sábado, 16 de agosto de 2014

Mulheres

Olho as mulheres. Não mais com o desejo capaz de mudar a vida e abrir destinos imprevisíveis, como foi antigamente. Copacabana, cada vez mais cosmopolita, cheia de meninas que vêm dos países do mundo, é um dos terraços privilegiados para a observação do comportamento delas. Todas em momentos de lazer, contemplação e usufruto da vida.

Olho como elas andam, pois o andar transmite uma mensagem aos outros que estão em volta. Reparo o caminhar das meninas louras estrangeiras. Elas balançam ritmicamente os seios, para cima e para baixo. As meninas morenas do bairro movimentam os quadris num ritmo sinuoso. São códigos diferentes da linguagem da sedução dizendo coisas semelhantes.


As fêmeas humanas na idade própria da reprodução caminham de forma a atrair a atenção do macho e assim garantir a preservação da espécie. A humanidade nunca desaparecerá, é o que diz o jeito de andar dessas meninas.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Cães noturnos

Os cães da razão atacam a alma dos loucos nas madrugadas sombrias. Eles vagueiam nas noites enluaradas e partem nas viagens sem destino certo. Como peixes, buscam as águas mais profundas, separam-se para depois juntarem-se novamente em cardumes incertos e sem forma definida.

Encontrei este parágrafo escrito num papel deixado em cima da mesa do botequim. Depois perdi o papel e reconstituí o texto de memória, não tenho então certeza se as palavras são exatamente aquelas. O sentido – ou falta de sentido – está mantido e as imagens que evoca depende do leitor, como acontece com todos os textos enigmáticos.


O texto literário, principalmente o texto poético, depende tanto do autor quanto de quem lê, para ter sentido. O entendimento pode variar de uma para outra leitura, na dependência de quão misteriosas sejam as palavras escritas. Tenho pensado no que se passaria nas emoções do autor daquele parágrafo quando escreveu que a razão possui cães que avançam sobre a alma dos loucos. Eles preferem as madrugadas sombrias.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Atletas

No botequim da esquina há um homem que está lá diariamente,  sentado a uma mesa da calçada bebendo cerveja de manhã bem cedo. Calça sempre tênis e veste short e camiseta. Se não fosse muito gordo e bebesse algo que não cerveja, às seis horas da manhã, dir-se-ia que se trata de um dos atletas do calçadão, como tantos que existem em Copacabana.

Mas ele não ultrapassa o limite da pequena praça em direção à praia. Sai de casa àquela hora, vestido como um atleta, e vai beber cerveja. Talvez diga à mulher que parte para a caminhada diária pois exercício físico é bom para a saúde, controla o peso e faz as pessoas se sentirem melhor. Mas prefere sentar-se ao botequim e beber por algumas horas.


Creio que é o primeiro freguês de todos os dias. Chega enquanto os garçons ainda lavam a calçada, senta-se e já lhe trazem uma cerveja sem que precise pedir. Outros que chegam pedem café, leite, pão, coisas desnecessárias para quem prefere acender o pavio a partir das seis horas da manhã. Ele acompanha com olhar curioso os atletas que se dirigem à praia, alguns impacientes, que atravessam correndo, com respiração acelerada, o  sinal fechado da Rua Barata Ribeiro.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Luar sobre Copacabana

Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.

Invisível-indivisível, o corpo
anda : corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.

Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.

Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.

O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.

O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.

Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos,
habitação do medo, onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos

são aves recolhidas pelo vento .

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Anti-heróis

Temos dificuldade em lidar com as situações onde não tivemos o desempenho que nosso orgulho esperava. Fernando Pessoa disse num poema que todos os seus amigos tinham sido campeões em tudo e só ele permanecia reles  e vil. Pois assim somos todos. Tantas vezes fracos, tantas vezes vis. Esperamos de nós mesmos o que não podemos dar ou fazer.

Faz parte da nossa vida fracassos retumbantes, expectativas decepcionantes e retiradas desonrosas quando esperávamos ter tido uma postura altiva. Cometemos gafes quando deveríamos ter sido elegantes. Falamos quando deveríamos ter calado. Acovardamo-nos na hora de enfrentar o perigo, abandonamos o que havíamos esperado proteger.


O heroísmo não pertence ao universo dos comuns. Quando surgiu a situação de perigo, fugimos para nos abrigar. Imaginamos ter comportamento heróico mas abraçamos a oportunidade de fuga. Somos uma decepção diante do espelho da vida. É por isso que temos tanta admiração pelos heróis.