quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Minissaia


Nos anos sessenta, as mulheres encurtaram a saia em 20 centímetros acima dos joelhos e ficaram mais femininas. Mais ou menos na mesma época, feministas radicais queimaram os sutiãs. Embora por motivos diferentes, os dois movimentos melhoraram bastante o visual da mulheres, as feias que me perdoem.

Disputam a autoria da minissaia a inglesa Mary Quant, o francês André Courreges e a americana Helen Rose, mas na China da Idade Média a saia curta Miao, que mal cobria as nádegas, foi uma novidade a causar certo frisson.

A partir dos anos 60, as mulheres nunca mais abandonaram a moda das saias muito curtas. Nos colégios religiosos, as meninas, longe da disciplina das professoras, costumam dobrar a bainha da cintura, encurtando a saia do uniforme escolar, para desfilarem pelas ruas de Copacabana. As fêmeas, em todas as espécies, têm sempre uma maneira mais ou menos sutil de atrair os machos e, assim, garantirem a preservação da espécie.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Coisas íntimas


Na mesa da esquerda dois homens conversam, quase bêbados. Um deles faz confidências ao outro. Não é muito comum homens confessando coisas íntimas, a não ser quando bêbados. As mulheres, ao contrário, expõem mais facilmente os seus sentimentos.

O homem gordo dizia ao outro que nunca se sentiu à vontade no casamento, parecia que ela, a mulher, alimentava enquanto ficaram juntos um certo sentimento de hostilidade que os afastou. Ele diz que segurou enquanto pôde até o dia em que arrumou algumas roupas numa mala velha e saiu de casa. A antiga hostilidade transformou-se em ódio.

Ele continuou a falar, o outro escutava com interesse. Acrescentou que já se sentia cansado de se defender perante juizes e delegados de acusações por conta de agressões que nunca praticou, de pensões de alimentos que não devia e de intrigas espalhadas no trabalho e entre seus amigos. Ficaram muito tempo conversando. Procurei desviar minha atenção, pois comecei a me sentir violando o sofrimento de um homem quase bêbado, num botequim de Copacabana.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Primavera


Sol entrecortado de chuva marca o início da primavera e prepara a chegada do verão, numa cidade que hiberna até setembro, para despertar no calor. Um amigo diz pela internet que os pássaros de Ipanema, onde mora, enlouqueceram e começaram a cantar desesperadamente, antes mesmo de o sol nascer. Outro amigo diz que esta aflição dos passarinhos deve-se à busca das fêmeas para o acasalamento da primavera.

Num país com tão poucos traços das quatro estações, das quais apenas duas marcam realmente sua presença, os sinais da primavera trazem a agradável surpresa de assistirmos ao desabrochar das plantas, do desejo dos pássaros e ao nascimento das flores. Em Copacabana, os botões franzinos se abrem timidamente nas calçadas.

Talvez tenhamos nos esquecido do calor que fez no ano passado, antes mesmo de o verão chegar. A presença antecipada de tantos turistas, brancos e louros, ocupando a orla do mar, é um sinal do quente verão que nos espera. Eles, como os insetos alados que são atraidos pela luz, antecipam a intensidade do calor que irá fazer antes do fim do ano.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Publicidade sem glamour


A publicidade não é tão glamurosa como antes, parece dizer o exodo dos criativos das grandes agências americanas, que procuram em algum lugar um trabalho que lhes dê prazer. Foi o jornal Advertising Age, especializado em marketing e propaganda, quem detectou o movimento, depois de observar a fuga recente de pelo menos oito grandes estrelas das maiores agências.

Eles se queixam da falta de respeito dos clientes, que os tratam como fornecedores de commodities e não como artistas que dão vida a um produto. O conhecido ego dos criadores não suporta mais esse tipo de relacionamento. E o ego, é preciso que se reconheça, é o que mobiliza o talento.

You’re nobody’s bitch – você não é prostituta de ninguém, foi o conselho que Gerry Graf, uma daquelas grandes estrelas, recebeu de um amigo antes de deixar a Saatchi em busca de algum lugar que reconhecesse seu talento.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Nosferatu


Nosferatu, filho de Lilith, a primeira mulher de Adão antes de Eva, sobreviveu nos mitos criados pelo medo que habita o coração dos homens. Vivente da escuridão, transforma-se em morcego e sobrevive sugando o sangue dos inocentes.

Em 1922, o cineasta alemão Friedrich Murnau contou a sua história num filme que se transformou em um clássico do cinema de horror e deu origem a uma longa série de histórias de vampiros. Murnau inspirou-se no romance Drácula, de Bram Stocker. Ele não conseguiu obter os direitos da viuva do escritor para filmá-lo e criou a sua própria história. Nosferatu é a melhor representação do Mal jamais imaginada.

É uma personagem triste, sofre de profunda solidão e a sua vida nas sombras aterroriza muitas crianças e adultos que sofrem da síndrome de pânico. Nenhum poder o detém, a não ser a visão da cruz, o cheiro de cebolas ou uma estaca cravada no seu peito.

sábado, 11 de setembro de 2010

Políticos


Marquinhos estava ontem na rua com seu rádio nas mãos, longe dos ouvidos. O rádio é mudo mas ele não se importa e costuma postar-se na esquina de Barata Ribeiro com República do Peru escutando o que deve ser música, pois dança balançando as pernas.

Marquinhos estava seletivo, na tarde de ontem. Não xingava todos os passantes, como costuma fazer, nem se dedicava a dirigir o trânsito caótico daquela esquina. Concentrava-se nas pessoas que seguravam cartazes de propaganda política e disparava sua algaravia, de olhos esbugalhados, na direção das fotos dos candidatos.

Nas campanhas eleitorais, os políticos contratam pessoas muito pobres para se postarem em locais de grande tráfego empunhando sua propaganda. Marquinhos, indignado, ignorava os que seguravam os cartazes em frente à estação do metrô e se dirigia aos políticos que se exibiam nas fotos, esculhambando os rostos sorridentes, para os quais apontava o dedo gritando palavras que não existem. Mas era fácil imaginar o que diziam.

domingo, 5 de setembro de 2010

Ava e Frank


A história de amor e um casamento fracassado entre Ava Gardner e Frank Sinatra alimentaram as colunas de futilidades dos anos 50. Ele abandonou a mulher por ela mas, juntos, não tiveram um momento sequer de felicidade fora do sexo, se for verdade o que ela disse: “os problemas começavam entre a cama e o bidê”.

Talvez Ava fosse bela e independente demais, a ponto de virar a cabeça de homens como Mickey Rooney, Howard Hughes, Artie Shaw, Luis Dominguin e o próprio Sinatra. Ela se banhou nua na piscina da casa de Ernest Hemingway e ele deu ordens para nunca mais esvaziarem a água.

Sinatra nunca se recuperou da separação e recrutou amigos para, juntos com ele, comporem I’m a fool of want you, um verdadeiro hino à dor de corno. Vale a pena ouvir. Clique aqui.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Na escuridão

O homem estava sentado numa mesa próxima, o restaurante estava cheio e ele estava só. Olhava para a frente sem mirar ninguém, o olhar era parado, o pensamento absorto, longe do burburinho. Em seu prato havia uma salada de folhas verdes. Uma taça de vinho branco, ao lado, permanecia intocada. Ele remexia as folhas com o garfo e não comia.

Era um tipo moreno de cabelos pretos e pele bem cuidada que revelava cuidadosa exposição ao sol. Os dedos que pegavam o garfo eram de unhas bem tratadas por manicure e sua roupa cinza com paletó e uma gravata discreta traduziam equilibrio e bom gosto.

Mas ele estava só, talvez como nunca estivera. Digo isto porque seu pensamento distante franzia sua testa em um vinco que parecia uma cicatriz de angústia. Ele permaneceu assim durante todo o tempo em que fiquei por ali e depois pedí a conta e saí para a rua movimentada.

sábado, 28 de agosto de 2010

Mulheres


Tive um amigo a quem causava certa surpresa o modo das mulheres do Rio. Dizia que elas desfilam com tal auto-confiança que até as feias de cara e corpo se comportam como divas e andam como rainhas da rua. Porte altivo e bunda arrebitada, dizia, é a marca da mulher carioca, cujo caminhar pelas calçadas é como se estivesse se exibindo para admiradores deslumbrados com sua beleza.

As mulheres que consideramos feias, em seu modo de ver, são apenas as tristes e deprimidas, porque se entregam a emoções sombrias e isto se reflete no semblante e no modo de andar. E algumas que vemos como muito bonitas, senhoras de si mesmas, talvez não resistissem a um observação feita com frio distanciamento crítico.

Há verdade no que dizia. Elas se comportam como se todas fossem belas, embora tão poucas o sejam. Parece existir, no entanto, uma forma de olhar para dentro de si mesmas que se reflete no porte e na atitude. Um tipo de beleza que se origina na auto-estima das mulheres desta cidade.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Grades


O medo acompanha os habitantes da cidade porque a violência ameaça cada vez mais perto. Os condomínios buscam proteção por câmeras encarregadas de vigiar a vizinhança. Algumas são falsas câmeras, mais baratas, com o objetivo de apenas intimidar. Junto com as grades, instaladas em todos os edifícios, elas transmitem uma fraca sensação de segurança e paz, pois os jornais noticiam assaltos, praticados por atacado, em vários apartamentos numa mesma ação.

As grades de Copacabana começam a exibir algum estilo, como se as pessoas procurassem transmitir uma certa visão estética diante de um pesadelo. O amigo José Alberto, que mora em Belo Horizonte, foi quem me chamou a atenção. Seu olhar descobriu formas diferentes, desenhos originais e traços diferenciados nas grades aqui do bairro.

Da mesma maneira como a cada dia mais nos acostumamos a conviver com a violência da cidade, vamos também perdendo a capacidade de descobrir o belo nas coisas simples que simbolizam o nosso modo de ser prisioneiros.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Prostíbulos

A velha profissão sofreu um baque com o fechamento da Help mas outros supermercados do sexo se espalham nas ruas, termas e boates de Copacabana. De noite, a Avenida Atlântica continua no comando do trotoir feminino e masculino, embora estas noites de frio tenham prejudicado o movimento. A pouca roupa necessária à exibição do corpo inviabiliza a amostra mas dá uma chance maior às mais feias ou muito magras, que podem assim disfarçar a desvantagem na concorrência com as mais exuberantes.

As jovens expulsas da Help foram para a rua enfrentar o frio. Penso que são poucas as que puderam ser aproveitadas nas arenas de alto luxo como La Cicciolina ou Scotch Bar, a maioria ficou mesmo nas calçadas.

Existem mulheres – e homens – à venda em locais muito caros ou muito baratos, em qualquer faixa de preço. Todos jóvens. O garçon de um botequim certa vez observou que não existem mais prostitutas velhas como antigamente, porque hoje as drogas tiram delas a chance de envelhecer.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Discépolo


O pessimismo cético de Enrique Santos Discépolo pode ser resumido nos versos que escreveu em um dos grandes tangos que compôs, “Qué vachaché”: o verdadeiro amor se afogou na sopa, a pança é a rainha e o dinheiro é Deus. Talvez nenhum outro compositor tenha melhor representado a alma argentina do que este artista versátil, misto de ator, diretor e músico que definiu o século 20 em que viveu como um cambalache.

Discépolo é o maior poeta popular argentino. Deixou sua marca na música do seu país, pois todos os outros compositores que vieram depois dele foram de uma maneira ou de outra influenciados pela sua maneira de ver o mundo:

Verás que todo es mentira,
verás que nada es amor,
que al mundo nada le importa...

A interpretação de Gardel em 1930 para Yira, Yira, de onde tirei estes versos, é um dos grandes momentos da história do tango.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Fausto


A primeira vez em que percebi a sua presença foi num restaurante chinês que existiu na rua Bolívar. Escutei uma voz poderosa e alta dizer “Karl Marx era veado!” e me virei para olhar. Tratava-se de um sujeito muito grande, na companhia de uma loura muito bonita, a quem certamente queria impressionar.

Depois nos aproximamos por intermédio de um amigo em comum. Conhecí os seus livros, acompanhei suas crônicas nos jornais em que escreveu. Bebíamos juntos, de vez em quando. Discutíamos sempre porque eu era incapaz de acompanhar seu pensamento que contestava tudo.

Foi um dos maiores talentos da nossa geração. Nunca aceitou as coisas da forma como lhe foram apresentadas. Talvez tivesse vindo ao mundo para contradizer e agitar o marasmo medíocre que nos ameaça a todos numa vida devagar. Ele é um dos que fazem falta.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Morro do Inhangá


Do branco areal do século XIX sobrou uma praia em forma de tripa que já não é tão branca. Cercada de morros, Copacabana abriga as contradições de um país contraditório. Na Avenida Atlântica, os ricos escutam o barulho do mar enquanto os pobres se espremem nas favelas dos morros dos Cabritos, São João e Santa Marta, os que se avistam daqui do Morro do Inhangá.

O Inhangá tinha antes uma enorme pedreira que foi demolida para abrir a Nossa Senhora de Copacabana e construirem o Edifício Chopin, ao lado do Copacabana Palace. O morro permanece, escondido por uma cerca de edifícios.

O quadro que ilustra a postagem é de Luiz Christophe, um artista de talento que nasceu no Rio, em 1863, e morreu em data desconhecida, depois de ficar cego e se retirado da vida artística. É a paisagem do Leme olhada da perspectiva do Morro do Inhangá. Dizem que a palavra Inganhá vem do tupi-guarani Anhangá e significa espírito ruim. Era em cima da pedra que os raios caiam durante as tempestades.

sábado, 7 de agosto de 2010

Na fila dos idosos


A velha senhora se dirige à outra e reclama de ver escrito no cartaz que aquela fila é para pessoas da melhor idade. Melhor em que? pergunta ela, pois a fila é longa e demorada. Um senhor de cabelos brancos e tez queimada de sol, de ar altivo, também reclama. Os amigos estão lhe esperando na praia para o jogo de peteca e a fila não anda.

Lá adiante, um outro identifica a causa de tanta demora: uma velhinha esqueceu de comprar dez pães que o filho encomendara, pediu para o caixa esperar e foi buscá-los no fundo do supermercado, onde fica a padaria.

A senhora que reclamou do slogan da melhor idade diz com ar pensativo que as outras filas, nos outros caixas, estão mais longas. E comenta que nelas estão muitos idosos que evitam a caixa preferencial e preferem esperar nas outras, mais demoradas, pois não acreditam que estejam vivendo a melhor das idades.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Andar por andar somente


Suas roupas são limpas e pobres, ela não se veste como as mulheres da sua idade, em Copacabana, que se vêem como jovens e desfilam em apertadas roupas esportivas. Seu cabelo é grisalho e não pintado de louro, como é costume por aqui. Nem sua pele é queimada pelo sol do último verão e agora, no inverno, começa a adquirir um tom meio acinzentado.

Ela também não se pinta em cores vermelhas. Passaria praticamente despercebida, em sua tonalidade de vestes escuras. Não teria chamado a atenção se não caminhasse todas as tardes, em volta do mesmo quarteirão, todos os dias: o quadrilátero formado por Barata Ribeiro, Paula Freitas, Nossa Senhora de Copacabana, República do Peru e novamente Barata Ribeiro, continuadamente.

Fuma sem parar, olha sempre para o chão. Alheia ao movimento das ruas, às pessoas que passam a seu lado, ao trânsito louco do fim do dia.

domingo, 1 de agosto de 2010

Pandora


Pandora, a primeira mulher, foi enviada por Zeus para casar-se com o titã Epimeteu, a quem desejava punir. Levou com ela de presente para o marido uma caixa que continha as maldades que os homens até então desconheciam.

A velhice, a doença, a tristeza, a loucura, o vício e a fome estavam dentro da caixa que Pandora, curiosa, acabou por abrir, espalhando no mundo todo o seu conteúdo.

A caixa de Pandora trazia também algo diferente dos males do mundo, colocada pelos deuses – a esperança. Ava Gardner, outro mito, mais bela do que nunca, interpretou uma misteriosa Pandora. Encontrei aqui uma cena do filme.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Cena no aeroporto


No restaurante do aeroporto, vôo atrasado, observo a moça que sentou-se numa das mesas do canto e pediu uma garrafa de vinho. O garçon serve-lhe a taça, ela dá sua aprovação e fica batucando na mesa com os dedos enquanto bebe em pequenos goles.

O rapaz chegou cerca de dez minutos depois, sentou-se e recusou o vinho, preferiu cerveja e ambos pediram os pratos que escolheram no cardápio. Comeram vagarosamente, conversaram pouco, trocaram de vez em quando algumas rápidas palavras.

Depois ele levantou-se e, com o celular, tirou bem de perto uma foto do rosto da moça. Em seguida pegou sua bolsa e tomou a direção da porta de embarque. Ela continuou sentada, até terminar a garrafa de vinho. Então pagou a conta e, na porta de saída do restaurante, levantou os dois braços e saiu dançando num alegre requebrado.

domingo, 25 de julho de 2010

Fortaleza



No lugar onde foi construido em 1649 um forte holandês, surgiu Fortaleza, hoje uma metrópole regional com a força e os problemas de uma grande cidade. O transito é intenso e problemático, o povo se queixa da violência e a indústria dos imóveis ocupa os espaços com seus espigões.

Mas é uma cidade rica, organizada e limpa, de feição moderna. Os bares estendem-se na orla das praias e permanecem abertos pela noite a dentro. O turismo se destaca entre as atividades econômicas.

Ao contrário do Rio, que esconde o mar do olhar de seus habitantes, Fortaleza expõe suas águas azuis.

terça-feira, 20 de julho de 2010

O destino


Quando tomou consciência de si mesmo, o homem fez as três perguntas que nunca deixaram de persegui-lo: quem sou, para onde vou, qual minha origem? Foram estas indagações sem respostas que fizeram surgir os mitos e as religiões, a ciência e a filosofia.

Ao descobrir que habita um pequeno planeta de uma enorme galaxia e que se encontra só num universo infinito, o homem sofreu a angústia da existência e e se refugiou nas suas crenças e superstições.

Hesíodo, um poeta que viveu em Ascra, na Grécia, há dois mil e oitocentos anos, acreditava que a origem do homem é um mistério mas seu destino é o seu caráter. A ilustração do post é a foto da estátua do poeta.

sábado, 17 de julho de 2010

Sob a chuva


A manhã chuvosa esvazia as ruas, Copacabana perde seu ar praiano. Nos bares, as mesas de calçada protegidas de cortinas plásticas estão ocupadas por clientes vestidos com roupas de inverno. Bem diferentes daqueles outros seminus que fazem o agito do verão.

Os quatro velhinhos gays tomam chope, só um deles está diante de um copo de vinho. Olham os passantes, trocam pequenos comentários com um jeito irônico e divertido.

Na feirinha da minha rua, uma menina me dá uma receita de sopa de banana verde: cortá-la em fatias finas, fritá-las e depois misturar em caldo de carne. Na Barata Ribeiro, em frente a uma academia de ginástica, um conjunto nordestino formado de sanfona, zabumba e reco-reco, toca uma música cujo refrão repete se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. As pessoas dançam.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A indústria pornográfica


Definindo-se como erotic house, a loja fica numa esquina da Nossa Senhora de Copacabana, ironicamente situada entre uma Igreja e um supermercado. Os clientes entram lá disfarçadamente, num rápido movimento, quase um pulo. Na maioria são turistas em busca de sensações.

A pornografia acompanha o homem desde antigas eras, como testemunham as paredes de Pompeia. Há pouco, arqueólogos encontraram na Alemanha uma imagem de 7200 anos sugerindo um ato sexual. A figura masculina foi batizada de Adônis von Zschernitz.

Nos tempos modernos, transformou-se numa indústria lucrativa e multinacional, movimentando alguns bilhões de dólares, com sistemas próprios de distribuição, canais de TV e grandes lojas em redor do mundo. Com o advento da internet, calcula-se que o negócio aumentou seu faturamento mais de vinte vezes, desde 1980. Os movimentos feministas protestam, dizem que a pornografia gera violência contra as mulheres e trata-se de um jeito sórdido de lidar com a sexualidade. Mas a indústria não para de crescer.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

As utopias


Depois da Segunda Grande Guerra, o Ocidente respirou aiviado e os jovens dos anos 50 acreditaram na vitória do Bem sobre o Mal. A juventude vive de utopias. Muitos adotaram o socialismo como idéia política. Ao lado da democracia como sistema de governo, seria capaz de trazer felicidade aos povos do mundo e assim marcharia a História. A fé na bondade inata do ser humano foi cultuada, uma herança do cristianismo.

O tempo encarregou-se de enterrar todas as crenças. As cruéis ditaduras militares neste sub-continente, a permanência das guerras cada vez mais destruidoras em todo o mundo e a perversa realidade dos países comunistas finalmente revelada vieram mostrar que nada daquilo era verdadeiro.

A fé na bondade dos homens foi confrontada com os crimes impiedosos que ocorrem todos os dias, com a violência, a corrupção e a morte. Nada permaneceu de pé. As utopias eram meras utopias.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Na Lapa


Depois do almoço no Bar das Quengas, Julio pega um taxi para Botafogo e eu resolvo perambular um pouco pela Lapa. Desço vagarosamente a Rua do Rezende. Muitas lojas de antiguidades e uma de serviços funerários onde dois homens sentados em volta de uma mesa dão gargalhadas.

Tinhamos conversado, durante o almoço, sobre a decadência e a ressurreição da Lapa. Nos anos trinta, foi bairro boêmio vibrante e polarizador que o amigo, nascido na Argentina, comparou a Santelmo, na Buenos Aires da mesma época. Ressonou abandonada dos anos sessenta até os noventa, quando começou a se espreguiçar e despertar do sono da decadência. Hoje, é um lugar interessante.

Atravesso Inválidos, Gomes Freire, Lavradio. Mesmo nessas horas da tarde o comércio se movimenta. Os restaurantes estão meio vazios, esperando o fervilhar da noite. No Circo Voador, ensaia uma ruidosa banda. Em frente aos arcos, uma graciosa menina faz pose para um fotógrafo. Com o celular, aproveitei a cena e fiz a foto que ilustra o post.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Internaram Marquinhos


Já falei dele aqui. Marquinhos, que fazia ponto na esquina da Barata Ribeiro com República do Peru, onde disseminava sua ira contra automóveis e pedestres. Numa algaravia em que só os loucos conseguem se expressar, dirigia impropérios aos passantes enquanto tentava orientar o trânsito. Ou então ouvia um rádio mudo mas que emitia uma música que só ele ouvia, em cujo ritmo dançava balançando as pernas.

Era o idiota da pequena aldeia formada por aquele quarteirão de Copacabana. As crianças riem dos loucos inofensivos e o provocavam na saida do colégio para vê-lo enraivecido e depois corriam dos seus arranques.

Está desaparecido há meses. O garçon do botequim diz que foi internado, depois de uma crise em que manifestou seu protesto de maneira mais furiosa contra o trânsito caótico que não conseguia organizar e as pessoas que passavam a seu lado meio amedrontadas, fingindo indiferença.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nordestinos


Vieram amontoados em caminhões para ganhar um salário miserável na construção de edifícios. A indústria imobiliária não é indústria, mas um artesanato de tijolos e argamassa de cimento e pedras. Eles vieram para fazerem com suas mãos a Avenida Paulista, os prédios monumentais de Brasília e as ofertas do marketing imobiliário de Copacabana, Leblon, Ipanema, Barra da Tijuca.

Foram importados como matéria-prima de baixo preço e alojados em moradia degradante. Fizeram crescer as favelas do Rio porque os incorporadores preferiam que ficassem próximos das obras, pois assim poderiam pagar menos pelo seu trabalho. Discriminados como minoria, são alvo de movimentos neonazistas em São Paulo.

Um deles chegou a presidente da república, outros voltaram para sua pátria, onde morrem afogados por enorme volume de água, depois de tantos anos de seca.

sábado, 19 de junho de 2010

Cristo fulminado


Na segunda-feira passada, a estátua de Jesus construida em Cincinatti, Ohio, por uma igreja evangélica chamada Solid Rock Church, foi destruida por um raio. O amigo Marcelo, que enviou a notícia, diz que foi um aviso. A sinceridade dessas igrejas que aparecem de repente como se fossem lojas comerciais está sempre sob suspeita, e não se deve nunca duvidar de certos sinais do sobrenatural.

O monumento, batizado como Rei dos Reis, na porta da igreja, tinha 20 metros de altura por 12 de largura. Os fiéis terão de multiplicar o valor do dízimo para pagar o prejuizo, calculado pelo pastor em 1,4 milhão de dólares.

Aqui em Copacabana, a Igreja da Multiforme Sabedoria de Deus, instalada ao lado do Bar e Café União, também anda no prejuizo. Enquanto o botequim está sempre cheio, a Igreja até agora não conseguiu firmar o seu prestígio. Quase dois anos depois de inaugurada, numa pequena loja da Barata Ribeiro, seus bancos ainda se encontram meio vazios. Talvez um monumento na porta, como fez a Solid Rock Church, ajudasse a propagar sua mensagem.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Correndo nu


A Copa do Mundo é um acontecimento mobilizador de enorme público em todos os países onde as pessoas estão ligadas no futebol. Significa grande evento promocional, capaz de mover as marcas e estabelecer recordes de vendas de produtos populares. Trata-se de oportunidade que os produtos de consumo de massa não querem perder e por isso exercitam a criatividade.

Aproveitando a onda, a Pepsi lança esta semana na Argentina nova campanha na qual afirma que vai imitar Maradona, que prometeu sair nu pelas ruas de Buenos Aires se o seu time for campeão. O refrigerante diz que também se despirá e será distribuído sem rótulo para comemorar o sucesso da seleção. Maradona sem roupa e Pepsi sem rótulo. Ambos pelados numa festa de arromba.

Os argentinos dizem que seria bem melhor se a moda fosse adotada por Eugenia Tobal, Florencia Bertotti, Veronica Varano e Sabrina Rojas, consideradas destaques entre as melhores mulheres do país.

sábado, 12 de junho de 2010

Arroz de Braga


A cidade de Braga, a mais antiga de Portugal, é famosa pela sua velha igreja, a Sé de Braga, que vem dos anos 1000, mas também pelo arroz que leva o seu nome. Fim de semana de fria temperatura, bem indicado para se fazer este prato. Vamos à cozinha.

Ingredientes

2 xícaras de caldo de carne
2 xícaras de água a ferver
150g. de linguiça
1 paio
100g de toucinho defumado picado
2 colheres de óleo
4 sobrecoxas de frango
1 cebola picada
2 xícaras de chá de arroz
½ repolho pequeno
1 tomate picado
sal a gosto

Modo de fazer

Corte a lingüiça e o paio em rodelas e reserve. Aqueça o óleo, frite nele o toucinho e junte o frango, fritando até ficar bem dourado. Acrescente o paio e a linguiça e frite mais um pouco. Junte o arroz previamente lavado e seco e deixe refogar durante alguns minutos. Despeje o caldo e a água fervente e, quando levantar fervura, acrescente o repolho cortado em pedaços grandes e o tomate. Diminua o fogo e deixe cozinhar durante aproximadamente 15 minutos, até que a superfície apareça seca. Abafe a panela embrulhando-a em jornais e deixe descansar 10 minutos antes de servir.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Mar ausente


As cidades foram erguidas junto aos rios ou junto aos mares. São as águas que criam as paisagens urbanas e o tom do seu traçado, organizam os transportes e lhe dão personalidade. Onde não existem rios, longe do mar, crescem aglomerados tristes e destituídos de alma, como Las Vegas.

O Rio é um presente do mar, como o Egito é uma dádiva do Nilo, pela inspirada definição de Heródoto. Nas praias do Atlântico, de frente para a África e na rota das Índias, o Rio teve o seu destino e a sua glória por sua ligação com o mar que, junto com as montanhas, constroem a sua beleza.

Por que razão o Rio odeia o mar, que é sua origem e do qual depende como parte da sua essência? Nas imagens antigas, gravadas pelos artistas europeus que vieram atraídos pelo novo mundo, vê-se como a cidade era tão próxima do mar. Há sempre figuras de pessoas olhando para o mar, que pouco a pouco foi afastado pelos aterros sucessivos e pelas construções que se fazem nas praias: arenas para espetáculos, palcos, estádios, arquibancadas.

Hoje, caminham-se quilômetros pela orla e não se vê o mar.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Uma nova religião


O publicitário francês Frédéric Beigbeder foi demitido da Young & Rubican por falta grave, depois que publicou seu livro 99 francs (rebatizado como 14,99 €, depois da chegada do euro). Ele escreveu que a publicidade é uma nova religião pela qual nós somos manipulados e condicionados. Sobre seus colegas de profissão, ele diz que são embrutecidos, superpagos, totalmente cínicos e niilistas, que só pensam em lucro e jamais refletiram sobre o poder que detêm.

Beigbeder diz que os métodos de trabalho das agências são obsoletos e consistem em reuniões onde as boas idéias são destruídas. A maneira de fazer anúncios é a mesma dos tempos de David Ogilvy e Bill Bernbach e a liderança encontra-se cada vez mais com o cliente. As agências passaram a ser meras executantes.

As marcas deixaram de falar do produto e passaram a vender estilos de vida, impondo um universo imaginário ao qual crianças e adolescentes são vulneráveis e permeáveis.

Ele propõe que exista nas escolas uma matéria destinada a criar resistência à publicidade e ensinar que felicidade não é aquilo que se vê nos anúncios.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Sergio


Sergio foi um habitante de Ipanema nos anos dourados, quando a boemia intelectual marcava presença nos botequins e alegrava o bairro. Tivemos uma boa amizade, fomos vizinhos em Arraial do Cabo, no tempo em que a cidade era uma vila de pescadores, para onde iamos nos fins de semana, pescávamos, bebíamos e eramos felizes.

Quando ele se mudou para Campo Grande ninguém entendeu muito bem o que fora fazer em Mato Grosso, longe de tudo o que amava e do qual fazia parte. Fui visitá-lo uma vez, ele havia construido uma casa agradável, com uma característica que a distinguia das outras casas, pois todos os cômodos davam na cozinha, que era o centro de tudo. Ele era um grande cozinheiro.

A notícia da sua morte veio com a violência de um impacto. Ele havia sido vítima da bala de um assaltante, na frente de casa, quando conversava com amigos. Sergio era um homem gentil, de fala tranquila e de humor inteligente.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O homem invisivel


Em seus sonhos ingênuos povoados de absurdos, como costumam ser os sonhos, as crianças se imaginam com superpoderes, capazes de voar, destruir monstros inimigos e alcançarem a invisibilidade. As histórias em quadrinhos criaram superheróis que passaram ao cinema com o mesmo sucesso.

O homem invisível foi criação de H.G Wells, numa obra-prima de ficção científica, entre outras que ele escreveu, como A Guerra dos Mundos e a Ilha do Dr. Moreau. Quando não queria ser visto, bastava ao homem invisível retirar as faixas que usava cobrindo o corpo, para então circular entre as pessoas sem qualquer possibilidade de ser percebido.

As crianças gostariam de às vezes se tornarem invisíveis. Quando envelhecem, percebem que se tornaram mesmo invisíveis, podem andar pela rua e trafegar entre a gente, acompanhar multidões sem serem percebidas. É dessa forma que os velhos conseguem tornar reais as fantasias infantís que um dia excitaram sua imaginação.

domingo, 23 de maio de 2010

Três mulheres

Eram três mulheres de ar cansado que tomavam chope no fim da tarde, alheias ao burburinho da Barata Ribeiro na hora do rush. As mesas do botequim estavam todas ocupadas, como sempre no fim da tarde, e o barulho incomodava, como de hábito. Diante da zoada que elas mesmas produzem, as pessoas costumam falar cada vez mais alto para serem ouvidas e acabam quase gritando.

As três mulheres usavam roupas coloridas, falavam alto, às vezes ao mesmo tempo, como as mulheres costumam fazer quando estão em grupo e conversam entre si. Frases soltas podiam ser ouvidas de longe e quem estivesse sentado na mesa ao lado podia escutá-las, mesmo que não pretendesse ouvir o que diziam.

Elas não eram jóvens mas não aparentavam sentir-se velhas. Penso que falavam de amor e do tempo passado, pois uma delas de vez em quando repetia, como se desejasse informar ou convencer as outras, eu já fui amada, eu já fui muito amada.

Os motores aceleravam quando o sinal abria para o verde, aumentando o barulho e a poluição do ar, como acontece todas as tardes em Copacabana.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Looping


Pelas estatísticas da FAB, quase 30 por cento dos acidentes aéreos ocorrem durante o treinamento de pilotos, por culpa dos aprendizes ou da inabilidade dos instrutores.

A história verdadeira e mais surpreendente que já ouvi é a de um desses acidentes. Quando conheci Gilberto, já formado em engenharia, ele confirmou: o que tinham me contado realmente acontecera. Ele havia mesmo caido de um avião, durante treinamento quando era cadete da Aeronáutica.

Estava em vôo solo, o que significa já ter alguma experiência como piloto. Disposto a executar algumas piruetas para exibir técnica e performance, deu-se mal no primeiro loop. Havia esquecido de atar o cinto de segurança e despencou no vácuo. A FAB perdeu um avião e um piloto que escapou da morte sem qualquer ferimento e resolveu estudar engenharia.

domingo, 16 de maio de 2010

No Araguaia


Conhecí aquele inglês alí na divisa de Mato Grosso, Tocantins e Goiás, trabalhando como gerente de uma pousada flutuante no Rio Araguaia. Costumavamos nos hospedar neste botel, de onde saíamos para pescar em canoas com motores de popa, num horário que ia das quatro às dez da manhã, quando o sol se tornava insuportavelmente quente. Taylor, que se dizia de uma pequena cidade perto de Manchester, era nosso anfitrião e guia pelos pesqueiros do Araguaia.

Era ele quem nos despertava, às 3 e meia da madrugada, de modo a que pudessemos estar em plena atividade por volta das quatro. Nada comia pela manhã, tomava apenas um copo de água e, a partir das oito, abria a primeira lata de cerveja e continuava a beber durante todo o restante do dia. Aquele copo que ele dizia ser de água, descobri mais tarde, na realidade era uma farta dose de gin. Nunca o vi embriagado, embora tropeçasse nas palavras, por conta da sua dificuldade com o português.

Da mesma maneira como apareceu nas margens do rio em busca de trabalho, também desapareceu. Quando chegamos no meio do ano, depois das grandes águas, o novo gerente do botel disse que Taylor certo dia pediu as contas, tomou uma última dose de gin, pegou carona num batelão de transporte de gado e sumiu para sempre.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sao Francisco


Dizem que Ouro Preto é uma cidade onde a humanidade construiu o que tinha de melhor e de pior. Crimes, traição e ganância estão presentes na sua história. E os fantasmas rondam a cidade, dizem as lendas – ninguém passeia sozinho na sua névoa, pois uma sombra do passado o acompanha por onde for.

Cada freguesia tem sua igreja, construida nos tempos da abundância do ouro e da transbordante religiosidade do povo. Algumas são de grande beleza, como esta que fotografei no meio da noite enevoada. A igreja de São Francisco de Assis começou a ser construida em 1766, é tida como a obra-prima do Aleijadinho, que foi seu arquiteto e escultor.

Outro mestre do barroco mineiro, Manoel da Costa Ataíde, pintou o teto, representando a assunção de Maria. Os seus santos, santas e anjos trazem nos seus rostos traços dos povos africanos escravizados.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Outono


Apesar da eventual ocorrência de frentes frias que trazem chuva, maio é um dos meses que oferecem ao Rio o tempo mais agradável e temperaturas amenas. Junto com setembro, mostra que outono e primavera são as mais amáveis estações do ano. Elas fazem uma cidade mais tranquila, protegida das canículas do verão e da fria umidade do inverno.

Copacabana prepara-se para hibernar, pois vive do agito do verão carregado de turistas e de banhistas que desfilam seminús pelas calçadas. Agora, no outono, sua verdadeira população sái às ruas. Já não precisa se proteger do calor que torna mais difícil a vida dos mais velhos, enquanto os jóvens sonham com temperaturas que tragam de volta os dias de praia. Pois é na praia que eles vivem a maior parte de suas vidas, onde socializam, acasalam e assistem ao início e ao fim de um novo verão, que traz sempre uma novidade e alguma nova surpresa.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O espetáculo e o medo


Nas duas vertentes adotadas pelo cinema – arte ou indústria – os filmes americanos cada vez mais exibem a escolha das suas platéias pelo espetáculo massificado. Distante da reflexão que toda obra de arte provoca, convidando seu público a uma participação criativa, a indústria americana optou por oferecer ao mercado de um lado a pirotecnia tecnológica e de outro o terror como diversão.

A carência de roteiros criativos é compensada pelos pesados investimentos na produção de blockbusters ingênuos: Avatar, Homem de Ferro e outros super-heróis dos quadrinhos convocados por Hollywood. Uma onda escapista de filmes de animação começa também a invadir o mercado.

A produção B especializou-se na exploração dos pesadelos infantis da classe média americana, criando um gênero que aos poucos se transforma numa cultura do medo. Na falta de emoções sutís, a indústria investe o que é possível na criação de impactos violentos, na exibição de crimes horrorosos e nas ameaças do terror sobrenatural, em fórmulas testadas e repetidas para lotar os cinemas e vender milhões de cópias.

Penso que existe oportunidade para um novo cinema nos Estados Unidos, capaz de criar novas platéias, saturadas de tanto sangue e tanto medo.

domingo, 2 de maio de 2010

As paixões


Existem pelo menos três temas que fazem despertar paixões impossíveis de controlar: futebol, política e religião. Quando faz parte de uma torcida, de um partido político ou de uma das revelações da divindade, o indivíduo abre mão da sua identidade e passa a ser o átomo de um corpo do qual é a menor partícula. O pensamento lógico se retrái para dar lugar à paixão, que é irracional.

Existem, claro, outros tipos de paixão além daquelas. A paixão amorosa é uma delas, quando o amor abandona o altruismo e passa a ser uma doentia necessidade de posse e dominação. O sujeito apaixonado vive a obsessão de um pensamento fixo, um tipo de esquizofrenia que o aliena e o escraviza dentro do círculo da insanidade.

Os tipos mais comuns de paixão situam-se, porém, nas torcidas esportivas e os excessos que conduzem multidões a batalhas campais com mortos e feridos. Na luta pelo poder político, quando o confronto de opiniões contraditórias podem levar à guerra e à destruição. E na crença fanatizada na palavra que teria sido pronunciada por Deus, outra fonte de loucura que conduz à violência cega.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

In illo tempore


Estropiados depois de um dia de marcha a cavalo, nádegas feridas, costumavamos dizer entre nós “imagina se um dia vamos lembrar disso e dizermos bons tempos aqueles”. Nosso corpo tinha o cheiro do suor das montarias, um cheiro tão forte que penetrava nas unhas e demorava meses para sumir.

Os oficiais faziam questão de parecerem o que eram na verdade: oficiais de cavalaria. E se comportavam na velha tradição da mais antiga das armas dos exércitos. Eram duros, grossos, cuspiam palavrões, exigiam que fizessemos as proezas que eles faziam nos obstáculos dos exercícios exteriores. Com a diferença de que eles montavam cavalos árabes ou ingleses e nós os pangarés mal treinados da cavalhada militar.

Os exercícios em picadeiro serviam para divertir os alunos das outras armas. Eles também tapavam o nariz quando passavamos, por causa do nosso cheiro. Noventa por cento da nossa turma levavam quedas espetaculares no movimento de terra-cavalo, que consistia em passar a perna direita por cima da sela, com o cavalo a galope, saltar no chão e no mesmo impulso tornar a montar. Só não caia quem não tinha coragem de saltar. E o quartel inteiro gargalhava.

À noite, não nos deitávamos. Caíamos na cama, num sono tão profundo que era impossível sonhar.

Bons tempos aqueles.

sábado, 24 de abril de 2010

Uma surpresa


A industria põe na rua tal quantidade de produtos das suas fábricas que foi preciso desenvolver técnicas para garantir que esses bens fossem vendidos na proporção em que iam sendo produzidos. Para isso foram criadas e desenvolvidas as técnicas que os americanos chamam de marketing, palavra que adotamos porque não encontramos outra melhor para definir este processo de produto, embalagem, preço, distribuição, publicidade e vendas.

Com a ajuda da pesquisa, as técnicas de marketing chegaram a conhecer profundamente o consumidor: suas preferências, hábitos, emoções, seus pensamentos profundos. A tal ponto que vender um produto transformou-se em equações matemáticas: para entrar num determinado mercado, uma empresa deveria aplicar um volume de dinheiro correspondente aos seus objetivos, comprando dessa forma participação nesse mercado. Era assim que as coisas eram.

De repente, com a pulverização dos meios de comunicação trazida pela internet, vem a surpresa que a McKinsey & Co., uma das maiores na área da consultoria, detectou em seus estudos: dois terços da economia do mundo sofre a influência direta das recomendações pessoais. Ou seja: o boca-a-boca, direto ou eletrônico, funciona melhor do que a mídia tradicional.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Carlos Pena Filho


Carlos Pena Filho morreu com trinta anos de idade, deixou quatro livros, o último deles com sua obra completa: Livro Geral. Quando reuniu tudo o que havia escrito num derradeiro volume, será que teve a intuição da morte, dali a pouco?

Conheci-o no Bar Savoy, uma instituição do Recife que hoje não existe mais, desapareceu junto com a deterioração do centro da cidade. Eu tinha dezoito anos, dez a menos do que ele. Adorava a boemia do Recife, pensava que ali era o meu lugar. Sobre o Savoy, ele escreveu o refrão no poema Chopp:

São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.


Dos poetas de Recife, ele foi um dos maiores entre tantos que marcaram presença na melhor poesia: João Cabral de Mello Neto, Joaquim Cardoso, Mauro Mota, Ascenso Ferreira e o próprio Manuel Bandeira.

Leia neste link alguns dos seus belos poemas: http://www.interpoetica.com/carlos_pena_filho.htm

sábado, 17 de abril de 2010

A cidade do futuro


Há cinquenta anos, quando Brasília foi inaugurada, a imprensa mundial lhe dedicou grandes matérias, pois era a capital de um país construida moderna, exibindo uma arquitetura surpreendente. Vista contra a paisagem do imenso planalto, a linha do horizonte recortava os edifícios e projetava uma grande beleza principalmente ao por do sol.

Sua construção conquistou o interior de um país colonizado no litoral e os governos militares que vieram depois lhe dedicaram grande prestígio, pois era um centro de poder longe do povo, a salvo, portanto, de manifestações de desagrado.

Há quem diga que Brasília é a maior cidade do interior de Goiás. Mas foi saudada como a cidade do futuro e o futuro é hoje. Estariam depositadas neste futuro as esperanças de cinquenta anos atrás?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Rodízio e quilo


Parece que tanto os restaurantes de comida a quilo quanto as churrascarias em rodízio foram invenções brasileiras. Representam uma solução de marketing que leva em conta a fome sem medidas da clientela pois, ao invés do comerciante, quem determina o preço ou o tamanho do prato é o freguês.

Dessas duas fórmulas bem sucedidas de vender comida, o rodízio, invenção dos gaúchos, já existe até na Russia e faz o regalo dos americanos, que esbugalham os olhos e enchem a barriga nas bem sucedidas churrascarias de Miami e Nova Iorque. A carne é um produto caro, nesses países. Quanto ao quilo a preço fixo, penso que ainda não conseguiu sucesso no exterior porque os empresários do ramo de restaurantes temem perder dinheiro nesse negócio. Em Paris, cidade orgulhosa das suas casas de pasto, anunciado como “à volonté”, faz sucesso o buffet a preço fixo. É o que há de mais parecido.

Já em Copacabana, há um restaurante a quilo e uma farmácia em cada esquina. Não existe muita relação entre esses dois negócios, mas ambos são do agrado dos velhinhos do bairro, que garantem a saúde pagando apenas pelo que comem, sem maior desperdício. E dão sempre uma passada na farmácia.

domingo, 11 de abril de 2010

Depois da chuva


A atmosfera lavada abre um céu limpo e azul depois da trágica semana de abril. A amena temperatura substituindo os dias de forte calor inaugura finalmente o outono no Rio mas esta é no momento uma cidade triste. Impossível dar boas vindas com alegria a um céu azul e limpo depois da notícia de tantos mortos.

Uma cidade construida sobre pântanos e mar, crescendo sobre aterros, soterrando rios, avançando sobre os lagos. As enchentes de hoje são o movimento das águas na procura do seu espaço antigo sobre a terra improvisada.

Um amigo me diz que o Morro do Bumba, em Niterói, é uma metáfora perversa de como construimos a nossa sociedade. Uma vila sobre o lixo, construção precária tentando viver sobre detritos que se decompõem e se preparam para destruí-la.

O mar cresce, invade as praias. O limpo céu azul tomou o lugar das núvens negras que trouxeram consigo a destruição.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O melhor livro do mundo


Sua figura curva sobre o cavalo magro ainda hoje é lembrada e a história dos seus feitos continua sendo lida e cultuada. Louco, de porte desengonçado e uma bacia de barbeiro sobre a cabeça servindo-lhe de elmo, completando a velha armadura feita de lata velha, o Quixote continua a povoar o imaginário das gentes.

A compulsão de corrigir as injustiças do mundo aliada ao delírio insano da demência nos encanta porque o mito do herói nos acompanha desde muito cedo. Impossível viver sem a esperança de que todo mal seja combatido e toda injustiça compensada, apesar da dualidade do mundo e da vida.

A história do Quixote contada por Cervantes foi indicada como o melhor livro de todos os tempos, por uma comissão de críticos literários de inúmeros países. Talvez por ter descrito tão bem como são difusas as coisas do mundo, dando razão a Erasmo, que escreveu em seu Elogio da Loucura, em 1509:

"Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma verdade."

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Livros e e-books


O comércio eletrônico no Brasil cresceu 30 por cento no ano passado e nesta conta não foi incluída a venda de passagens aéreas. Os jornais continuam em queda, a televisão perde audiência e o crescimento dos e-books, nos Estados Unidos, foi de 261 por cento em 2009, na comparação com o ano anterior.

Para uns, o crescimento do livro eletrônico é assustador, pois ameaça a existência do livro. Como seria a humanidade sem livros? É a pergunta que se fazem os bibliófilos, os que amam as estantes carregadas de volumes, por onde passeiam, sonham, consultam e sentem-se felizes.

Hoje, são apenas 3 por cento do mercado de livros os leitores de e-books. Mas o crescimento é enorme e surpreende até os especialistas, que discutem e buscam novas formas de comercialização. Os autores se indagam como irão escrever no futuro, quando o livro poderá não existir mais, ou ter sua importância relativizada.

O livro, como plataforma para leitura, substituiu o papiro, copiado por centenas de escravos que, em Roma, tornavam possível difundir a obra de Virgílio, Horacio ou Ovídeo. Gutemberg trouxe uma revolução que substituiu o papiro. Estaríamos diante de outra, que substituirá o livro?

No dia do Natal de 2009, a venda de e-books na amazon.com superou pela primeira vez a venda de livros.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

As dúvidas do embaixador


Um diplomata que passou mais de vinte anos fora do país disse na volta que ainda não se reacostumara com duas manias dos brasileiros. Para protestar contra o atraso do trem, os brasileiros quebram o trem; e não havia como entender o hábito dos homens de coçar em público a genitália.
Também o impressionava o culto da Índia e do hinduismo por um segmento da classe intelectualizada, num misticismo alternativo que busca entender o mundo e a si mesmo com a importação de uma religião exótica. Quando voltou da Índia e passou pelo complexo da maré, disse ele, viu como aquelas construções eram melhores do que as casas da classe média de Deli. Pensou que o hinduísmo poderia ter tomado, naquelas favelas, o lugar das seitas evangélicas dominantes.
O embaixador morreu sem entender por que o homem brasileiro usa gravata no clima tropical do país, por que quebram os trens para protestar e por que não cultivavam o hábito lavar a genitália.