quarta-feira, 14 de maio de 2014

Abatedouros

Há uma tristeza nos animais que os aproxima dos humanos. Os gatos e os cães revelam estados depressivos ou eufóricos e reagem diante do que observam em diferentes estados emocionais. Uma ovelha mostra evidente desespero nos momentos que antecedem sua morte. Os guinchos dos porcos que vão ser abatidos, o pavor das reses na chegada aos matadouros, todas são mensagens de horror que os homens se esforçam por ignorar.

A relação humana com os bichos assemelha-se ao tratamento que se dava aos escravos não tanto antigamente. São vistos como propriedade de alguém, coisas semoventes, força de trabalho. A escravização dos animais começou com a sua domesticação para fornecimento de proteínas e o homem se colocou no vértice da cadeia alimentar.


As grandes empresas de alimentos, os grandes frigoríficos e os seus matadouros auto-denominam-se processadores de proteínas. O eufemismo afasta o entendimento. Poderosos empresários, executivos com talento e sofisticada formação universitária odiariam ser chamados açougueiros ou mercadores da morte.

sábado, 10 de maio de 2014

Crepúsculo

No lançamento de um de seus livros, Jorge Luis Borges escreveu na dedicatória para uma adolescente que a ela dedicava não o exemplar em suas mãos, mas um certo por de sol que havia contemplado muitos anos antes de ela ter nascido. Borges dizia, a sua maneira, que aquela menina merecia algo que fosse mais belo do que seus poemas.

Numa outra ocasião, ele disse que o crepúsculo é uma alucinação “que impõe ao espaço o medo unânime da sombra”.  Pois quando o sol se põe, ou se deita, como dizem os franceses, dá-se o fim de um dia e as trevas começam a substituir a luz. A noite foi em todos os tempos a hospedagem do medo.


Mas o momento marcado pelas cores vibrantes que vão se acalmando encanta  pela força da sua beleza repetida em cada desmaiar do dia. Mesmo que simbolize também um instante de pressentimentos sombrios, quando os enfermos costumam temer a morte na percepção de que a luz desaparece e em seu lugar vai prevalecer a escuridão.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A Arte

Malraux disse que toda arte é uma revolta contra o destino do homem. E Woody Allen, em uma de suas tiradas, diz que a vida não imita a arte, como queria Oscar Wilde, mas imita, sim, os maus programas da TV. Na discussão infinita sobre a utilidade da arte, nem sempre prevalece a razão, pois ela é uma expressão da loucura humana evitando que os homens enlouqueçam.

Perguntar a qualquer artista por que ele escreve, pinta, compõe, esculpe, enfim, por que exerce sua arte, ele dirá que não conseguiria viver se não o fizesse. Alguns dirão que é para não enlouquecer. A presença da loucura, além de vícios que sinalizam desequilíbrios emocionais, têm sido constantes na história dos artistas.


Alcoolismo, ópio, haxixe, heroína e outras drogas pesadas não estão longe do seu universo e da sua revolta contra o destino do homem. Muitas vezes apenas a arte não basta como ato de coragem capaz de transcender a condição humana. A impotência do artista diante de sua própria arte é a sua condenação.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O tédio


Olho o mundo em volta e se levanta a poeira cinza dos acontecimentos inúteis, da ressaca dos dias e dos gestos intermináveis de demência. Evito as trevas do noticiário geral que destila ódio, ressentimentos, crime, hipocrisia e o inevitável horror de quem só observa o exterior de todas as coisas.

As ruas destilam sua pobreza e também as ameaças visíveis até no olhar das crianças. Miseráveis dormem nas calçadas, viaturas policiais transbordam suas sirenes de alarme e as multidões ocupam as praias permanentemente sujas. Há filas de velhos nos bancos, supermercados, e nos postos de vacinação. As mulheres estão gordas.


O céu é azul, os dias claros, o outono amenizou o tempo. O vento fresco espalha tédio pelos quadrantes do mundo apesar das guerras, da dor acompanhando os fugitivos e do olhar dos condenados à morte. A dança dos fantasmas ronda os presídios, favelas, as habitações burguesas e o pátio das escolas.

domingo, 27 de abril de 2014

A face do mistério

Para os religiosos, o mistério não é para ser desvendado porque situa-se no campo inquestionável da fé. Mas a inteligência tem desafiado a fé e procurado a explicação de tudo. Desde os filósofos gregos e da descoberta do Sol como centro de um sistema de planetas onde estamos confinados e vivemos nossa curta vida. A aventura humana na busca do conhecimento trouxe também a consciência do quanto somos limitados e como é ampla a nossa ignorância.

Somos prisioneiros num labirinto e nele nos perdemos olhando para o infinito procurando enxergar na escuridão. Desconhecemos a causa da existência e o efeito dos fenômenos, perguntamos se há vida em outros pontos da galáxia. O homem olha para o céu e se interroga sobre a enorme solidão da sua espécie.


Acordamos há pouco e tateamos na sombra imensa, escura, desconhecida. Diante de nós encontra-se a compreensão do que buscamos desde sempre, nosso pensamento toca na superfície e recua com medo da descoberta. Este é o desafio que transcende a lucidez e mergulha o espírito na loucura para entender o caos.