segunda-feira, 22 de março de 2010

Índios

Os índios carajás e os tapirapés têm aldeias vizinhas nas proximidades de Santa Terezinha do Araguaia. São muito diferentes entre si, a começar pela lingua que falam. Os carajás se expressam em língua do tronco macro-jê e a dos tapirapés pertence ao tronco tupi. Todos falam português de forma arrevesada e os carajás estão muito mais próximos dos brancos do que os tapirapés.

Os carajás exibem sua decadência deambulando pelas ruas de Santa Terezinha, pela dentadura estragada, a aldeia desorganizada e suja e o vício de beber. Adoecem com facilidade. Pagam o preço de terem sido seduzidos e abduzidos pela civilização dos brancos e suas aparentes facilidades.

Os tapirapés são arredios, raramente vão à cidade, cultivam as tradições tupis e vivem da caça e da pesca na pequena reserva que conseguiram delimitar. No princípio dos anos 90, fui mais uma vez ao Araguaia. Estive com os tapirapés em sua aldeia, organizada e limpa. O cacique José Miguel – seu nome em língua portuguesa – agradeceu por todos um livro que encontrei num sebo do Rio e lhe dei de presente. Era o estudo de um antropólogo da USP sobre aquela mesma aldeia, realizado na década de 30. Tinha fotos dos antepassados e a relação de seus nomes. Os tapirapés não gostam de exibir sentimentos porém os mais velhos não esconderam sua emoção.

sábado, 20 de março de 2010

Beleza

De vez em quando as vejo, as divas de outrora. Algumas guardam algo da beleza de antigamente, outras são hoje belas ruínas. Umas são muito tristes, outras conseguem viver o tempo presente e de alguma forma se recusam a continuar na ilusão de que coninuam belas, poderosas e desejadas.

A passagem dos anos é muito cruel para as mulheres bonitas que investiram toda a sua vida na esperança de que assim seriam para sempre. A fugacidade as surpreende na esquina da vida. Compreender e conseguir viver este encontro com o futuro é privilégio de poucas.

A mesma coisa ocorre também com os homens bonitos. Os galãs que arrasaram corações femininos não conseguem compreender por que não são mais olhados, admirados e desejados pelas mulheres com quem hoje cruzam nas ruas. E sentem-se perdidos na tempestade do tempo.

Esta reflexão me ocorre agora, depois de ver, na rua, uma das mulheres mais belas do meu tempo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A Ilha do Medo


A atmosfera de pesadelo e de mistério perpassa o filme e lhe transfere o rítmo que captura e prende a atenção do espectador até o fim. O que é um bom filme? Aquele que diverte, transporta a vivência de quem o assiste ou o que faz pensar? A magia do cinema situa-se dentro desses limites e A Ilha do Medo (Shutter Island), apesar de algumas teorias discutíveis sobre a doença mental, chega muito perto, talvez seja mesmo um grande filme.

Martin Scorsese é um dos expoentes da geração de cineastas que revitalizou o cinema amaericano, da qual também fazem parte Francis Ford Coppola, Brian de Palma, George Lucas e Steven Spielberg. É cineasta em tempo integral: estudou na escola de cinema da Universidade de Nova Iorque, mantém uma fundação para a preservação dos filmes mudos, é fã do neo-realismo italiano e de Glauber Rocha. Quase teve de encerrar a carreira depois do escândalo causado por um dos seus melhores filmes, A última tentação de Cristo.

Em A Ilha do Medo, Scorsese volta na sua melhor forma e dirige Leonardo de Caprio numa excelente performance. Os atores americanos ficam bons na medida em que envelhecem, como acaba de também provar Jeff Bridges em Coração Louco (Crazy Heart).

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Tríade

Os chineses desapareceram das ruas de Copacabana. Eles eram muitos – homens e mulheres jóvens – e vendiam bugigangas eletrônicas pelos bares e ruas. Poucos falavam algumas palavras em português mas todos sabiam dizer o preço das mercadorias, contar dinheiro e fazer o troco.

Eram imigrantes ilegais. Sob o rosto impassível dos orientais, não conseguiam disfarçar uma certa preocupação ao verem um policial. Eles sumiram depois que Law King Chong, que dizem ser o maior contrabandista do país, foi preso em São Paulo. Uma coincidência.

A entrada ilegal no Brasil é organizada pela Tríade, nome pelo qual é conhecida internacionalmente a máfia chinesa. Ela não é tão bem organizada quanto a italiana mas está presente em todas as comunidades chinesas extorquindo comerciantes. Sua principal atividade é o tráfico humano. Hong Kong é o centro das suas atividades.

sábado, 13 de março de 2010

Galinha mourisca

Sábado, dia propício à cozinha, eis aqui uma receita portuguesa da forma como se fazia no século XV, antes, portanto, da descoberta das novas terras por Pedro Álvares Cabral. Os mouros ainda influenciavam Portugal.

Tome uma galinha crua e faça-a em pedaços.

Em seguida prepara-se um refogado com duas colheres de manteiga e uma pequena fatia de toucinho. Deita-se dentro a galinha e deixa-a corar.

Cubra-se a galinha com água suficiente para cozê-la, pois não se há de deitar-lhe outra. Estando a galinha quase cozida, tome-se cebola verde, salsa, coentro e hortelã, pica-se tudo bem miudinho e deita-se na panela, com um pouco de caldo de limão.

Acabe de cozinhar a galinha muito bem.

Tome então fatias de pão e disponha-as no fundo de uma terrina, e derrame sobre elas a galinha.

Cubra com gemas escalfadas e polvilhe com canela.

quinta-feira, 11 de março de 2010

As pílulas da liberdade


Conversando com o amigo, ele diz que as mulheres e os velhos hoje são livres mas nem sempre o foram. Devem sua liberdade atual a duas pequenas pílulas: a anti-concepcional e o Viagra. Ele se referia, claro, à liberdade sexual, pois foi através daqueles comprimidos que as mulheres se libertaram da virgindade tardia e os velhos da castidade a que estavam condenados na última fase da vida.

O símbolo da liberdade, portanto, deveria ser a cobra da farmácia e não a estátua que se encontra na entrada do porto de Nova Iorque. Esta tem conotações políticas e representa uma noção de liberdade que faz os Estados Unidos invadirem outros países, enforcarem o presidente e obrigarem o povo a ser livre.

A liberdade, como se vê, tem seu preço. O crescimento da aids na terceira idade tem preocupado as autoridades da saúde pública, embora em contrapartida cresça também a quantidade de velhinhos com ar de felicidade.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais um gôl argentino


O cinema argentino passa por um grande momento, não só pelo Oscar de melhor filme estrangeiro que O Segredo de seus olhos acaba de ganhar. A produção do país dispõe de excelentes atores, roteiristas e técnicos e com realizadores do porte de Juan José Campanella, o inspirado diretor que antes já surpreendera as platéias com O Filho da Noiva e Lua de Papel.

O Segredo de seus olhos é uma obra baseada num roteiro complexo, de grande riqueza em seus detalhes e na sutileza da sua linguagem. Passa em revista profundos sentimentos humanos, em um pano de fundo da recente história argentina, tão trágica como a nossa e como a de outros países nossos vizinhos.

É um cinema de qualidade. Uma narrativa em que se misturam paixão, mistério, amizade, riso e amor sem esperanças. Mereceu o Oscar. O prêmio talvez sirva também para mostrar a Hollywood que o uso do talento e da sensibilidade podem resultar num filme melhor e mais barato do que as produções grandiosas e sem imaginação.

sexta-feira, 5 de março de 2010

As brancas


Doka, velho boêmio, aconselhava a tomar cuidado com as brancas. Referia-se a gin, vodka, tequila, todas as aguardentes que à distância se parecem com água. Elas são perigosas, dizia, pois a embriaguês que provocam se confundem muitas vezes com a pura e simples loucura.

Doka foi dono de um bar que sofreu intervenção da família, pois ele era também o seu maior cliente e estava falindo a casa. Posto fora do balcão, foi obrigado a pagar pelo que bebia.

Quando se inscreveu nos AA, dizia que sua força de vontade prevalecera. Era capaz de sentir desprezo por qualquer bebida, só o cheiro de cachaça o comovia, a ponto de sonhar todas as noites com um cálice cheio dela, transparente e branca, cujo odor lhe penetrava e perturbava o sono.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A pracinha do jogo


A pracinha tem o nome de Manoel Campos da Paz, sanitarista que fez campanhas contra a febre amarela, quadro do Partido Comunista, pelo qual foi eleito vereador no Rio de Janeiro. Um médico ilustre, humanista que merece a homenagem. A praça tem um ar tranquilo, algumas mesas de cimento e uma forte vocação para o jogo.

Talvez tenha começado com os motoristas de kombis de aluguel que lá faziam ponto. O baralho ajudava a enfrentar o tédio na espera de clientes e aos poucos a pracinha com o nome do bom médico foi se transformando numa área de jogo que se ampliou pela vizinhança.

Um ponto de jogo-do-bicho e uma inocente loja de venda de jogos eletrônicos, onde as crianças trocam figurinhas, convivem com as mesas ocupadas pelo baralho. Há um botequim frequentado pelos amantes do jogo de damas e, de vez em quando, a polícia perturba a tranquilidade da pracinha e intervém para interromper um veloz jogo de cartas onde o dinheiro troca de mãos com incrível rapidez.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Arroz com costelinha de porco

Este é um fim de semana diferente dos outros mais recentes, pois o calor está mais civilizado, o que nos permite ir à cozinha e preparar um prato interessante. Dos botequins de Minas, trago esta receita. Vamos à cozinha?

Ingredientes:

Costelinha de porco
Bacon em pedacinhos
1/2 pimentão picadinho
1 cebola picadinha
Arroz (a quantidade você determina)
Cheiro verde

Preparo:

Numa panela de barro, fritar a costelinha de porco cortada em pedaços miúdos, refogar em alho e sal, mexer de vez em quando e deixar apurar bem. Quando estiver bem moreninha. retirar e separar na mesma panela.

Verificar a quantidade do óleo que se formou (para que o prato não fique muito gordo). Fritar então bacon em pedacinhos, separar no cantinho da panela, juntar então meio pimentão picadinho, uma cebola picadinha, esperar fritar um pouco, juntar o bacon e o arroz já lavado (a quantidade você determina).
Refogar com a costelinha que estava separada, juntar água quente o suficiente para cozinhar. Mexer de vez em quando para distribuir bem a costelinha. Provar o sal.

Depois de pronto, polvilhar bastante cheiro verde. Pode ser servido com uma salada verde bem temperada.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Intolerância


Os países europeus de tradição colonial pagam hoje a conta pela exploração que praticaram nos países da África e do Oriente Médio. Das antigas colônias que permanecem atrasadas e pobres e onde a injustiça social é parte do sistema do poder político, uma corrente migratória contínua se dirige para as antigas metrópoles.

França e Alemanha, Inglaterra, Espanha e Itália, sem esquecer até mesmo Portugal, são hoje países invadidos e multi-raciais. Em duas ou três gerações, serão tão mestiços quanto o Brasil.

Uma intensa discussão sobre os imigrantes, seus direitos e sua capacidade de integração cultural cresce na Europa. A classe média – sempre ela – manifesta forte intolerância contra esses estrangeiros negros e asiáticos que vêm em busca de emprego e sobrevivência e fazem filhos em suas filhas.

É sobre essa intolerância que o francês Philippe Lioret fez um bom filme, às vezes demasiadamente sentimental, mas mesmo assim muito bonito – Welcome, Bem-Vindo no título brasileiro. A história de um jovem curdo que veio do Iraque para a França. Impedido de entrar na Inglaterra, onde se encontra sua namorada, ele pretende atravessar a nado o Canal da Mancha.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O vôo do tempo

O trânsito pesado das ruas engarrafadas, ônibus e metrô lotados e as crianças entrando e saindo das escolas mostram que a cidade, enfim, começou o ano. Ao Natal e Ano Novo segue-se o carnaval, no calendário brasileiro. E o carnaval, no Rio, durou este ano de sexta até domingo da outra semana, inaugurando um novo e mais demorado período para a festa que mobiliza o povo.

Já estamos a um mês para o fim do primeiro trimestre de 2010, a quarta parte de um ano que promete, mais uma vez, passar muito rápido. A velocidade da passagem do ano aumenta com a nossa idade. Até os 15 anos, sentíamos o tempo demorar muito a passar e ansiávamos pela independência que os dezoito anos simbolizavam. E de repente estamos velhos.

O rítmo de trabalho dos nossos dias, toda a parafernália tecnológica em nosso entorno, a ansiedade que é a marca do nosso tempo, e mais a agitação de um ano de eleições, tudo se conjuga para que logo alí adiante já seja dezembro. A cidade vai parar, então. até o fim do próximo carnaval.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Turistas


O carnaval terminou mas muitos ainda ficaram por aqui. O calor os atrái e parece que eles preferem suar no Rio do que enfrentar o frio que faz este ano na Europa e em todo o hemisfério Norte. Por isso eles estão por aí de pele avermelhada e com as suas roupas diferentes que os identificam à distância.

A cidade recebeu, só durante o carnaval, 730 mil estrangeiros que, dizem, gastaram 500 milhões de euros e ocuparam todos os hotéis. Eles vieram atraidos pelo carnaval mas também porque o Rio tem uma estátua que foi considerada uma das sete maravilhas do mundo, foi eleito sede das Olimpíadas de 2016 e também o melhor destino gay. As universidades de Michigan e da California fizeram uma pesquisa e concluiram que o carioca é o povo mais cordial do mundo. Pronto: é o cenário ideal para um turista.

Sergio Porto dizia, em seus artigos assinados como Stanislaw Ponte Preta, que o morador de uma cidade turística paga os preços que o turista não se importa em pagar. Em sua opinião, a cidade é preparada para o turismo e o nativo é um cidadão de segunda classe.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O pensador


De chapéu novo e roupas limpas, aparência de quem tinha tomado banho, Marquinhos encostava-se na lixeira, talvez para se refazer do calor, quem sabe para, simplesmente, meditar. Alheio ao movimento e ao ruído, compenetrado e com o olhar parado, pensava em silêncio.

Os grupos de turistas vinham da praia no fim da tarde, jovens estrangeiros brancos, vermelhos de tanto sol e olhavam desconfiados para ele. Algumas moças vestiam seus biquinis, o que as identificava como paulistas ou mineiras, pois as cariocas se recusam a desfilar em roupa de banho e usam, na rua, o que chamam uma saida de praia.

A quarta-feira de cinzas ainda cheirava a carnaval, um odor de excrementos e urina; um ou outro passante ainda usava na roupa ou na cabeça detalhes de fantasia.

Marquinhos mergulhava em seus pensamentos, encostado na lixeira da esquina da República do Peru. Ele andava sumido. Agora, com o fim da louca festa do carnaval, volta de banho tomado e na segunda-feira, quando o bairro retomar seu rítmo habitual, estará certamente comandando o trânsito e dirigindo insultos aos motoristas e a quem mais tiver o atrevimento de passar a seu lado.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Stieg Larsson


Stieg Larsson morreu jovem, em 2004, de um ataque do coração. Tinha apenas 50 anos mas deu importante contribuição à literatura policial com três romances deixados inéditos e que formam a trilogia conhecida por Millenium. Já vendeu 15 milhões de exemplares em todo o mundo e acaba de ser levada ao cinema em produções suecas.

No Brasil, os três livros tiveram como títulos Os homens que não amavam as mulheres, A Rainha do Castelo de Ar e A menina que brincava com fogo, publicados pela Companhia das Letras. Três histórias com os mesmos heróis: uma jóvem desajustada e talentosa e seu companheiro, um jornalista investigativo, sócio da revista Millenium, que empresta o nome à trilogia.

Os livros representam três bons momentos da literatura noir da Suécia e possúi os ingredientes dos bons policiais: mistério, ação, sensualidade e surpresa. A heroina Lisbeth Salander é um personagem marcante: hacker competente, bissexual, amante impetuosa e detetive com uma centelha de gênio. Uma bela leitura de carnaval para quem procura distância do carnaval.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Fim de tarde

Talvez tenham escolhido um bar tão movimentado como o Real Chopp, em plena Barata Ribeiro, para não tornar a conversa íntima demais. Ele falava, ela escutava e por sua vez rebatia algo que ele acabara de dizer; um detalhe da sua fala, algum argumento mal usado, um sentimento obscuro.

O fim da tarde, nas ruas internas de Copacabana, é marcado pelo barulho dos motores nos engarrafamentos da hora do rush. Talvez por isso, de vez em quando, um dos dois falava mais alto olhando diretamente para o rosto do outro. Depois ela baixava a cabeça e ele olhava para os lados sem saber o que procurava. Ficavam assim por um momento e depois retomavam a discussão.

Ela picava em pequenos pedaços o guardanapo de papel, ele mantinha as mãos nos bolsos. Havia tirado o paletó e a gravata e arregaçado as mangas da camisa para enfrentar o calor. Ela vestia uma saia simples, justa, com um paletó feminino, de acordo com a moda adotada pelas mulheres que exercem cargos executivos. Os dois copos de chope estavam quentes e sem espuma.

Em seguida ele pegou seu paletó e se levantou, deixou um dinheiro em cima da mesa junto com a conta que havia pedido ao garçon e foi embora pela Rua Paula Freitas na direção da praia. Ela ficou durante alguns momentos olhando os automóveis parados no engarrafamento. Então levantou-se, atravessou a rua e pegou um ônibus na direção do Jardim de Alah. O calor batia os 40 graus.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Rio versus Ada


O que já sentíamos no corpo foi confirmado pela ciência: a onda de calor que avassala o Rio foi considerada histórica, porque é a maior dos últimos 50 anos. A combinação de temperatura e umidade faz com que experimentemos uma temperatura mais alta do que a do deserto de Sahara.

Mais quente do que o Rio, nestes dias, só a cidade de Ada, em Gana, dizem os meteorologistas. Estamos, portanto, em segundo lugar no ranking mundial de calor.

Ada, a campeã, está apenas dois décimos acima de nós. Temos, portanto, chance de superá-la ainda neste verão. Esta pequena cidade no estuário do Rio Volta, na costa ocidental da África, é mencionada nos guias pelas belas praias do seu litoral.

Alguns turistas europeus em busca de calor costumam aportar nas praias de Ada e desconfio que devem ser os mesmos que, a esta altura trocando a segunda pele, desfilam pelas ruas de Copacabana.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Carnaval e calor


Os blocos improvisados já começaram a desfilar pela Barata Ribeiro e criam o clima de carnaval em Copacabana. São formados por um carro com alto-falante onde instala-se um cantor, seguido por uma orquestra pobre de uns três instrumentos desafinados. E pelo séquito de uma pequena multidão em que se destacam algumas meninas que desceram das favelas do bairro. Elas vestem seus biquinis e os curtos shorts que constituem sua marca particular de elegância e sensualidade.

O cantor repete as marchinhas que fizeram sucesso nos carnavais dos anos 50. Ele canta fora do rítmo e com a voz cansada de quem já perdeu a noção das palavras exaustas de tanta repetição. As meninas seminuas procuram acompanhá-lo com suas vozes finas, esganiçadas, algumas senhoras idosas abanam-se e também tentam acompanhar o cantor.

Ninguém dança, alguns ensaiam uns poucos passos, balançam o corpo mas interrompem o movimento. O calor não anima o bloco. O trânsito está engarrafado, as pessoas chegam às janelas dos apartamentos para assistir ao desfile que se dirige, lentamente, ao Posto Seis.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A escuridão


Diante do humilhante calor de 41 graus com sensação de 50 que fez ontem no Rio, me refugiei no cinema sem olhar que filme estaria sendo exibido. Entrei na sessão que estava a começar e assisti a O Fim da Escuridão (The Edge of Darkness), de Martin Campbell, que já fez filmes de 007 e já dirigiu, para a TV americana, uma minisérie com a mesma história.

É um drama policial misturado a uma conspiração atômica. Mel Gibson faz o papel principal. Ele é um ator de formação clássica. Já foi dirigido por Franco Zefirelli, em Hamlet, e dedicou muitos anos ao teatro. Mas optou por fazer carreira no cinema comercial. Deu-se bem, dirigiu alguns filmes razoáveis e deve ter ficado rico.

Aos 54 anos, ele parece envelhecido e sua aparência deve refletir os problemas recentes em sua vida pessoal. Fervoroso católico, políticamente aliado à Direita, separou-se da mulher, dirigiu alguns insultos aos judeus pelos quais teve de pedir desculpas e confessou problemas com o alcoolismo.

Depois de algum tempo parado, parece que voltou a beber.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O metrô


Quem usa o metrô do Rio está reclamando. Aumentou o número das estações, expandiram a rede, foi criado um novo trajeto de Botafogo à Pavuna e se manteve o mesmo número de trens. Diminuiram os vagões em cada composição. O resultado deve ter sido o esperado: atrasos e superlotação. É difícil entender o que se passa na cabeça dos engenheiros. Ou dos homens de governo.

É provável que as autoridades tenham sentido a necessidade da realização de grandes obras e expandiram o sistema sem calcular os riscos. É também possível que tenham imaginado que, com o aumento do preço da passagem, a procura iria diminuir.

O povo do Rio tinha um certo orgulho do metrô da cidade e os viajados diziam que ele era melhor do que o de Londres, de Nova Iorque ou de Paris. Era mais limpo, tinha ar-condicionado, melhor organização e não atrasava. Algo aconteceu e a maldição dos transportes caiu sobre o metrô.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Avatar


Desde as primeiras experiências dos irmãos Lumiére com o cinematógrafo, a vocação do cinema inclinou-se para o espetáculo e a diversão. A lanterna mágica provocou emoções de espanto diante de uma tecnologia que despontava e que no futuro encantaria milhões de espectadores em todo o mundo. O cinema de arte, profundo, humano e reflexivo, foi consequência da apropriação do novo meio de expressão por alguns artistas que descobriram sua linguagem e exploraram os seus limites.

Embora aparente preocupações ecológicas e pacifistas, Avatar é um filme ingênuo. Cada uma das sequências que o compõem já foram vistas mais de uma vez em outros filmes. O espectador antecipa o que vai acontecer, pois a luta entre o mal e o bem é um dos temas recorrentes do cinema, cujo maniqueismo é uma das pedras angulares dos seus roteiros. A indústria do entretenimento sabe que o público prefere assistir sempre as mesmas histórias

Resta a tecnologia para compensar a pobreza de um filme feito para crianças. Os efeitos visuais e a exibição em 3D são os verdadeiros protagonistas.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Balzaquianas


Não existem mais balzaquianas, pois as meninas de 30 anos, hoje, ainda moram com os pais e muitas delas ainda não acabaram os estudos. Muitas não pensam sequer em casamento e são mais felizes do que Júlia d`Àiglemont, a infeliz heroina de Balzac em seu romance A Mulher de Trinta Anos, responsável pela palavra que já definiu a mulher que permanecia solteira naquela idade.

As mudanças de comportamento na sociedade fizeram com que a mulher não dependa mais do casamento para se sentir realizada. Mesmo em idade mais avançada, independentes e vivendo sozinhas, elas são muitas em Copacabana. Com a pele queimada de sol, cabelos alourados e usando a pouca roupa imposta pelo forte verão, desfilam pelas calçadas exibindo autoconfiança.

Elas não possuem idade definida. Podem ter quarenta, sessenta anos ou mais. Formam um grupo bem presente no bairro. Pode ser identificado por um jeito de andar, falar e se vestir de quem acha a idade algo realmente irrelevante.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A expansão da Baixada

Com certa unanimidade, os antropólogos costumam afirmar que uma cultura superior esmaga a inferior. E citam exemplos da História, como o fato de a cultura dos gregos ter influenciado a dos romanos, que os tinham vencido e conquistado seu território. Mas nem sempre é assim e às vezes se dá o contrário.

A Baixada Fluminense não se caracteriza como região onde tenha florescido uma cultura sofisticada. Faltam-lhe teatros, museus, bons cinemas, livrarias, uma forte universidade. Mas a sua influência se espalha, já subiu a serra e chegou a cidades históricas, como Teresópolis, que luta para não perder sua identidade. E está cada vez mais próxima de Petrópolis e de Friburgo.

O empobrecimento pode ser uma das causas. Mas não se deveria esquecer o jogo-do-bicho, cujos capi dividiram o território do Estado do Rio de Janeiro e descobriram que a política é uma atividade atraente para quem trabalha distante da lei. Infiltrando-se na política, consolidam seu poder e as cidades conquistadas passam a exibir a mesma arquitetura pobre da Baixada, o mesmo estilo de vida e muitas vezes a violência.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Bastardos Inglórios


Depois de todos os filmes que já foram feitos sobre a Segunda Guerra Mundial, pareceria difícil explorá-la por um ângulo novo. Não foi só Hollywood que se apropriou de episódios, personagens e acontecimentos desse evento que mudou o mundo, mas práticamente todos os cinemas europeus, do francês ao russo, passando pelo italiano, o polonês, o alemão e todos os outros, praticamente exaurindo o assunto.

Quentin Tarantino, no entanto, decidiu que poderia criar algo inédito e fez Bastardos Inglórios, uma delirante versão da guerra, que tem boas interpretações de atores, destacando-se Christoph Waltz e Brad Pitt, cujos personagens disputam quem é mais cruel.

O cinema de Tarantino é interessante. Muitas vezes surpreendente quando utiliza a desbragada violência de uma forma que atinge as raias do humor e quase sempre procura mesmo fazer humor dentro de uma atmosfera sombria. Não é o caso de Bastardos Inglórios. Dessa vez ele parece ter se levado a sério e, num filme de produção muito bem cuidada, ultrapassou no final os limites da ficção. Apaixonou-se pelos seus personagens e reescreveu a história da Segunda Guerra.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os quatro velhinhos gays


Eles estão sempre juntos, os quatro. De idade, devem ter mais de 75, sentam-se nos bares de Copacabana, conversam entre si, riem muito e avaliam com o olhar os jóvens que vão à praia. Um deles aparenta estar abalado por alguma doença, outro se veste com elegância apurada, um terceiro é discreto e silencioso e o quarto tem o rosto marcado por rugas provocadas pelo riso.

Bebem chope devagar e moderadamente. O que parece estar doente prefere caipirinha e não os vejo comer. São magros, devem controlar o peso cuidadosamente. Riem de maneira maliciosa e cheia de ironia, como riem aqueles que se divertem com as infindáveis bobagens humanas.

O mais elegante costumava aparecer com um cachorrinho no colo, um poodle bem tratado, de cor branca, que acompanhava a conversa entre eles movimentando a cauda e dirigindo-se ora para um, ora para outro, ansiando por atenção. O cão não tem aparecido, ultimamente.

É uma turma formada há muitos anos, acostumada a conviver em seu círculo fechado, pois se entendem e se comunicam às vezes com simples troca de olhar.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Copacabana


O calor deu uma trégua mas demorou pouco e o termômetro volta a subir, pois este verão já se anunciava tão quente como os verões históricos que abafaram a cidade, quando se torna possível fritar um ovo nas calçadas.

As meninas estrangeiras das hospedarias do bairro, que vieram de países frios, estão vermelhas, encantadas com o calor. Algumas delas já se desfazem da primeira pele, como um pimentão levado a uma chama. Os bares, como sempre, estão lotados e já se ouve o batuque anunciando o carnaval.

Os quatro velhinhos gays que fazem ponto no bar da esquina tomam chope e riem maliciosamente, paqueram os garotos do subúrbio que saltam dos ônibus e do metrô em direção à praia. Um deles se abana com um leque, ereto e elegante. Marquinhos, louco, tenta desesperadamente dar um pouco de órdem ao trânsito e lança aos motoristas um olhar raivoso, ameaçador.

Copacabana consagra mais uma vez o verão na praia, nos bares e nas esquinas. Vive os seus pecados enquanto, em toda a sua preguiça, prepara-se para mais um ano de luta.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O vingador e o perdão


A figura de um cavaleiro solitário surge no horizonte e vem até o primeiro plano. Está vestido de negro, seu rosto é duro e a sombra do chapéu cobre seus olhos. Existe tensão e misteriosa ameaça na sua presença e todos na platéia Intuímos que ele cavalga numa busca obsessiva de vingança.

Desde os tempos em que estrelava os faroestes produzidos na Itália, Clint Eastwood emprestou seu tipo alto, elegante e magro ao papel do vingador. Sob a direção de Don Siegel – seu mentor - e outros diretores menos talentosos, a série Dirty Harry enfatizou a vingança. Nos seus próprios filmes e na medida em que foi se tornando o mestre que hoje é, Eastwood soube explorar o forte sentimento da vingança que redime as injustiças.

Com Invictus, contando um episódio da história da África do Sul, quando Nelson Mandela imaginou que um evento esportivo poderia unir o país dividido pelo ódio racial, Eastwood troca o tema da vingança pelo do perdão. É um filme da maturidade de um cineasta que aprendeu como poucos a linguagem do cinema, como são produzidas as emoções e de que forma extrair dos atores sua própria humanidade.

sábado, 16 de janeiro de 2010

A vingança das ostras


Frutos do mar, principalmente ostras, representam para os franceses uma comida ritual, apropriada a dias festivos. Nas comemorações de fim de ano, toneladas de ostras são consumidas nas diversas cidades e regiões da França. Em todas as feiras livres do país há filas nas barracas especializadas em mariscos, onde em destaque se encontram as ostras: fines, spéciales, fines de claire, spéciales de claire, numeradas de 0 a 5, de acordo com o tamanho. A de número 5 é a mais fina. Nas residencias e nos restaurantes, é este o prato do dia.

“La diarrhée, c'est un peu la revanche de l'huître après sa mort”, diz a sabedoria dos antigos.

E por isso as festas de Natal e reveillon marcam também a época do aparecimento da gastro (pronuncia-se gastrô), a forte infecção intestinal que costuma surgir durante as festas de fim-de-ano. Os hospitais já estão acostumados e se preparam para o aumento dos pacientes desidratados pela diarréia, as farmácias já possuem pronto o kit dos três medicamentos básicos de combate: Ercéfuril 200 mg, Imodium lingual e Ultrabiotique.

A ameaça da gastro não é suficiente, entretanto, para diminuir o apetite dos franceses pelas ostras. E é mesmo muito difícil resistir à tentação provocada pela beleza de um plateau de fruits de mer.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O 17éme

Os arrondissements de Paris são distribuidos em forma de espiral que começa bem no centro da cidade e vai se ampliando até seus limites. É de vinte o número dessas divisões administrativas. Como sempre acontece em todos os agrupamentos humanos, os mais ricos estão no centro e os mais pobres na periferia.

O décimo-sétimo arrondissement, o 17éme, com 160 mil habitantes, é mais ou menos do tamanho de Copacabana e também possúi moradores em diferentes faixas de renda. Os ricos, nas imediações do sofisticado Parque Monceau e a classe média distribuida pelos boulevards e ruas dos quartiers des Batignolles e des Épinettes. Embora não seja o mais rico dos arrondissements, tem quase 40 áreas de lazer distribuidas em diferentes praças, parques, jardins, passeios e areas de jogos.

O mercado a céu aberto da rue des Levis, por onde não se deve passar sentindo fome, é uma festa para os olhos e para o estômago. Os restaurantes do bairro exibem as diferentes gastronomias do mundo, os cafés e os bares estão em cada esquina. São oasis de calor onde se pode fazer uma parada para aquecer o corpo neste inverno gelado que avassala o hemisfério Norte.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Os melhores do mundo, segundo Michelin


Em sua centésima edição, o celebrado Guia Michelin sái com um livro-brinde em anexo apresentando os melhores restaurantes do mundo. São setenta e duas casas comandadas por chefs famosos e o mundo, para o Michelin, restringe-se à Europa, com alguma concessão aos Estados Unidos e à Ásia.

São cinquenta e cinco restaurantes europeus (25 na própria França) contra seis nos Estados Unidos, nove no Japão e dois na China. A grande maioria oferece, em seus cardápios, a gastronomia francesa. Há pouco espaço para as cozinhas nacionais, como o Lung King Heen, em Hong Kong, localizado no ocidentalizado hotel Four Seasons.

Os setenta e dois templos da boa comida estão no patamar dos caros prazeres reservados aos que podem pagar e concordar com Alain Ducasse, um dos mais estrelados chefs do Michelin. Ele é o primeiro da lista pela órdem alfabética e diz que “a magia das sobremesas é a de nos ajudar cada dia a reencontrar nossa infância. Mas a sobremesa é também para mim o ponto final de uma refeição, sua assinatura. Como a última marca de uma página de prazer que se vira mas que deve permanecer”. Deve se tratar de alguma complexa tese filosófica sobre a magia das sobremesas.

O restaurante de Ducasse hospeda-se no Plaza Athenée, hotel preferido pelos titulares das novas fortunas do Brasil.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Paris sob a neve


Dizem que inverno tão rigoroso quanto este foi o de 1995. Faz, portanto, quinze anos que a Europa não enfrentava um frio tão intenso e tempestades de neve que bloqueiam estradas e interrompem a operação dos aeroportos. Quanto mais ao norte, pior. A onda de frio vem do Polo, acompanhada de ventos verdadeiramente cortantes.

É raro nevar em Paris, mas nos últimos dias os flocos continuam a cair, cobrindo as calçadas e tornando o passeio perigoso. É fácil deslizar e cair quando a neve se transforma numa cobertura de gelo.

Com o frio, os bares estão lotados por quem precisa se aquecer para continuar a andar na rua. Os seis graus negativos que têm feito na cidade não se comparam com os grandes frios dos países nórdicos ou do Canadá, ou mesmo da Alemanha, onde 20 ou 30 graus negativos é algo comum durante o inverno. Mas, a partir de determinada temperatura negativa, o corpo não é capaz de sentir grandes alterações.

Apesar do desconforto causado pela neve, a paisagem branca ressalta uma forma diferente de beleza nesta cidade sempre bela.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Le Cheval Noir


Argenton-sur-Creuse é uma pequena cidade com cerca de cinco mil habitantes, a 300 quilômetros de Paris e a outros tantos de Cahors. Bom lugar para um pernoite, que é sua vocação desde os tempos antigos, que remontam à ocupação romana do território gaulês depois da conquista de Julio Cesar.

Diversas vezes sitiada, saqueada e ocupada nas guerras feudais da Idade Média, a pequena cidade à margem do rio Creuse é hoje um lugar tranquilo com uma pequena praça central de vocação para a boemia. Nesses dias de janeiro, no entanto, o frio é muito grande e, a partir das seis da tarde, pouca gente se arrisca a sair do calor da própria casa.

Há um hotel na cidade chamado Le Cheval Noir, típico hotel de passagem, de conforto básico, construido no que foi antigamente uma agência dos correios. Talvez ele não merecesse maior atenção se lá não funcionasse um restaurante com o mesmo nome do hotel, dirigido pelo chefe Christophe Jeanrot, onde uma paleta de cordeiro coberta com molho de vinho ou um pato em confit valem a parada e compensam o intenso frio que faz em Argenton-sur-Creuse.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

500 euros


A maior parte dos turistas viaja com pouco dinheiro vivo e prefere pagar suas despesas com cartões de crédito. Outros preferem carregar o dinheiro das férias em espécie, evitando assim enfrentar na volta a dívida acumulada nos cartões, uma armadilha montada pela facilidade de pagar sem sentir que o dinheiro escorre por entre os dedos.

Viajar com dinheiro ao invés de crédito significa fazer economia durante o ano e depois comprar a moeda estrangeira que será investida na boa vida das férias. Na volta, nenhuma dívida a pagar.

Se você quiser exercitar uma forma ainda mais econômica de viajar pela França e voltar com o mesmo dinheiro, transforme seus reais em notas de 500 euros, porque assim você estará impedido de gastar. Nas lojas e nos restaurantes, poucos comerciantes terão troco para uma cédula de 500, que corresponde à metade de um salário mínimo.

Alguns investigarão a nota virando-a de um lado e do outro, contra a luz, outros vão olhar desconfiados, na suspeita de que você esteja passando dinheiro falso ou seja o próprio falsário. E depois dirão que, infelizmente, não dispõem de numerário para lhe dar o troco, preferem a garantia do cartão.

Para trocarem uma nota de 500 euros, os bancos exigem que você seja cliente. Bem que você gostaria de ser cliente de um banco francês na França. Mas com a crise que atacou as economias desde fins de 2008, pouca gente anda com 500 euros e poucos já viram uma nota que represente tanto valor.

Você voltará, então, com o mesmo dinheiro com o qual viajou.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sex, Sun and Sea


O comerciante que se sentava à minha frente no Auberge de Gabares, em Cahors, ao saber que moro no Rio de Janeiro, rí, faz gestos de quem dança e fala de mulheres. Seu maior desejo é passar o carnaval no Rio, conhecer as mulatas cariocas e dançar o samba. Mas também diz que tem medo da violência da cidade, pelo que lê nos jornais e vê na TV.

Por onde já andei pelo interior da França e pelo mundo afora, esta é a imagem presente no imaginário dos homens: mulheres fáceis, música exótica, praia e calor. O futebol também aparece, mas nem tanto. Não duvido que seja um pensamento capaz de excitar qualquer homem. Pode até ser bom para a indústria do turismo mas esta talvez não seja a imagem capaz de melhorar a auto-estima dos brasileiros.

A promoção turística do Brasil no exterior foi sempre fundamentada no argumento que os profissionais de marketing chamam “sex, sun and sea”. Explorado durante muitos anos, parece ter atingido seus objetivos.

Para um europeu ou para um americano da baixa classe média, nada melhor do que turismo barato com a perspectiva de sexo fácil numa bela praia ensolarada.

Foi isso o que vendemos.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Auberge des Gabares


Um restaurante cheio de surpresas. A começar pelo patrão, que se chama Alain Floquet e se parece com Jean Paul Sartre. Tem o mesmo tipo de estrabismo, é um pouco mais moço do que Sartre nos anos 70 e um pouco mais alto. Bem humorado e divertido, provoca os clientes enquanto, sozinho, atende e serve a cerca de 30 mesas numa casa lotada. Além dele, a equipe se compõe da sua mulher – Jaja - e mais uma cozinheira gorda que se ocupa das panelas e do fogão.

O cardápio é único, no Auberge des Gabares, na Praça Champolion, às margens do Rio Lot. Antes de entrar, o cliente já deixou claro que aceita o que lhe será servido.

Hoje, o cardápio era composto de sopa, uma entrada de rillette e salame seco da região, o prato principal que poderia ser caça ou pot-au-feu, um plateau com diversos queijos, sobremesa a escolher entre quatro tipos e café. Vinho à vontade, com outra surpresa ao final: 15 euros por pessoa, preço fixo.

Esta é a razão de o Auberge des Gabares estar sempre com todas as suas mesas ocupadas e quem chegar depois das 13 horas não encontra lugar. É frequentado tanto pelos trabalhadores das obras da vizinhança quanto pelos notáveis de Cahors. A família que administra a casa veio do Aveyron, uma região próxima mas com diferente gastronomia. É uma comida típica da França profunda, como gostam de assinalar os franceses.

Alain me pergunta se, no Rio de Janeiro, haveria espaço para um restaurante como o dele. Respondo que não sei. E penso que não sei porque há muito tempo não saberia traduzir honestidade na linguagem dos restaurantes.

Certamente voltarei ao Auberge des Gabares.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Caussade


Caussade tem seu nome originado em causse, que é como se denomina a planície de calcário do Sul da França. Situada na região do Tarn-Garone, está a uma distância de 38 quilômetros de Cahors, que se percorre numa estrada que oferece em todo o percurso uma bela paisagem dos campos cultivados com vinhedos, girassóis e ameixeiras.

A feira semanal de Caussade é famosa pelo enorme espaço que ocupa na cidade e porque sua tradição vem dos tempos medievais. Trufas, foie gras, melões e o alho rosa da região são os destaques, fora os vinhos de pequenos produtores expostos nos balcões das barracas.

O chapéu de palhinha, aquele celebrizado por Maurice Chevalier, é um dos símbolos da cidade, mas procurei comprar um deles e não encontrei. Saiu de moda e os artesãos de Caussade não foram capazes de inventar novos lançamentos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Le Marché revisitado


No ano passado, o Le Marché, na Place Chapou, em frente à catedral de Saint Etienne, onde a feira semanal de Cahors faz a alegria dos gourmands, impressionou muito bem. Sua cozinha leve, sofisticada, cheia de sabores diferentes, mereceram elogios. A foto ao lado é de um folheto promocional do restaurante.

Mas nem sempre o ato de revisitar antigos e bons lugares trazem as mesmas experiências do passado.

O rim de vitela (rognon de veau) não estava à altura do que o restaurante pretende oferecer: duro e sem sabor. O frango com alho poró era mediocre. Valeu a entrada, o foie gras produzido na região que nunca decepciona.

Uma mesa ao lado, ocupada por uma grande família de 12 pessoas, poderia ter tornado o ambiente barulhento e desagradável, se fosse em outro lugar. Mas a boa educação européia dividiu e organizou as três gerações presentes por idade e interesses. Os adolescentes, em crise como todos os adolescentes do mundo, conversaram entre si e desenvolveram jogos mútuos de sedução. Talvez fossem primos. As crianças encantaram-se com as sobremesas e não correram se perseguindo entre as mesas.

Mas penso que não voltarei ao Le Marché.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Montcuq


Montcuq é uma pequena cidade medieval entre Cahors e Lauzerte. Situava-se entre duas antigas muralhas de defesa que hoje estão desaparecidas. Possúi três praças à sombra de plátanos e alguns bistrôs. Do castelo que pertenceu aos condes de Toulouse, restou uma bela torrre de 24 metros de altura.

A grande atração da cidade é a feira dos domingos, quando os produtores da região vão oferecer seus produtos aos clientes que acorrem das cidades vizinhas em busca de trufas, ameixas, pães de especiarias, cerâmica marroquina, azeitonas e comida, muita comida.

O Quercy branco, nome da região onde está Montcuq, é uma terra de moinhos e capelas perdidas dentro dos bosques, legado dos antigos peregrinos que por ali passaram com destino a Santiago de Compostela.

O vinho quente com canela, bebida típica dos meses do inverno, está presente e oferecido pelos feirantes a seus clientes. Um chinês de Hong Kong vende capões assados e diz que trabalha para, um dia, visitar o carnaval do Rio.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A velhinha das margens do Lot


Bem velhinha, ela está curvada de tal forma que o rosto volta-se para o chão, mas os olhos miram acima, emprestando um certo ar de desconfiança ao seu modo de encarar as pessoas. O nariz fino destaca-se das rugas muito profundas para acentuar um olhar inteligente e curioso sobre os outros, enquanto ela caminha pelas calçadas de Cahors.

Não se veste como se fosse velha, pois uma saia curta e meias longas e grossas lhe dão um certo ar juvenil. Passeia todos os dias nas margens do Lot e parece não se incomodar muito com o frio do inverno e com o vento que faz o frio mais frio, pois um cachecol e uma boina basca lhe são suficientes como agasalho.

Se usasse uma bengala, talvez caminhasse de forma mais ereta e segura. Mas talvez fizesse com que se sentisse velha, portanto é melhor seguir curvada, a cabeça baixa mas com o olhar voltado para cima, a desafiar a velhice.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Na noite do Natal

Na noite do Natal, o Bar du Centre era o único lugar aberto porque as lojas, os restaurantes e todos os lugares públicos haviam fechado em Cahors. No meio da noite fria, destacavam-se as luzes do velho bar. À distância, dava para ver o dono do bar e dois clientes de pé, encostados no balcão.

À meia noite, os sinos da catedral de Saint Etienne começaram a tocar e os dois clientes sairam para a rua e ficaram escutando o badalar dos sinos. Quando os sinos pararam de tocar, retomaram seus lugares e voltaram a beber nas grandes canecas de cerveja que haviam deixado no balcão.

No mundo inteiro, a noite do Natal foi construida para ser festejada em família. É a noite em que a alegria da festa excita os adultos e principalmente as crianças na espera da surpresa dos presentes que irão receber. Mas há quem prefira passá-la sozinho, como os dois homens que sairam do bar em Cahors para escutar o toque dos sinos da catedral.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Le Lamparo


Cahors tem alguns bons restaurantes, não fosse a cidade uma das mais importantes do Sudoeste francês, região famosa por sua gastronomia. É a capital do departamento do Lot, apesar dos seus parcos 20 mil habitantes. Comparada com as capitais dos estados brasileiros, em número de habitantes perde até para os magros municípios do interior do nosso país.

Le Lamparo é um restaurante que não figura entre os grandes da alta cozinha francesa, nem mesmo entre os famosos do Sudoeste. Está localizado bem em frente ao Halles, o mercado municipal de Cahors. Não exibe um grande letreiro na fachada e quem passa em frente só vai percebê-lo se estiver atento à paisagem urbana da parte antiga da velha cidade. No entanto é capaz de se igualar e até mesmo vencer quando comparado com os melhores bistrôs de Paris.

Lola Lestrade, a patroa, construiu um patrimonio de Cahors e a prova são as filas que se formam na hora do almoço à espera de uma mesa, mesmo agora, na estação do inverno, quando os turistas desaparecem da região.

Ancorado num cardápio que exibe os grandes pratos da cozinha do Sudoeste e num serviço atento, rápido e cortês, cobrando preços muito honestos, Le Lamparo mereceria um bom número de estrelas nos guias gastronômicos da França.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Cassoulet de Toulouse


Toulouse disputa com Carcassone a primazia de ter criado o célèbre prato francês de feijão branco enriquecido com com carnes de pato, porco e embutidos. Em Carcassone costuma-se usar favas ao invés do feijão, mas aqui em Toulouse o cassoulet é feito da forma tradicional. E a Maison du Cassoulet guarda essa tradição e serve o cassoulet em panelas de barro diretamente do forno.

A cidade não chega a ser uma das mais charmosas da França mas a Praça do Capitole é um lugar aprazível. Esta época do ano está tomada de barracas com produtos de Natal e muita gente a comer churros, crepes, aligot, pão de mel e tudo quanto é comida típica do Sudoeste. E a beber vinho quente.

Faz frio, numa temperatura bem suportável. A cidade é alegre, de população muito jóvem, por conta da universidade local, uma das mais antigas da Europa. É apenas uma passagem. Um pernoite.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Viagem


O vôo AF443 decola amanhã do Galeão às 18:40hs e o AF7782, no dia seguinte, às 10:20hs, do Charles De Gaulle para Toulouse. São 12 horas de viagem que me deixarão perto de Cahors, onde pretendo passar as próximas semanas. Parece que uma onda de frio atinge a Europa e algumas borrascas de neve têm se precipitado pelo Sudoeste da França.

As viagens de avião, atualmente, são bem desconfortáveis. O Galeão está pior do que a Estação Rodoviária, os aviões lotados, longas filas para a revista dos passageiros na busca de terroristas e está difícil beber a bordo.

O número do vôo em que vou embarcar e a rota que ele vai cumprir me fazem lembrar o trágico AF447, que mergulhou no Atlântico sem deixar sobreviventes, logo após o jantar, quando os passageiros se acomodavam para fazer a longa travessia.

Viver é um risco permanente.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O efeito estufa


O vizinho entrou no elevador lendo o jornal que falava da conferência de Copenhagen. Na mesma página, mostra a notícia sobre a ciranda de fogos no reveillon de Copacabana. Relaciona os dois fatos e me pergunta se eu não achava que aquelas toneladas de fogos não seria capaz de provocar enorme poluição e colaborar com o propalado efeito estufa.

Em todo o mundo, no dia 31 de dezembro, centenas de toneladas de fogos de artififício explodem minuto a minuto, na medida em que a Terra gira e a meia-noite vai chegando a todos os países. A poluição que se provoca nessa data, em tão breve momento, deve ter mais potência poluidora do que os gases expelidos pelo ventre dos rebanhos mundiais.

Se for mesmo verdade que o planeta esteja ameaçado, o homem sacrifica a cada ano um pouco do seu futuro por um momento de beleza pois, como disse Keats, o poeta inglês, “a moment of beauty is a joy forever”.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Festas


A uma semana do Natal, o tráfego de automóveis está intenso mas as lojas continuam meio vazias. A clientela talvez esteja nos shopping centers, o comercio de rua reservado para as compras de última hora. O calor fez uma pausa mas outros dias muito quentes se aproximam. Copacabana já recebe seus turistas, cuja presença vai aumentar, como sempre, na semana do ano novo.

Alguns edifícios ostentam na fachada decoração com luzes e leds. A mais feérica de todas costuma ser a do prédio onde mora o presidente de honra da Beija Flor, mas outros apartamentos nas ruas de dentro, sem a nobreza daquele na Avenida Atlântica, já inauguraram sua iluminação de Natal.

Marquinhos, o maluco da vizinhança, com seu rádio que não toca nada, dizia ontem que ouvia músicas de Natal enquanto dava uma pausa no seu mau humor e no ódio que devota ao próximo. Não xingava nenhum dos passantes, apenas olhava para eles com seu olhar fixo e um certo ar de desconfiança.

O bairro se prepara para as festas de fim de ano.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Cantinas


A moda afeta o comportamento, a maneira de vestir, o vocabulário e até o nosso modo de comer. Colocar uma roupa que saiu de moda, um paletó curto ou uma calça de cintura muito baixa, faz-nos parecer aos outros como seres estranhos, perdidos no tempo. Dizer uma expressão que esteve na moda antigamente – do tipo “é uma brasa, mora” – vai nos fazer cair em ridículo profundo.

O cardápio dos restaurantes também sofre a influência da moda. Desde o tempo em que comer fora significava bife com batatas fritas, outros pratos estiveram na órdem do dia, como foi o caso do estrogonofe, do picadinho, do paillard com fettuccine e do steak au poivre. E a moda da nova cozinha francesa ou italiana mudou radicalmente a maneira de comer em restaurantes.

Em tempos passados, estiveram na moda em Copacabana as cantinas italianas com suas toalhas quadriculadas e o cardápio de massas feitas do jeito antigo. Elas foram desaparecendo e poucas resistiram, como é o caso de La Trattoria, na Rua Fernando Mendes. Vale a pena ir lá e comer uma bem feita lasanha à bolonhesa, prato que já esteve na moda e que desapareceu do cardápio nos modernos restaurantes italianos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Alcóolatras


Maldonado me contou sobre uma descoberta de João Antonio, quando ele morava na Praça Serzedelo Correa e frequentava os bares de Copacabana. Alguns homens e mulheres que eram alcóolatras faziam ponto nas proximidades do Pavão Azul, que fica na Hilário de Gouveia, em frente à Delegacia de Polícia. Com a colaboração dos bares e a pedido das famílias, estavam proibidos de beber. Os botequins recusavam-nos como clientes.

João Antonio morreu em outubro de 1996 e ontem fui conferir sua descoberta. Eles ainda estão lá. Se não são os mesmos, outros vieram substituir os que partiram e rondam os bares, bebem água, tomam café. Aproximam-se discretamente de um camelô que vende meias na esquina e os abastece de cachaça. Tomam goles sorrateiros num único copo que está sempre à espera do próximo freguês.

Encontraram uma forma de burlar a proibição da família e o boicote dos bares ao vício que os destrói e lhes dá alento. Formam uma confraria secreta cujo objetivo é saciar a sede que não são capazes de aplacar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Flamengo


De manhã bem cedo um ciclista passou veloz empunhando uma bandeira e por volta do meio dia Copacabana já tinha enlouquecido. As ruas foram tomadas pelos torcedores e eles eram em tal quantidade que davam a impressão de que o bairro inteiro torce pelo Flamengo.

Todos pareciam usufruir antecipadamente a vitória e o campeonato, formando uma multidão do Leme ao Posto Seis, num só alarido, cortado apenas pelo espoucar dos foguetes e da buzina dos automóveis. Todos os bares estavam com a TV ligada desde a hora em que abriram e a venda de chope e cerveja batiam recordes.

A cor vermelha se destacava na paisagem das ruas e a expressão dos turistas, também vermelhos por conta dos dias de sol da semana passada, passava da surpresa para a incredulidade diante da estranha e animada festa.

Não torço pelo Flamengo, mas sempre me surpreende a festa nos dias em que ele joga, um espetáculo de enorme, incontida alegria que só se compara ao silêncio e a depressão que toma conta do bairro nas raras vezes em que o time perde.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Os bichos


Moram no bairro cerca de 150 mil pessoas, mais turistas e gente de outros lados da cidade que vem à praia. Deve haver uma população equivalente formada por cães e gatos de estimação, porque há também muita solidão nos apartamentos e a companhia de um bicho compensa o sentimento de abandono de quem vive só.

Muita gente mora sozinha em Copacabana porque assim preferiu organizar a vida ou porque assim se tornou pela morte de alguém com quem viveu. Uma população mais idosa constrói também a solidão dos remanescentes.

Os gatos são menos sociáveis e quase nunca saem às ruas, preferem passear pelos telhados, mas os cães são habituais nas calçadas e penso que entre eles os poodles são maioria. Estão sempre no colo de suas donas, que os tratam com o carinho que dedicariam talvez aos filhos e aos netos.

No forte calor que tem feito, vejo poodles peludos. impacientes, arfando nos braços das senhoras. Elas sentam nos bares de calçada para para lhes comprar água e abaná-los com leques e acariciá-los, conversando com eles, e não há dúvida de que um entende o que lhe diz o outro.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Fortaleza dos Vencidos


Um belo romance que trata do amor, da paixão, da política e de outros fortes sentimentos da vivência humana. E tudo com humor e agilidade, num estilo ao mesmo tempo leve e forte e de grande criatividade. É o novo romance de Nei Leandro de Castro, a história de Marionália e Esmeraldino, um desencontro existencial que segura com firmeza a atenção do leitor e o conduz no fio da narrativa até o final surpreendente, enquanto Nei aproveita para exorcizar alguns fantasmas pessoais.

Sua obra até agora compõe-se de 11 livros de poesia, um ensaio sobre Guimarães Rosa e quatro romances, com este último. É tão bom poeta quanto romancista, o que comprova mais uma vez com este A Fortaleza dos Vencidos, editado pela Saraiva, um texto extremamente bem escrito, cuja fonte encontra-se no universo do expressivo linguajar nordestino.

Marionália e Esmeraldino, Romeu e Julieta às avessas, passam a figurar na galeria dos grandes personagens da literatura brasileira, principalmente ela, Marionália. Sua loucura e sua obsessiva busca de vingança contra o homem que amou fazem dela um personagem que não se consegue esquecer. Nem nós nem Esmeraldino, cujo nome foi inspirado por O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac, poeta que o seu pai venerava.