quarta-feira, 4 de junho de 2014

Final de romance

Os gritos rasgaram a noite, os vizinhos chegavam às janelas procurando entender o que se passava.  A violenta discussão do casal provocava ecos no silêncio da rua e ouviam-se também o arrastar de móveis, o derrubar de cadeiras, o ódio escandido entre as sílabas dos insultos.

A voz aguda da mulher destacava-se, a voz rouca do homem fazia-lhe contraponto enquanto a raiva subia o tom das ofensas mútuas. Uma porta bateu, um grito histérico teve como resposta palavrões muito fortes e uma vez mais eles se agrediam num mesmo diapasão.


O ódio deixava transparecer sua enorme sombra nas vozes que devem um dia ter trocado palavras de amor que se traduziam, agora, em ressentimento e violenta agressão. A noite ainda exibia uma réstea de lua, os raros automóveis aceleravam na esquina e um último bater de porta devolveu o silêncio, a não ser pelo ressoar do que parecia soluços. Ou era só minha imaginação.

domingo, 1 de junho de 2014

O não, o sim


A palavra não diante do sim multiplicado
acovarda-se no escuro, exaure seu sentido,
dirige-se ao fundo de um abismo
onde insetos se aproximam da alma dos vencidos.
Idas e voltas sob o sol do meio-dia
e a noite plena conspurca a palidez
de uma dor só na madrugada fria.

Separam-se as luzes, opacidade das águas,
elas negras de ventos e a vontade
de dizer algo mais que inquietude.
Noites como dias de tez enegrecida
e o pensamento de outrora - palavra sem sentido
na fala de um velho emudecido,

pássaro cansado de lirismo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A teia

Debatendo-se, o inseto tenta escapar da teia mas seus movimentos afundam-se na inutilidade enquanto a aranha avança. Ela não tem pressa e cada um dos seus passos parece calculado para aumentar o desespero de sua presa. O pequeno inseto parece não querer desistir e luta na busca da liberdade que pode estar muito próxima, talvez no movimento seguinte que poderia libertá-lo da teia pegajosa.

A luta intensa contra os fios que, a cada movimento, parecem fortalecer-se em torno do seu corpo, estão cansando o prisioneiro. Ele tenta desvencilhar a cabeça, depois as pernas, enrola-se em outros fios e por um momento parece desistir mas retoma a luta cada vez mais desesperada enquanto a aranha, lentamente, avança.


Ela, a aranha, interrompe por um momento sua lenta caminhada, como se fizesse uma parada para contemplar o inseto enrolado em sua teia. Depois torna a avançar, muito devagar, como se antecipasse o prazer que a espera. O pequeno prisioneiro, então, interrompe a luta e se entrega a seu destino.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A música

Os sons, mais do que os perfumes, despertam em nós a memória do passado. Napoleão Bonaparte dizia que não diferenciava a música de outro barulho qualquer, mas ela nos conduz no roteiro da imaginação. O funcionamento das emoções, que desafia as funções químicas do cérebro, nunca foi traduzido pela ciência mas há na música uma transcendência de sentidos que se encontra alem do entendimento e da lógica.

Os sons organizados da música são capazes de nos guiar até um nível próximo da consciência, com o poder de redimir sentimentos. Arrependimentos tardios, perdas ou celebrações, abismos, glória e alegria são transformados na abstração de uma forte linguagem através de cordas, sopros, toques, reverberações.


Sons que nos conduzem à consciência e ao entendimento dos desvãos da alma, do reencontro com algo que foi perdido em algum lugar, em algum momento que não imaginamos onde nem sabemos quando.

domingo, 18 de maio de 2014

Piaba

Há muitos anos, há distantes, longos anos, quando todos ainda estávamos vivos, sentávamos às margens do Capibaribe e, noite a dentro, procurávamos entender o mundo. Em nossa volta juntavam-se meninos de rua, pequenos delinquentes que viviam de pequenos furtos mas que não nos incomodavam.

O líder desses meninos – Piaba – ganhou o apelido pela técnica de pular no rio e nadar rapidamente até a outra margem quando a polícia o perseguia. Contou que só conseguiram lhe prender uma única vez mas fugiu do reformatório na primeira semana e voltou para as margens do rio e para as ruas do Recife.


Uma noite discutíamos o valor das coisas e um dos amigos revelou estar juntando algum dinheiro para uma caneta Parker 51. Na noite seguinte, recebeu de Piaba uma de presente. Não quis aceitar, mandou que fosse devolvida de onde viera e, mais uma noite depois, Piaba informou que tinha vendido a caneta e podia nos pagar uma cerveja.