegue realizar aprofunda nosso isolamento. Somos uma espécie de macacos evoluidos num ambiente infinito que não conseguimos compreender. Olhamos para o céu e perguntamos se existirá algo parecido com a vida em outros mundos e esta pergunta torna maior ainda a nossa solidão.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Ética


Fizeram uma pesquisa na Inglaterra entre ateus para saber de onde vêm seus valores morais. A maioria respondeu que vinham dos pais, outros mencionaram os livros. Mas não se falou de algo que perpassa todos as crenças humanas, junto ou acima das religiões, das ideologias e todo tipo de fé, a grande aspiração da humanidade por melhorar sua breve existência.
O homem tem a intuição de que não será possível compreender o mundo sem consciência ética. Platão formulou a tese de Sócrates “o belo é o bom” e depois acrescentou que o bem produz o belo. Não seria necessária, pois, a intervenção divina para dizer ao homem o que ele deve considerar certo ou errado, nem as leis nem os costumes seriam condicionantes da melhor conduta humana.
O bicho humano, animal feroz e predador, traz consigo a extraordinária angústia de superação. Conhece suas limitações, suas inclinações para a perversão mas não é isto o que deseja ser. Inventou a divindade como ente supremo e modelo para si mesmo, sabendo que jamais poderá atingir a perfeição. Esta é a sua condenação, exposta dramaticamente por Lúcifer, o anjo portador da luz que ousou desafiar Deus e mergulhou na escuridão.