quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Semana pré-carnavalesca


A cidade se agita em datas de festas. Natal e Carnaval são os picos desse entusiasmo coletivo que se mistura ao calor do verão para resultar no confuso tempo de compras e de alegria, ambas obrigatórias. Compras obrigatórias no Natal, alegria obrigatória no Carnaval. Num, o comercio festeja vendas récordes, no outro a indústria de bebidas e de outras drogas menos santas superam suas próprias previsões. A indústria de preservativos também festeja o carnaval.

Nesta semana pré-carnavalesca, o trânsito pesado reflete o estado de espírito da cidade. As pessoas saem à rua e se transformam em povo e o povo se transforma em blocos que exalam odor de suor e de cerveja. Cada bairro tem mais de um desses grandes aglomerados humanos inquietos que arrastam multidões em cortejos absurdos. O ruido produzido por um desses blocos é superior em volume ao estrondo de um trovão sobre nossa cabeça, só que não é passageiro como um trovão.

Suvaco do Cristo, Vem ni mim que sou facinha, Xupa mas não baba, Imprensa que eu gamo, Mulheres de Chico, Se não quer me dar…me empresta, Cutucano atrás, Se me der eu como, Rola preguiçosa, Que merda é essa?, Spanta neném, Berro da viuva, Eu sou eu e jacaré é bicho d’água, Bengalafumenga, Nem muda nem sai de cima, Gargalhada e do babaçu abunda e cerveja também, Bafo da onça, Bloco dos cachaças, Bagunça meu coreto, Meu bem volto já, Concentra mas não sai, Empurra que pega, Barangal e Senta que eu empurro são alguns dos comportados e barulhentos blocos que desfilam esta semana.

Evoé, Baco!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O banquete

Epicuro de Samos, no século IV a.C, não entendia por que o animal humano se esconde para exercer as funções excretoras e come despudoradamente em público, junto aos outros humanos. Comer é um ato social, o homem não ama comer sozinho e o faz de maneira ritual, em horas marcadas, com os mesmos gestos e da mesma forma, todos os dias, repetidamente.

Estes pensamentos me ocorreram ontem, quando fui assistir Operação Valquiria, no Shopping Botafogo, sessão das 13:30 hs. O filme é ruim, não vou comentá-lo, mas me chamou a atenção a multidão que comia na praça de alimentação, por onde se passa para ir ao cinema. Fiz, com o celular, a foto acima. Calculo algo em torno de 400 pessoas sentadas, mastigando a comida comprada em dezenas de restaurantes que circundam as mesas.

Submetidos à escravidão das horas, ruminantes apressados, a sós ou em grupos, os convivas daquele insólito banquete formavam um comportado rebanho que se alimentava em comunhão diária, dentro de um templo de consumo ruidoso e entediante.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O velho Charles


O amigo Carlos Cordeiro me envia um filme em que Charles Aznavour canta Hier encore na companhia de duas lindas moças que participavam de um concurso de jovens cantoras. Elas o acompanham e lhe fazem coro na melancólica canção. Veja aqui.

A saudade da juventude costuma atacar os velhos e por isso é interessante e contraditório ver as duas garotas, recém saídas da adolescência, ajudá-lo a entoar a triste canção de um tempo perdido.

A juventude se esgota de maneira fugaz. Ela foi definida por Joseph Conrad, em seu conto Youth, como um instante de força e romance, algo que, enquanto lançamos um olhar ansioso para fora da vida, enquanto esperamos, já passou. Um rápido raio de sol (a flash of sunshine) sobre uma estranha praia, assim ele a descreve.

Aznavour é um artista de grande fôlego. Atuou em mais de 60 filmes e compôs 850 canções. Além do francês, criou muitas em inglês, italiano, espanhol e alemão. Sua voz de tenor muitas vezes é modulada para baixo e ele consegue o tom de um barítono. Por ter apenas 1,60mts., compensou a pequena estatura desenvolvendo uma enorme presença no palco.

Está com 85 anos e sua voz permanece poderosa. Continua a cantar.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Frango assado com farofa


Para este fim-de-semana, segue uma inspirada receita de frango assado com farofa, prato que se encontra entre as grandes criações da cozinha brasileira.

Ingredientes: 1 frango de cerca de 1 ½ quilo; 1 limão; 1 cebola média; 100 gramas de toucinho defumado; 1 folha de louro; 1 colher de sopa de óleo; 2 ½ colheres de sopa de manteiga; 3 xícaras de chá de farinha de mesa tostadinha; 4 ovos; ½ xícara de chá de azeitonas pretas picadas; 1 colher de sopa cheia de salsa picada; sal e pimenta.

Limpe o frango, lave e tempere com caldo de limão, sal e pimenta. Escorra e recheie com ½ cebola em rodelas, a folha de louro e metade do toucinho. Cruze as patas e amarre. Dobre as asas para trás e acomode numa assadeira untada com o óleo. Besunte todo o frango com 1 colher de sopa de manteiga. Leve ao forno regular e pré-aquecido por cerca de 45 minutos. Quando começar a frigir, molhe com ½ copo de água quente e vá virando para que toste por igual, sem esquecer de regar o frango com o próprio molho. Pique o restante do toucinho e frite em 1 colher de sopa de manteiga. Misture os torresmos com ½ cebola batidinha e espere alourar. Refogue os miúdos limpos, lavados e picadinhos, até que comecem a frigir. Molhe com um copo de água e cozinhe em fogo brando até que estejam macios e quase sem molho. Prepare os ovos mexidos em ponto mole, em ½ colher de sopa de manteiga. Misture com os miúdos e com a farinha de mesa e mexa bem, em fogo brando. Desmanche o fundo da assadeira com um pouquinho de água e misture o molho à farofa, tornando a mexer bem. Por último, acrescente a salsinha. Corte o frango em pedaços grandes e arrume sobre a farofa.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Chuvas



Como as tempestades de neve nos países europeus durante o inverno e os seus periódicos cataclismos, a chuva perturba o Rio nos meses de verão. Relatos desde o século XVI trazem notícias de cíclicas enchentes e avalanches destruidoras. Os habitantes das favelas implantadas nos morros entram em pânico a cada chuva forte, pois as consequências podem ser a perda da casa onde vivem e dos bens conquistados a custa de sacrifício, sem contar o risco da própria vida.

O trágico se faz presente no Rio e em outros pontos do país, durante o verão. A natureza cobra o seu tributo pelos aterros, o entupimento dos rios assoreados pelo lixo e a ocupação desordenada das encostas.

Numa das últimas dessas grandes inundações, fiquei ilhado no Catete e me refugiei no Bar do Getúlio, em frente ao Palácio. As águas subiram, cobriram a rua e em pouco tempo chegaram quase ao nível do assento das cadeiras. Com os pés sobre a mesa, esperei a passagem das horas e a melhora do tempo.

Fiz a foto acima nessa ocasião, fazendo uso do celular. Ainda bem que o intrépido garçom continuou a servir o chope, amenizando a desagradável espera.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Belinha



Faz algum tempo, escrevi um artigo sobre gatos. Está em http://www.umacoisaeoutra.com.br/cultura/gatos.htm . Os gatos são criaturas misteriosas e belas, selvagens e gentis. Como todos os seres vivos, adoecem e morrem. E, como acontece com os homens, há um trabalho constante pela sua saúde e para evitar a morte precoce, pois a vida está sempre ameaçada pela morte.

Na semana passada, Belinha, uma gata saudável, inteligente e alegre – dedicamos um ao outro, ela e eu, grande amizade – apareceu com vômitos de sangue. Levada a uma clínica veterinária, foram diagnosticadas gastrite crônica, inflamação hepática e a presença de corpos estranhos nos intestinos. Foi recomendada uma cirurgia de urgência para a retirada desses corpos estranhos A operação não foi realizada imediatamente porque o anestesista não foi localizado. Ficou para o dia seguinte. E para o outro, quando foi mais uma vez adiada. No quarto dia, ela foi retirada da clínica e entregue aos cuidados de uma médica veterinária, que a tratou de uma forte intoxicação.

Belinha passa bem. Parece que escapou de uma perigosa intervenção cirúrgica porque o anestesista desapareceu em recantos insondáveis.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Atores



Foi Luiz Augusto Candau quem me chamou a atenção para o fato de que o ator americano só aprende mesmo a ser ator quando envelhece. Enquanto jovem, é apenas um rosto bonito ou diferente, um modelo que a indústria do cinema aproveita para seus produtos. São raros os bons atores jovens, como Marlon Brando o foi desde seu primeiro sucesso, Um bonde chamado desejo, de Elia Kazan, em 1951. Ele tinha então 27 anos.

Clint Eastwood, que foi um ator de segunda nos falsos westerns italianos, encontra-se hoje no primeiro time hollyoodiano e transformou-se num festejado diretor. Seu talento despontou com a experiência da idade.

Marilyn Monroe jamais foi reconhecida como atriz e fez um enorme esforço nesse sentido. Procurou intelectualizar-se, matriculou-se no Actors Studio e tentou dar um salto para fugir do star system, que a obrigou a fazer, sempre, o mesmo papel de loura alienada. A tragédia da sua vida pessoal interrompeu, aos 36 anos, toda a sua busca pela nobreza da profissão.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Sonhos



Quando sonhamos, dá-se o despertar da nossa vida inconsciente. Quando conseguimos nos lembrar do que sonhamos, nem sempre a lembrança é de conteúdo lógico, que possua um desenrolar capaz de ser contado, algo que tenha começo, meio e fim. São sensações, visões e emoções encadeadas que formam estranho painel refletindo essa misteriosa vida que existe por baixo da nossa vida consciente. Não há tempo nem espaço definidos, só vivências interiores, longas e extraordinárias, que podem ocorrer durante o cochilo que dura apenas um segundo, o tempo de um cabecear, mas onde se sucedem experiências que parecem prolongadas num tempo infinito.

Parece que sonhamos durante o sono mais leve, aquele que surge logo que adormecemos e que retorna pouco antes do despertar. Do sonho do sono profundo, nada fica em nossa memória consciente. Mas desconfio que muitas das nossas reações espontâneas, os rápidos reflexos que às vezes possuimos diante da vida, muitas das resoluções que nos ocorrem diante de problemas complicados, são todos construidos pelas vivências que sonhamos, em sua linguagem irracional e fora do mundo lógico.

Penso que se todos os nossos sonhos durante o sono profundo fossem lembrados, seríamos levados a confundir a realidade com o mundo onírico. Não é isto o que ocorre com os loucos?

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Arroz de Braga



Sábado, dia de ir para a cozinha, e aqui vai bela receita do arroz que fez famosa a culinária de Braga.

Arroz de Braga

Ingredientes
2 xícaras de caldo de carne, 2 xícaras de água a ferver, 150g. de linguiça, 1 paio,100g de toucinho defumado picado, 2 colheres de óleo, 4 sobrecoxas de frango,1 cebola picada,2 xícaras de chá de arroz, ½ repolho pequeno, 1 tomate picado, sal a gosto.

Modo de fazer
Corte a linguiça e o paio em rodelas e reserve. Aqueça o óleo, frite nele o toucinho e junte o frango, fritando até ficar bem dourado. Acrescente o paio e a linguiça e frite mais um pouco. Junte o arroz previamente lavado e seco e deixe refogar durante alguns minutos. Despeje o caldo e a água a ferver e, quando levantar fervura, acrescente o repolho cortado em pedaços grandes e o tomate. Diminua o fogo e deixe cozinhar durante aproximadamente 15 minutos, até que a superfície apareça seca. Abafe a panela embrulhando-a em jornais e deixe descansar 10 minutos antes de servir.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Calor



A temperatura alta do verão carioca, a umidade do ar e o sol forte desses dias me fazem lembrar um texto de Borges que fala da humilhação do calor. Acho que é isso: o calor humilha as pessoas, a roupa se cola ao corpo e o suor desce pelo rosto, o seu e o dos passantes. Você se sente como se carregasse bolas de ferro amarradas aos tornozelos. Todos reclamam do calor, uma mulher se abana de maneira nervosa e um camelô vende leques na calçada.

Uma amiga que nasceu e vive na Europa me disse um dia que a lembrança mais forte dos dias que passou no Rio, durante um mês de fevereiro, era a de uma gota de suor que lhe escorria, permanentemente, espinha abaixo. No calor europeu do mês de junho, não há suor. A baixa umidade do ar provoca um calor seco e sufocante.

O Rio é uma cidade que vive o verão. É quando ela mostra sua face verdadeira, regurgita, festeja e, literalmente, põe o bloco na rua em desfiles carnavalescos que começam desde janeiro. De abril a setembro, a cidade hiberna, esperando estes meses quentes de praias cheias, asfalto amolecido, bares com todas as mesas ocupadas, mulheres seminuas, samba e calor humilhante.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Claro enigma



Dizem que Hipolito Irigoyen, que foi presidente da Argentina duas vezes (de 1916 a 1922 e de 1928 a 1930), reuniu a família logo depois de ter sido eleito para pedir que todos passassem a economizar e gastar menos porque, dali em diante, ele iria ganhar muito pouco na presidência da República. O salário era muito baixo.

Este episódio me ocorreu depois que li nos jornais que um ex-governador de Minas foi acusado pela ex-mulher de possuir um patrimonio que ela diz ser de R$3 bilhões e que ele próprio afirmou ser bem maior do que isso. Entre centenas de propriedades, é dono do hotel Résidences des Halles, em Paris. Ele era um homem pobre quando entrou na política.

Não conheço nenhum político brasileiro que tenha chegado pobre ao fim de um mandato. Um político ganha bem no Brasil. Como? De que forma? Os salários aqui também são baixos nos cargos públicos mas um mandato de quatro anos é capaz de amealhar uma fortuna que necessita de mais de uma geração para ser acumulada num trabalho empresarial produtivo.

Trata-se de um claro enigma.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Voyerismo



Na mesa ao lado, discutia-se o paredão e meu pensamento voltou a 1959, há cinquenta anos, portanto, quando a revolucão cubana entrou vitoriosa em Havana. Iniciaram-se os julgamentos públicos e criminosos do regime anterior foram justiçados por fuzilamento contra um largo muro. No estádio onde se davam os julgamentos, o povo gritava como se fora a torcida de um time de futebol: Paredon! Paredon! pedindo justiça rápida.

Demorou pouco para que eu percebesse que o paredão de que tratava a conversa entre quatro homens adultos era o do Big Brother, medíocre programa de televisão cujo título foi tirado de um célebre romance de George Orwell.

Nos anos 70, assisti em Nova Iorque à palestra do diretor de Mídia da Ted Bates, importante agência de publicidade que desapareceu no meio das várias fusões e incorporações ocorridas durante o processo de concentração do negócio publicitário. Não me lembro do seu nome, mas da essência da sua palestra: nos próximos anos, iríamos assistir ao fortalecimento das publicações e dos programas dirigidos ao voyerismo do público. A classe média, dizia, quer saber como vivem os ricos na intimidade e há um desejo latente na audiência em geral de acompanhar o que se passa entre quatro paredes. Ele previa um maior emburrecimento da mídia, acompanhando a alienação do público, com o sucesso de uma revista como Caras e de um programa como o Big Brother.

Os quatro homens bebiam cerveja, esta cerveja que se fabrica no Brasil com matéria prima de segunda classe, como arroz e milho, porque, dizem os fabricantes, o mercado não tem condições de pagar o preço de um produto de melhor qualidade, feito com a quantidade indicada de malte e lúpulo importados.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A Malvada



Bette Davis foi uma grande atriz, com 121 filmes numa carreira que durou mais de cinquenta anos. Ganhou dois Oscars de mellhor atriz, o que é pouco como reconhecimento ao seu talento. Dizem que foi ela quem batizou o premio da Academia com o nome de Oscar, inspirando-se no nome do seu primeiro marido.

Vi ontem na TV A Malvada (All about Eve), de 1950, pelo qual recebeu uma indicação para outro Oscar. Dirigida por Joseph L. Mankievicz, faz uma extraordinária performance. Mankievicz foi um dos poucos diretores americanos daquela época com liberdade para fazer um filme como A Malvada, do qual foi roteirista e diretor.

Mesmo na limitada tela de um televisor, é impossível ao espectador desgrudar os olhos dela, no papel de uma atriz madura que sofre a traição de uma aspirante a atriz que vem a tomar o seu lugar, interpretada por Anne Baxter, outra grande estrela da Hollywood dos anos 40 e 50. Também indicada para o Oscar de melhor atriz pelo mesmo filme, Baxter não chega a conseguir a mesma força de expressão da colega com quem contracena.

Bette Davis não foi uma mulher bonita. Seus olhos redondos, meio que saltando das órbitas, davam-lhe um ar de cansaço e envelhecimento. Mas esses olhos feios, que perscrutam os rostos presentes em cena e atraem a câmera, são eles que refletem a intensidade dos sentimentos interiores de Margo Channing, a personagem a quem Bette dá vida e de quem expressa a frustração, ódio, orgulho e decepção.

sábado, 31 de janeiro de 2009

O gazpacho de Vergé

Sábado. Com o calor que faz nesses dias, que tal ir para a cozinha e fazer o célebre gazpacho de Roger Vergé?

Vergé é um dos grandes da cozinha francesa. Reinou de 1969 a 2003 no Moulin de Mougins e, ao se aposentar, deixou em seu lugar um jovem chef, Alain Llorca, com a tarefa de manter no alto o nome da pequena cidade de Mougins, perto de Cannes, que deve sua fama ao Moulin de Vergé.

Gazpacho com seus frutos de rio e mar


Ingredientes para quatro pessoas
: 160g de filé de pintado ou surubim (no original, Vergé usa salmao fresco), 160g de filé de robalo ou badejo. Azeite de olivas. Suco de limão coado. Sal. Folhas frescas de cerefólio ou coentro. Doze tomates sem peles e sementes. Pimenta do reino em grãos, a se moer no momento de servir.

Modo de fazer: corte os filés de pintado ou de robalo em tiras de meio centímetro de largura por uns 5 de comprimento. Banhe com o azeite, o suco de limão e o sal. (Podem-se usar outros frutos de rio e mar, como os pitus, os camarões e os lagostins - o importante é que sejam dois e de coloracões diferentes, para a beleza do prato.) Deixe que marinem na mistura por uns 15 minutos. Paralelamente, bata os tomates num liquidificador ate obter um caldo fresco e espumoso, bem homogêneo, aquilo que se conhece por "coulis". Condimente o "colis" apenas com sal, algumas gotas de azeite e de limão, a fim de acentuar o sabor dos tomates frescos. No centro de cada prato, faça um arranjo arredondado com tiras de pintado e robalo. Em volta, despeje a sua porção respectiva do "coulis" de tomates. Enfeite com os verdes do coentro ou do cerefólio. Finalmente, polvilhe com a pimenta do reino.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Azeite



Na cozinha italiana reina o azeite de oliva, assim como em Portugal. Na França, a manteiga é usada sem parcimônia. Entre nós, por razões de preço alto em país pobre, predomina o óleo das mais diferentes fontes, com predomínio da soja. Pelo menos no Rio, observo nos restaurantes, bares e botequins, a clientela compensar o óleo da cozinha acrescentando generosamente azeite em tudo quanto são pratos, acepipes e tira-gostos. Azeite sobre feijão com arroz, churrascos, peixes, legumes, aves, massas e molhos. A comida bóia sobre azeite.

De onde vem esse fascínio pelo azeite? De onde vem esse desejo de unificar todos os sabores sob o manto do óleo de oliva? Alguns clientes, revoltados, chegam a alargar com garfos e até canivetes retirados do bolso os estreitos buracos abertos com cuidado pelo dono do estabelecimento e fechados com um palito. Nos botequins do Rio, qualquer prato é servido acompanhado de uma lata de azeite e um vidro de pimenta, em atendimento à obsessão pelo azeite e ao desejo de um tempero picante que desperte o paladar adormecido.

Não sei explicar este costume. Posso arriscar com a teoria da saudade dos desterrados portugueses em busca da memória dos sabores da pátria, que influenciou os hábitos alimentares do carioca, ou então com a constatação de que os paladares mais primitivos estão, inexoravelmente, condenados à incapacidade de diferenciar sabores sutis, preferindo o gosto único que o azeite proporciona a todos os pratos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Palavras sem fronteiras



Um livro muito interessante, fruto de paciente pesquisa feita pela embaixador Sergio Corrêa da Costa, Palavras sem fronteiras é um trabalho de linguística elaborado por quem não é linguista e o resultado é surpeendente. São 16 mil exemplos, retirados de 46 idiomas, de termos e expressões que significam a mesma coisa em quase todas as línguas do mundo.

Mocassim é uma palavra do vocabulário dos indios da America e que significa a mesma coisa nas mais diversas línguas, assim como maiô e maquete, do francês; airbag e baby doll, do inglês; academia e agenda, do latim; adagio e baritono, do italiano; aficionado e bolero, do espanhol; aspirina e bunker, do alemão; balalaika e troika, do russo. É uma enorme quantidade de palavras que usamos e que não nos damos conta da sua origem porque já estão incorporadas ao nosso vocabulário. Até línguas já desaparecidas, as línguas mortas como o sânscrito, dão sua contribuição, como é o caso de avatar e carma.

O francês é a língua que deu maior contribuição a este acervo de palavras internacionalizadas, seguido do inglês. O embaixador observa que o francês prepondera na definição das coisas do espírito, das artes, e o inglês designando coisas práticas, tecnológicas.

O livro estampa em epígrafe uma advertência de Philippe Rossillon que nos conduz a alguma meditação sobre o futuro da nossa própria língua: É preciso ser míope como os políticos para não pressentir que a longo prazo as línguas mais nobres, mas não utilizadas na pesquisa, na documentação e no ensino científicos e técnicos, serão rebaixadas ao atual papel do hindi e, talvez, daqui a cem anos, do quíchua.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Super Bowl



O mundo do marketing dos Estados Unidos está agitado. Dia 1º de fevereiro é dia de Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, que bate recordes de audiência e de consumo, principalmente nos ramos de bebida e de comida. Este ano o comercial na TV está custando US$ 3 milhões e só a Anheuser Busch, fabricante da cerveja Budweiser e recentemente incorporada pela Inbev, comprou sete.

Todos os anunciantes no Super Bowl, como a própria Anheuser Busch, a coreana Hyundai e a alemã Audi, dizem que o investimento vale cada centavo pago porque retorna com toda segurança. Cada vez mais os anunciantes enfatizam em seus anúncios seus endereços on-line porque, dizem, o consumidor de hoje, antes de comprar, dá uma olhada no site do produto. Graças aos anúncios no Super Bowl do ano passado, a Audi teve um aumento de 200% de tráfego no seu site, a Hyundai afirma ter recebido 300 mil visitantes e vendido 25 mil carros e o site da Anheuser Busch teve 26 milhões de visitas na semana seguinte ao jogo.

Este ano, apesar da crise, os anunciantes estão confiantes nessa força para um desafogo em suas vendas.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Coronel Stauffenberg



Com falta de bons roteiros, apelando para as superproduções ancoradas em estrambólicos efeitos tecnológicos, procurando impressionar com a declaração “baseado em fatos reais” na abertura de filmes medíocres, admira-me que Hollywood não tenha descoberto antes a história de Claus von Stauffenberg. O mais jovem soldado alemão a ser promovido a coronel, veterano da campanha da África, onde perdeu um olho, um braço e dois dedos da outra mão, tentou matar Hitler com uma bomba e foi fuzilado porisso.
Stauffenberg tem todos os ingredientes para ser herói do cinema e seu nome vai ganhar as ruas com o sucesso que vem fazendo Operação Valkiria, dirigido por Bryan Singer e interpretado por Tom Cruise.

Em 2008 foi também produzido e lançado um documentário sobre Von Stauffenberg - Operation Valkyrie: The Stauffenberg Plot to Kill Hitler, dirigido por Jean-Pierre Isbouts, que não chegou ao Brasil. É a consagração, enfim, do jovem e desditoso coronel.

E por falar em cinema e Hollywood, fui ver O curioso caso de Benjamin Button, filme feito para ganhar Oscar, com tudo o que agrada à Academia: cuidadosa produção, história sentimental, grandes efeitos. Tinham me dito que se tratava de uma história de amor. Não é bem assim. Trata-se de um filme sobre a velhice e a morte.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Joelho de porco crocante



Porque hoje é sábado, vale a pena ir para a cozinha e preparar algum prato que dê sossego ao corpo e traga prazer ao espírito. O joelho de porco é um dos grandes pratos da cozinha alemã que aos poucos se difunde e se tropicaliza entre nós, como na receita que se segue:

Joelho de porco crocante


Ingredientes:
1 joelho de mais ou menos 700g
2 dentes de alho amassados
12 grãos de pimenta-do-reino preta
2 cravinhos da Índia
3 folhas de louro
1 cebola cortada em quatro
sal

Modo de preparar:

Lavar o joelho e temperar com o sal, o alho amassado, louro, a pimenta preta, os cravinhos da Índia, a cebola cortada e deixar nesse tempero por cerca de 2 horas.
Levar ao fogo, mantendo o tempero, cobrindo de água, em panela tampada e fogo lento.
Retirar quando estiver cozido, tomando cuidado para não desmanchar. Escorrer e, na hora de servir, fritar em gordura quente, para ficar crocante.
Pode servir acompanhado de cebolas fritas, chucrute ou feijão branco
Bom apetite.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O dia em que a Terra parou



Nos tempos da Guerra Fria, em 1951, quando a ameaça de uma catástofre atômica tirava o sono de muitos, Robert Wise dirigiu a primeira versão da história do alienígena que chega à Terra para advertir a humanidade sobre os perigos que ameaçavam o seu futuro. Mas ele vem com a firme idéia de que a humanidade não tem jeito e precisa ser destruida para salvar o planeta. No memorial de Lincoln, em Washington, lendo trechos dos seus mais famosos discursos, chega à conclusão de que os povos da Terra ainda poderiam ter salvação.

Na versão de 2008, que agora se exibe nos cinemas, Klaatu e seu indestrutível robot ainda continuam descrentes quanto à raça humana, mesmo com o perigo atômico por enquanto afastado. Começam mesmo a destruí-la mas acabam por concluir que ela ainda pode ter jeito, mesmo sem terem lido as palavras de Lincoln. Ví o filme ontem e confesso que não me lembro por que Klaatu resolveu poupar a humanidade.

Hollywood anda sofrendo de forte crise de criatividade. Faltam-lhe bons roteiristas. A maior prova disso são as refilmagens de sucessos antigos, transformados em repetições sem graça e sem o carisma original. Os estúdios apostam na tecnologia, capaz de produzir grandes efeitos mas incapaz de contar uma boa história.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O leitão da Bairrada



Um amigo me enviou texto que encontrou na internet, no blog Suspeitos do Costume, de Portugal, assinado por Rui Baptista. Trata-se de deliciosa crônica, não só pelo assunto que aborda, mas também pela qualidade da escrita, e menciona uma das minhas inúmeras viagens à Mealhada em busca do insuperável leitão da Bairrada.
Transcrevo:


Foi você que pediu uma sandes de leitão?


Rui Baptista

Quando andava a fazer alguma pesquisa para escrever este texto sobre o leitão da Bairrada, encontrei na Internet a história de Celso Japiassu. Brasileiro (com um nome destes, que outra nacionalidade podia ter?), Japiassu aterrou em Paris, deu uma espreitadela rápida ao Louvre e à Torre Eiffel, e depois alugou um carro e rumou a Portugal. Ao contrário do que é habitual com os seus compatriotas, Japiassu não foi em peregrinação a Fátima, nem andou por Lisboa a admirar o Mar da Palha e o Parque das Nações. Não foi sequer comprar pastéis de Belém, um "must" para qualquer turista.

Japiassu não perdeu tempo com "coisas menores"e foi direitinho à Mealhada para comer um suculento leitão assado. Regado com espumante da Bairrada e acompanhado de batatas fritas cortadas à rodelas, salada de alface, laranjas e pão de trigo.

Não conheço Celso Japiassu. Nunca falei com ele. Celso Japiassu não é meu amigo. Na Internet não havia nenhuma fotografia dele, por isso não sei dizer-vos se é alto ou baixo, gordo ou magro (embora suspeite que seja "largo de ossos"), branco ou negro. Mas devo confessar que sinto um enorme respeito por um homem como ele, que sabe quais são as suas prioridades na vida.

Ora reparem: um homem mete-se num avião, atravessa um oceano, vira as costas a uma das mais belas cidades do mundo, conduz sem parar durante um dia inteiro e acaba sentado à mesa do Pedro dos Leitões, na Mealhada, a devorar um bácoro. Homens desta têmpera, que sabem o que querem, são cada vez mais raros. Têm a dimensão trágica de um Ulisses e a gula de um Obélix.

O leitão assado à moda da Bairrada é assim: não deixa ninguém indiferente. Japiassu não resistiu à pele estaladiça, à carne macia e perfumada do bicho, ao molho que mistura de forma deliciosamente letal alho, pimenta. salsa, banha, louro. Quem o pode censurar? Sim, porque Japiassu não foi o primeiro nem será o último a sucumbir aos encantos do bácoro criado a leite de mama. Gente mais importante, mais conhecida, mais mediática, tombou de joelhos perante os encantos do leitão da Bairrada. A rainha de Inglaterra, por exemplo. Sim, sua majestade encomenda de tempos a tempos meia-duzia de leitões da Bairrada ao restaurante Vidal, de Aguada de Baixo (Águeda). Os bichos são assados com esmero e depois transportados até Londres, com o maior cuidado, nos portões da transportadora aérea nacional do Reino Unido. Aliás, os britânicos são grandes apreciadores de leitão da Bairrada, e o actor Roger Moore (que interpretou os papéis de 007 e de "O Santo") e o cantor Cliff Richard ("sir" Cliff Richard, que é para manter o assunto em domínios aristocráticos) eram vistos com frequência à mesa dos restaurantes da Mealhada.

O que é bom para a Rainha ou para o 007 é bom para qualquer Japiassu deste mundo. É bom para mim também, claro. Mas acontece que eu, em matéria de leitão assado, levo uma vantagem considerável sobre a Rainha Isabel, sobre "sir" Cliff e sobre o "Santo", apesar das minhas raízes mais modestas, . Eu nasci junto à Bairrada, cresci com o cheiro do bácoro assado e fui alimentado a sandes de leitão desde tenra idade. Sou um privilegiado, eu sei. E os protectores dos animais que me perdoem, mas subscrevo inteiramente a posição de um grande amigo meu: não há melhor animal de estimação que o leitão da Bairrada.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

As religiões



Windows, Mac, Ubuntu, Linux, são os nomes de alguns times, outros preferem dizer religiões, no mundo da tecnologia e da internet. Os aficionados de um desses times defendem sua preferência como se fossem torcedores fanáticos, hooligans enraivecidos prontos para a destruição dos adversários. Existem sub-espécies, os times representados pelos browsers, num terreno onde as tribos se dividem entre os fanáticos do Internet Explorer contra os do Firefox, os adoradores do Chrome ou do Safari.

A grande divisão, a cisão definitiva dá-se, no entanto, na preferência entre PC ou Mac. São campos opostos porém se movem, na medida em que a Apple aumenta sua participação no mercado com o lançamento de produtos inovadores, de sofisticado design que representam ameaça concreta à hegemonia da Microsoft. Os novos usuários, como cristãos novos, transformam-se em macmaníacos, com a robusta crença de que estão do lado certo da Força.

É uma prova a mais da diversidade entre os homens e da inexistência de verdades absolutas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Um romance sobre o tédio



Alguns dias de viagem pela França me estimulam a procurar algum livro publicado recentemente, de preferência ficção, com o objetivo de reacostumar o ouvido e o pensamento à língua francesa. A opção por um romance foi motivada pela necessidade de enfrentar as esperas de aeroporto e a longa duração dos vôos com uma leitura que pudesse me absorver a atenção e ajudasse a vencer o tédio da viagem. Depois de pesquisar o balcão das livrarias, a escolha recaiu sobre La derniere conférence, de Marc Bressant, que ostentava uma faixa vermelha promovendo o livro com a informação de que ganhara em 2008 o Grande Prêmio de romance da Academia Francesa.

Marc Bressant é o pseudônimo literário de Patrick Imhaus, ex-embaixador da França na Suécia e ex-presidente da cadeia TV5-Europe. Um diplomata especialista em questões de mídia, portanto. O livro deixa isto muito claro e aproveita a biogafia do autor pois trata de uma conferência diplomática internacional sobre informação e comunicação durante os dias confusos da queda do muro de Berlim e da grande crise russa e dos países da Europa do leste. O leitor ainda ganha, de quebra, as fofocas do mundo diplomático, o que se passa nos bastidores de uma longa conferência internacional, os conflitos e, para não deixar de falar de sexo, os casos amorosos que ocorrem entre diplomatas à margem de uma reunião como aquela.

O leitmotiv do romance é o tédio. O tédio da diplomacia, o tédio da conferência, o tédio do narrador, embaixador francês numa tediosa crise profissional e pessoal.

Há muito que não leio um bom romance francês contemporâneo. Por onde anda a descendência de Flaubert, Camus, Gide, Genet, Sartre, Exupéry, Roger Martin du Gard e outros gigantes do romance francês?

sábado, 17 de janeiro de 2009

O Pavão Azul

Os mortos muitas vezes influenciam ou dirigem as nossas ações. Foi a lembrança de dois amigos mortos que me levou ao Pavão Azul, na esquina de Hilario de Gouveia com Barata Ribeiro, bem em frente à 12a Delegacia Policial. É o único prédio policial a não possuir portas. Porisso está, literal e permanentemente, de portas abertas.

O Pavão ocupa uma pequena loja, muito estreita, e parte da calçada. São cerca de cinco mesas dentro da loja e outras cinco ou seis na calçada. Ontem, exibia no quadro-negro um belo cardápio: feijoada, frango assado, filé de linguado, risoto de camarão – na verdade, arroz com camarão, mas de grande beleza – bife à milanesa, filé de frango, carne assada. Estava lotado.

Conseguí uma mesa espremida contra o balcão, garantí uma feijoada e, um pouco antes das três da tarde, Dona Vera, a proprietária, anunciou “a feijoada acabou”. E veio pequeno, doloroso e decepcionado alarido de várias mesas recém chegadas: óóóó!Eles perderam, realmente, uma bela feijoada.

O Pavão Azul é um botequim de grande qualidade, um bistrô à la ancienne, como diriam os sofisticados franceses.

João Antonio estava certo, Mario Rubens tinha razão.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O cozido

O pot au feu é um prato que existe em todas as culturas, em todas as regiões. Trata-se do aproveitamento dos produtos existentes no entorno do homem postos numa panela e cozidos. Existem formas diferentes de pot au feu, dependendo da abundância ou carência de cada região. A feijoada é um pot au feu, como é também o cassoulet, o irish stew e todos os outros pratos que juntam os produtos de uma região numa panela ao fogo.

O nosso tradicional cozido é um deles. E como amanhã é sábado, vai abaixo uma receita de cozido à brasileira, de modo a que você possa comprar ainda hoje o que for necessário para fazê-lo, amanhã mesmo ou no domingo.Lembre-se apenas de que é um prato indicado para muitos convivas, pois é impossível fazê-lo em pequena quantidade. Chame os amigos.

Cozido à brasileira

Ingredientes

1 k de peito de vaca - 3 paios - 1/2 k de linguiça defumada, previamente aferventada e cortada em pedaços grandes - 100 grs. de toucinho defumado – 1 pé de porco – 1 orelha – ½ k de costelinha - 1 pimentão - 2 tomates - 1 cebola - 1 pimenta malagueta - 4 a 6 batatas inglesas - 2 espigas de milho - 4 cenouras raspadas - 1 mandioca - 2 carás - 1 batata doce - 4 bananas - 1/2 abobora moranga - 2 chuchus - repolho - folhas de couve - cebola - ovos.

Modo de Fazer

Tempere muito bem o peito de vaca, aos pedaços grandes, deixe por algum tempo ou de um dia para o outro. Leve ao fogo um caldeirão grande com um pouco de óleo e frite o toucinho defumado, bem picadinho. Acrescente um pimentão em tiras, 2 tomates sem as peles, 1 cebola inteira, primenta do reino, alho e os pedaços de carne. Deixe refogar bem, adicione o paio, a linguiça, o pé, a orelha e a costelinha devidamente dessalgados, algum outro tipo de carne que lhe inspirar apetite e coloque uns 3 litros de água. Deixe ferver até que a carne fique cozida. Prove o sal. Se necessário, retempere. Acrescente uma pimenta malagueta ou mais, se voce for adepto da comida apimentada. Uns 40 minutos antes de servir o prato, retire as carnes do caldeirão e reserve em outra panela, com algumas conchas do caldo. Coloque no caldo que ficou no caldeirão, ainda no fogo: 4 a 6 batatas inglesas, descascadas e inteiras; 2 espigas de milho partidas ao meio, bem tenras; 4 cenourinhas raspadas; pedaços grandes de mandioca; 2 ou 3 carás inteiros.

Deixe ferver até que fiquem bem cozidos. Verifique o caldo, se necessário acrescente mais água. Prove o sal novamente. À parte, cozinhe uma batata-doce grande e algumas bananas (marmelo ou caturra) com a casca. Reserve. Acrescente ao caldo fervendo: pedaços grandes de abóbora moranga; dois chuchus partidos ao meio, sem o miolo; folhas inteiras de repolho; folhas de couve, sem o talo.

Depois de tudo muito bem cozido, arme numa travessa bem grande, dispondo os legumes para um lado e as carnes para o outro. Coloque em cima das carnes cebola crua em rodelas bem finas, rodelas de ovo cozido e azeitonas.Regue com azeite. Sirva bem quente com pirão.

Faca o pirão assim: no caldo em que foram cozidos as carnes e os legumes, adicione, aos pouquinhos, farinha de mandioca até engrossar um pouco. Enquanto joga a farinha, mexa vigorosamente com a colher de pau, para não encaroçar. Não deixe endurecer. Sirva com o cozido e arroz branco, tudo muito bem quentinho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O cãozinho robot

Os aeroportos estão acima da sua capacidade, em todo o mundo, principalmente nos países da Europa, apesar da crise. São necessários mais investimentos em terminais e pistas para que o tráfego de 1,5 bilhão de passageiros previsto para 2020 seja atendido, os padrões de segurança mantidos e o cáos seja evitado.

Os 29 maiores aeroportos europeus estão saturados. Para ampliação ou construção de novas pistas existem impedimentos geográficos e ambientais, segundo a Eurocontrol, organização belga encarregada da segurança aérea. Serão necessários 100 bilhões de euros, em 10 anos, para enfrentar essa crise. A recomendação feita à indústria é a de construir aviões maiores, com capacidade de transportar mais passageiros, para que se possa aproveitar a infraestrutura existente com menor investimento.

O resultado disso tudo é atraso e cancelamento de vôos, bagagens perdidas e longas esperas.

Acrescente-se a isso o medo de ataques terroristas, com medidas de segurança que quase obrigam cada passageiro a se despir para ser examinado. No aeroporto de Norfolk, na Virginia, quando um passageiro inglês passava pela revista com um cachorro robot, o brinquedo peidou e assustou os oficiais de segurança que pensaram estar diante de uma bomba. O FBI evacuou o aeroporto até finalmente se esclarecer que se tratava do Tekno L1 Robot Puppy, um brinquedinho que imita um cãozinho com a capacidade de dar peidos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O frio

Depois de vários dias exposto ao frio, o corpo começa a mostrar sua pouca adaptação às baixas temperaturas e a sentir falta do ambiente tropical em que se criou e se desenvolveu. A pele, ressecada pela falta de umidade e pelos ambientes aquecidos por calefação a gás ou eletricidade, começa a apresentar escamas, pequenas erupções e coceira. Desconfio que o tratamento dado à água, com excesso de cloro, e o hábito do banho diário ajudem a provocar essas reações na epiderme.

Dá para compreender porque, a nossos olhos, os povos da Europa sejam pouco fanáticos com relação ao banho de cada dia. Os brasileiros, recebemos este hábito de nossa herança indígena. Nossos índios, acostumados a banharem-se várias vezes ao dia, acabaram por influenciar os colonizadores portugueses e seus descendentes.

Dá também para entender porque turistas dos gélidos países europeus amam o calor, estendem-se felizes nas areias quentes das nossas praias e acabam por desfilar, suados e com intensa alegria, sob o calor de fevereiro, nas alas das escolas de samba.

sábado, 10 de janeiro de 2009

A rue de Levis


A rue de Levis, no 17éme arrondissement, começa na Tocqueville e termina no Boulevard des Batignolles, mas é nos seus dois últimos quarteirões que se desenrola uma festa da gastronomia francesa. Dezenas de barracas e pequenas lojas de grandes portas abertas formam uma feira popular de rua em que pontificam os pratos prontos e a fazer: chucrutes fumegando na atmosfera do inverno, leitões assados, capões e patos, gansos, embutidos, rilletes e patês, enfim, tudo o que a cozinha francesa imaginou. O prazer de olhar a exposição permanente de extraordinárias iguarias pode se transformar em tortura se você passar por aquela rua com fome.

Os grandes supermercados existentes em Paris, a maioria estabelecida nos subúrbios, numa acertada política de proteger o pequeno comércio dos bairros, são especialistas na esmerada exposição de produtos, mas não se comparam às feiras livres e aos mercados permanentes a céu aberto, como este da Rue de Levis. O Quartier Montorgueil e a Rue Saint Antoine rivalizam com a Rue de Levis como festa gastronômica para se comer com os olhos, mas perdem na quantidade e diversidade da oferta, e também no tamanho das filas em frente a cada barraca, principalmente nos fins de semana, formadas pela classe media parisiense, cujo maior programa é o prazer de comer.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O marinheiro Popeye



Popeye agora pertence a todos, pelo menos na Europa, onde uma lei da União Européia restringe os direitos autorais a 60 anos depois da morte do autor. O velho marinheiro de punhos largos e poderosos foi criado pelo roteirista e desenhista americano Elsie Crisler Segar, que morreu em 1938. Isto significa que, a partir de agora, qualquer um pode usar a figura de Popeye, seja em histórias em quadrinhos, em camisetas ou projetos de marketing, sem necessitar de autorização.

O King Features Syndicate, filial do antigo império de mídia Hearst, proprietário dos direitos com a garantia da lei americana até 1995, promete lutar com unhas e dentes contra a nova situação nos paises da Europa. Nos Estados Unidos, o copyright, diferente do direito autoral, é protegido por 95 anos a contar da data da criação de um personagem. Popeye nasceu em 1929, o que garante o copyright até 2024.

O forte marujo, capaz de fazer um inimigo voar pelos ares com um soco, é tão popular no mundo quanto o seu patrício Mickey Mouse. Sua marca e sua imagem são responsáveis por negócios da órdem de 1,5 bilhão de dólares, a maior parte correspondente à comercialização de marcas de espinafre.

Popeye foi consagrado com uma estátua em Crystal City, no Texas, conhecida como a capital do espinafre.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Australia

Neve na rua, calçadas escorregadias, entro no cinema para ver Australia, de Baz Luhrman, com Nicole Kidman e Hugh Jackman nos papéis principais. Como se trata de uma trupe toda formada de australianos, mesmo que Nicole tenha nascido em Honolulu, pensei que se tratava de um épico sobre a Australia, cuja história é marcada de lances heroicos e grandes crimes cometidos contra a população aborígene. Enganei-me.

Trata-se de um faroeste sobre a disputa de fazendeiros de gado pelo mercado de carne que surgia com a Segunda Guerra Mundial. Esse Baz Luhrman, que fez o feérico Moulin Rouge, gosta de ambiciosas produções e desta vez realizou um filme caro, com locação no belo e rude cenário natural do interior da Austrália. Mas é um filme abaixo do medíocre, a história é tola, Jackman é um canastrão e a bela Nicole Kidman, normalmente boa atriz, perde-se e não chega a convencer como a viúva decidida a levar avante o negócio do marido morto. A pieguice fica por conta do relacionamento dela com um menino aborígene e a presença de um preto velho que se dedica a certas feitiçarias.

Melhor do que Australia foi o almoço no La Grille (50, rue Montorgueil), um bistro simpatico, barato, onde um “Os à moelle”, ou seja um osso com tutano, vale dez vezes mais do que assistir a um filme ruim como aquele.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Picasso e Kurosawa

Entre dezenas de outras exposições de grandes mestres, três delas estão dedicadas ao gênio de Picasso, neste frio janeiro de Paris. No Grand Palais,Picasso e os Mestres, com 210 obras emprestadas por coleções do mundo inteiro, públicas e particulares, mostra o desenvolvimento do seu trabalho através do tempo. Suas rupturas com estilos antigos e suas propostas revolucionárias.

Em Picasso/Manet, Le dejeuner sur l’herbe, no Museu d’Orsay, 40 quadros, desenhos, gravuras e maquetes inspirados no famoso quadro de Manet, todos realizados entre 1954 e 1962.

Em Picasso poete, no Museu dos Correios (Musée de la Poste), os poemas que ele escreveu, recriou em litogravuras ou escreveu sobre envelopes.

Outra exposição que vale a visita é a de outro gênio criativo, este do cinema, que é Akira Kurosawa. No Museu de Belas Artes da Cidade de Paris (Petit Palais), estão em exibição até 11 de janeiro os desenhos do mestre japonês, provando que ao lado do grande cineasta conviveu um grande desenhista.

Antes de rodá-los, Kurosawa desenhava cada plano dos seus grandes filmes e com isso deixou um legado de obras que seriam importantes mesmo se não tivessem sido elaboradas com a intenção de apenas orientar as filmagens.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Paris

De Cahors a Paris são 575 quilômetros de autoestrada e porisso vale a pena a parada para pernoite em Argenton-sur-Creuse, pequena e charmosa cidade do Limousin. A chegada a Paris num sábado é tranqüila porque o trânsito é mais civilizado do que nos dias de semana. O frio, um pouco abaixo de zero, é intenso; a sensação é de mais frio, por conta da umidade natural da cidade.

Mas assim mesmo o movimento é grande, neste princípio de janeiro castigado por um inverno rigoroso e pela crise econômica enfatizada pelo discurso de Sarkozy e que preocupa os franceses. As ruas fervem de turistas e Paris é sempre Paris.

A menina que é fã da Eliana

A menina portuguesa vive em Cahors e trabalha como faxineira. Muitos portugueses vivem na região e ocupam os sub-empregos que os franceses desprezam. O objetivo deles é fazer alguma economia, guardar dinheiro e voltar para uma vida melhor em sua aldeia no Norte de Portugal. Ao saber que somos brasileiros, a menina nos diz que vê diariamente a TV Record e que adora o programa da Eliana, aos domingos.

A Record é a única estação brasileira que penetra em toda a França. Penso no poder econômico e na força de comunicação que se concentram nas mãos de uma igreja que se pretende universal, que se dirige aos mais pobres e mais simples do mundo, mas cujos propósitos evangelizadores são por demais obscuros.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O reveillon da crise

O salão do Le Balandre, restaurante onde passei o reveillon dos ultimos cinco anos, estava com metade das mesas desocupadas, ontem à noite. Poderia ter sido um triste passar de ano, se não fosse a companhia animada de Monique e Valentin, um casal que vive em Saint Cirq de la Popie, pequena e historica cidade aqui perto de Cahors. São novos amigos, feitos desde o reveillon do ano passado, quando nos encontramos neste mesmo Le Balandre numa noite festiva, um pouco diferente da de ontem.

A causa desta queda na animaçao da ultima noite do ano e da primeira madrugada do ano novo é que os franceses estao se sentindo desanimados diante do noticiario sobre a crise economica e as perdas de parte das suas economias na cotaçao das açoes. O discurso de Sakorzy, na rede de TV ontem à noite, pareceu a fala de um coveiro. Uma dissertaçao pessimista, preparando o espirito do povo para dias sombrios em 2009. O presidente contribuiu para a falta de alegria no salão do Le Balandre.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Le Bar du Centre

O Bar do Centro fica ao lado do mercado, o Halles de Cahors. La' não existe comida, apenas bebida. Sua freqüencia é a de trabalhadores no fim da jornada, alguns pés-inchados afogueados de vinho, gente sem qualificação maior senão a de bons bebedores. Silenciosos diante das canecas de cerveja - a Kronenburg forte, muito diferente das fracas cervejas brasileiras - olham com curiosidade o estrangeiro que pede o mesmo que estão bebendo.

Sobreviventes de outras eras, sinto-me bem entre eles.

Lalbenque, capital da trufa negra

Lalbenque, a 17 quilometros de Cahors, é a capital da produção e do comercio das trufas negras do Périgord. A cidadezinha é composta de apenas uma rua larga, que é a continuação da estrada, e um labirinto de outras seis, num confuso traçado que data da Idade Média. O mercado acontece todas as terças-feiras. Os produtores chegam silenciosos, com suas trufas bem guardadas em pequenas cestas cobertas com uma toalha quadriculada, e aguardam a discreta abordagem dos compradores. Hoje, o quilo da trufa chegou a bater mil euros, pelo que pude perceber. Mas às vezes superam este preço. Os compradores são os intermediarios que compram para a revenda em Toulouse, Paris e outras capitais da Europa, ou então os proprietarios de grandes restaurantes que preferem comprar, na origem, o valioso cogumelo. Dificil dizer o volume de dinheiro que circula nesse mercado discreto, onde ninguem grita, onde não existe a excitação das bolsas de valores mas que sustenta grande parte da economia desta região onde me encontro.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Monsieur Albert Résseguier

Almoço na casa de amigos em Luzech, a poucos quilometros de Cahors. M. Rességuier, que vai fazer 90 anos, me diz que até os 80 tudo é mais facil, a coisa começa mesmo a complicar é depois dessa idade. Procurava me confortar, depois que reclamei do cansaço de quem esta' ficando velho.

Os Rességuier são produtores de vinho ha' varias gerações e começaram a exportar agora para o Brasil sua marca Malbec de France. Houve uma bela degustação de bons vinhos e, ao fim do almoço,como digestivo, um gole da cachaça que eu lhe trouxe como presente.

M. Albert Résseguier ainda trabalha em suas vinhas. Agora, diz ele, tudo é mais facil porque, sentado num trator, a maquina faz todo o trabalho como se estivesse o conduzindo num passeio pela propriedade.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A neve e o potiron

Uma chuva muito fria e muito fina, hoje pela manhã, transformou-se em flocos de neve que aos poucos tornou as calçadas escorregadias e enfeitou as ruas de Cahors. Todos dizem que é muito raro nevar no mes de dezembro. Mas é muito raro, tambem, fazer frio no Rio de Janeiro, neste mesmo mes, o que de fato aconteceu, pelo menos nos primeiros quinze dias de dezembro. No dia de hoje, não sei qual a temperatura que faz no Rio, mas o normal seria muito calor. Se estiver chovendo e fazendo frio, é porque a teoria do aquecimento global e da confusão dos climas começa a se confirmar.

A memoria indelével que todos carregamos esta' ligada aos sabores. Nunca nos esquecemos do cheiro do que comemos e vivemos. Hoje, através do cheiro de uma pequena sopa de jerimun, que voces do Sul costumam chamar de abobora, tornei a vivenciar profunda recordação da infancia. O "velouté de potiron", no restaurante Le Marché, despertou essas lembranças. A pequena cidade de Cahors tem algo de João Pessoa dos anos 50. Porisso, talvez, traga esta névoa de nostalgia, junto com a neve que a cidade em que nasci jamais vira' a ver, a não ser que a confusão dos climas venha mesmo a surpreender

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O capão e o Rio Céle

Um galo castrado muito cedo em sua vida vem a se transformar no capão, ave que se encontra no vertice da piramide da gastronomia voltada aos bichos de pena. Minha experiencia com os capões remonta à infancia, mais precisamente à adolescencia em João Pessoa, pois não se costuma, no Sul do Brasil, capar os galos para torna'-los maiores e mais saborosos.

Tornei a me encontrar com um capão hoje, aqui em Cahors, na "brasserie" Le Relais, pois nesta região é costume, como ainda no Nordeste brasileiro, cria'-los soltos para depois comercializa'-los com a denominação "chapon fermier", assegurando-se que foi criado solto e na fazenda. Nada parecido com os frangos de granja, criados prisioneiros e alimentados com o estresse de não saberem se é dia ou se é noite, pois uma lampada acesa permanentemente sobre suas cabeças lhes rouba o sono, para faze-los comer sem cessar uma ração insipida e engordarem no mais curto espaço de tempo.

Este reencontro com o capão se deu depois de uma visita a Marcillac-sur-Céle, cidadezinha a 45 quilometros daqui, na margem do rio Céle, de belissima paisagem. De acordo com a informação do escritorio de turismo local, é um dos mais belos rios da Europa. Não conheço todos os rios da Europa, mas o Céle, pequeno e tranquilo, deve estar mesmo entre os mais bonitos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Cahors

Ja' escrevi sobre Cahors no meu site. Leia aqui. Desta vez a pequena cidade de 20003 habitantes, capital do Quercy, esta' com grande claridade, frio de 4 graus acompanhado de um belo sol de inverno. Nesta epoca, o termometro costuma acusar temperaturas abaixo de zero. Não sei tambem explicar como eles calcularam que nos ultimos dez anos a população da cidade tenha aumentado de 20 mil para 20 mil e tres habitantes.

Os bares estão cheios, nesta vespera de Natal, e bebe-se uma cerveja estranha. Belga de origem, a Affligen apresenta, em edição especial, uma cerveja de Natal (bière de Nöel) feita com uma mistura de canela e açucar mascavo. Sabor estranho, doce, enjoativo. Mas não se observa nenhuma garrafa de Coca Cola sobre as mesas.

No Le Lamparo, comi uma "tete de veau", prato de resistencia da cozinha tradicional francesa: todos os ingredientes que contem a cabeça de uma vitela - miolos, lingua, orelha, etc. Os espiritos mais sensiveis costumam chamar de abominavel este prato, o que não chega a fazer com que deixe de ser uma bela e deliciosa experiencia.

Continuo a escrever com o - este sim, abominavel - teclado frances, que me impede uma melhor acentuação das palavras.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Toulouse

Escrevo sem alguns acentos e alguma pontuação, por culpa do teclado frances.

O Galeão esta' um lixo. Penso que as autoridades, antes de privatizarem algum serviço publico, primeiro o sucateiam para obter a opinião favoravel dos usuarios. Deve ser o que estão a fazer com o aeroporto, onde uma placa anuncia que, depois de reformas, sera' transformado num dos melhores do mundo. Esperemos.

Mas eu queria mesmo era falar de Toulouse, que ontem, preparada para o Natal, estava alegre e festiva, apesar do frio intenso. A feirinha da Place du Capitole, fervendo de tanta gente, faturava alto e a barraca de quentinhas de aligot, cuja receita ensinei num post anterior, dava volta quilometrica. Não houve tempo para o cassoulet, que demoraria meia hora de preparo no Bon Vivre, pequeno e bom restaurante da Place Wilson. Como a fome era muita, pedi andouillete, embutido feito com tripas, que tambem e' orgulho da região.

Toulouse foi apenas etapa na viagem para Cahors, capital do Sudoeste, onde acabo de chegar. Apenas uma hora de estrada. Amanhã falo daqui.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Cassoulet de Toulouse

O cassoulet é prato típico da região do Languedoc. Três cidades disputam a honra de tê-lo criado: Carcassone, Castelnaudary e Toulouse. Deixo aqui uma receita da versão de Toulouse, com pequenas adaptações. E parto direto para Toulouse.

CASSOULET DE TOULOUSE
INGREDIENTES:
1 kg de feijão branco
250g de costelinhas de porco salgadas
500g de carne de carneiro s/ osso
400g de coxas de pato em confit (ou não, se tiver dificuldade em encontrar)
400g de carne de porco
350g de toucinho de porco
150g de bacon
150g de presunto cru (lombinho)
3 cebolas grandes
2 echalotes
12 dentes de alho
2 cenouras
1 bouquet-garni (salsa, coentro, aipo e cebolinha)
noz moscada
25cl de caldo de galinha ou carne
2 lingüiças portuguesas ou calabresas
200g de banha de porco (melhor se for de ganso)
sal e pimenta-do-reino moída

PREPARAÇÃO:

Coloque o feijão de molho de véspera, trocando a água várias vezes. Ponha as costelas salgadas de molho, trocando várias águas. Corte a carne de carneiro em pedaços médios. Ponha mais ou menos 50g de banha numa panela de fundo grosso, ponha a carne, tempere e deixe dourar. Acrescente 2 cebolas picadas e 2 dentes de alho fatiados. Ponha o caldo de galinha ou de carne e deixe cozinhar por 40 minutos em fogo brando. Corte as costelas de porco em lâminas, ponha numa caçarola com água fria, ferva por 10 minutos e escorra. Corte a carne de porco em cubos médios, o toucinho em pequenos cubos, o bacon picado, o presunto em fatias e as cenouras em rodelas. Pique 1 cebola e frite 50g de banha, mexendo e dourando ligeiramente. Tempere. Junte os feijões escorridos, as costeletas de porco, 8 dentes de alho fatiados, o bouquet-garni e uma pitada de noz moscada ralada. Verifique o tempero e cubra com água (3cm acima do feijão). Deixe cozinhar 45 minutos em fogo médio. Junte o carneiro e a ave, retirando o máximo da gordura acumulada. Misture e mexa durante o cozimento por 30 minutos. Corte a lingüiça em pedaços e frite na banha. Junte ao feijão e deixe cozinhar um pouco mais para incorporar todo o sabor. Sirva com um vinho de Cahors.

sábado, 20 de dezembro de 2008

O Escondidinho

Tudo indica que o Escondidinho, de respeitável tradição na gastronomia carioca, reencontrou o caminho da cozinha brasileira de qualidade. Depois da morte de Dona Lourdes, cujo talento fez a fama e a história do lugar, o velho restaurante do Beco dos Barbeiros havia entrado em lenta agonia, mas parece que agora, com novos donos, ampliado e com nova sala no andar de cima, está em fase de recuperação.

A costela com feijão manteiga, um dos grandes pratos do cardápio, estava ontem como nos velhos tempos. Saboroso, denso, untuoso, generoso, servido por Ruço, o antigo garçon, hoje com 89 anos mas ágil entre as mesas cheias, embora ligeiramente surdo. Com uma única porção, comemos os quatro: Maldonado, Nilo, Humberto e eu. Mas deve-se considerar que Maldonado comeu pouco porque tinha uma tarde de trabalho pela frente e Humberto curtia uma ressaca.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sándor Márai

Sándor Márai é um escritor húngaro que suicidou-se em 1989, nos Estados Unidos. Foi banido de seu país pela ditadura instalada depois da Segunda Guerra, esquecido, e só recentemente voltou a ser reconhecido como grande artista que é. Seus livros voltaram a fazer o sucesso que lhes é devido.

Márai não faz concessões às fórmulas que garantem os best-sellers, mas seus romances trazem uma carga dramática poucas vezes alcançada na literatura. Os conflitos humanos ocorrem sob o véu de relações sociais aparentemente gentís e contidos pela boa educação burguesa, mas são conflitos profundos, inevitáveis, muitas vezes insondáveis.

Léa Maria me apresentou a este escritor e dele acabo de ler De Verdade, Divorcio em Buda, As Brasas e Veredicto em Canudos. Estou lendo sua auto-biografia, Confissões de um Burguês. São todos livros de altíssima qualidade literária, publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

De Verdade é uma obra-prima e Veredicto em Canudos foi escrito depois de Márai ter lido a tradução para o inglês de outra obra-prima, Canudos, de Euclides da Cunha. A história se passa no interior da Baia, após a queda do último baluarte dos resistentes de Canudos. Márai nunca esteve no Brasil, mas consegue recriar com precisão o que teria sido o cenário e os acontecimentos narrados no seu livro.

Não vejo a hora de começar a ler O legado de Eszter e Rebeldes, que já ví escondidos num canto da livraria.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Os ricos vão sofrer mais

O investimento em publicidade vai ser menor em 2009, dizem as previsões da Zenith Optimidia, agência de mídia do Grupo Publicis, atualizadas neste mês de dezembro. A boa notícia é que, pelo menos na América Latina, esse investimento deve crescer.

No mundo, a publicidade vai diminuir 0,2% em relação a 2008. Nos Estados Unidos, epicentro do furacão, a perda vai ser de 5,7% e na Europa Ocidental de 1,0%. Ásia, Pacífico e o Centro e Leste Europeu devem crescer um pouco, diz o estudo, e a América Latina terá crescimento normal.

A internet vai continuar recebendo cada vez mais investimentos em publicidade e vai crescer 18% em 2009. Em 2011, será responsável por 15,6% do total e a televisão continuará na liderança, com 38,5%.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A arte imita a vida

A mulher de um grande empresário reclamou contra as novelas da televisão, que costumam apresentar os empresários sempre como escroques. Dizia ser um absurdo que homens de bem como o seu marido sejam tratados como sinônimo de falta de escrúpulos.

Fiquei calado diante do comentário mas íntimamente desfilei na memória a enorme quantidade de empresários ligados ao crime que os jornais noticiam. Em todos os escândalos de corrupção que estouram pelo mundo tem sempre um ou outro homem de negócios, como se dizia antigamente, posicionado no centro. A Polícia Federal vez por outra desenvolve operações para prender golpistas que são empresários. Agora mesmo, o ex-presidente da bolsa de valores americana Nasdaq revelou-se um fino vigarista.

Não entendi a revolta da jovem senhora. A arte imita a vida.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Assuntos campeões na internet

Interessantes as estatísticas do Google sobre os assuntos mais pesquisados em cada país.

Dá para fazer algumas deduções sobre o caráter de cada povo.

No Brasil, os três assuntos preferidos são, pela ordem, Orkut, jogos e fotos de mulher pelada.

Na França, são jogos, Youtube e Pages Jaunes, as Páginas Amarelas, com informações de endereço e telefone de práticamente toda a população.

Na Argentina, os campeões de consultas são jogos, fotos e vídeos. Os dois últimos, sou capaz de apostar, referem-se a mulher pelada.

Nos Estados Unidos, lideram as pesquisas letras de música, Yahoo e My Space. Na Alemanha, informações sobre Berlim, eBay (compras) e previsão do tempo.

Quem tiver curiosidade de investigar o que cada país procura na internet, basta ir a www.google.com/insights/search/#

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A sapatada em Bush, a ignorância americana

Conheci, no princípio dos anos 70, o professor de uma universidade americana que sabia tudo sobre literatura brasileira. Falava com intimidade, em fluente português, de todos os escritores, todos os poetas, todos os ensaistas brasileiros, vivos e mortos. Dava aulas sobre este assunto e sua turma contava naquele ano com 30 alunos, todos americanos. Perguntei-lhe a razão daquele interesse sobre a literatura do Brasil e ele me deu a explicação: depois da revolução cubana, o governo dos EUA ficou surpreso com a ignorância que tinha de Cuba e, por extensão, de toda a America Latina. A falta de conhecimento sobre a cultura dos paises abaixo do Rio Grande, me disse o professor, levou o governo a cometer erros políticos que afastavam de Washington os paises do sul e poderiam, perigosamente, levá-los para a esfera soviética. Eram os tempos da Guerra Fria.

Foi então que o governo resolveu financiar estudos mais profundos e formar especialistas para entender a alma de outros países e não correr o risco de perdê-los, como haviam perdido Cuba. Surgiram, nas universidades, os estudos, os cursos e a especialização em países diversos. E apareceram os brasilianistas como ele, o professor.

Tudo leva a crer, no entanto, que os americanos concentraram apenas em nós, os latinos do continente, o seu interesse intelectual. Porque vieram a mostrar que não entenderam o Vietnam. E ontem, com a sapatada no Bush e a confissão de que o projeto de reconstrução do Iraque havia fracassado, que também não entenderam o Iraque.

No Afeganistão, a nomeação e o apoio a um governo corrupto e desacreditado pelo povo provoca uma ressurreição dos talibãs.

Apesar do dinheiro que gastaram e gastam, parece que os americanos demoram a entender.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Rede de Mentiras

Ridley Scott é um bom diretor de filmes de ação. Mesmo seus filmes ruins e maniqueistas, como este Rede de Mentiras (Body of Lies), de 2008, tem um rítmo frenético que segura a atenção do espectador. Filmado no Marrocos, é mais uma produção da atual safra hollywoodiana que explora o filão do terrorismo árabe. É também mais um dos inúmeros filmes recentes a demonizar a CIA. Impressionante como o cinema americano morre de amores e de ódio contra essa famigerada agência.

O melhor filme que Ridley fez, Blade Runner, de 1982, foi também o seu maior fracasso financeiro, depois do sucesso de público alcançado por Alien, em 1979. Só muito tempo depois é que Blade Runner veio a se transformar num cult. Talvez por causa desse fracasso ele tenha resolvido nunca mais se arriscar e dedicou-se, a partir daí, a produções e super-produções, como Gladiador (Gladiator), de 2000, com poucas chances de dar errado na bilheteria.

Seu estilo de narração e edição é o de cenas com grande intensidade e violência, entrecortado às vezes por momentos suaves logo seguidos por outras cenas de impacto. Os melhores exemplos são Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down), de 2001, que passa a toda hora no Telecine, e o excelene Thelma e Louise, de 1991.

Dois bons atores, Leonardo DiCaprio e Russell Crowe, sustentam o elenco de Rede de Mentiras. Di Caprio mostra mais uma vez que os atores americanos só melhoram na medida em que envelhecem.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Rabada com agrião

Hoje, sábado, é dia de comer bem. Embora eu esteja me preparando para fazer uma feijoada na casa de um amigo, para ele e outros amigos, deixo aqui uma receita de rabada com agrião. Se você estiver em boa disposição, vá ao açougue e depois para a cozinha. O investimento em trabalho rende altos dividendos em prazer.

A receita está calculada para oito pessoas

Ingredientes: 2 rabadas grandes; 2 limões; 1 garrafa de vinho branco seco; 1 quilo de tomates grandes e maduros, sem peles nem sementes; 2 cebolas grandes; 2 dentes de alho; 2 folhas de louro; 1 colher de café de tomilho; 150 gramas de toucinho defumado magro; 1 colher de chá de caldo de pimenta, 2 colheres de sopa de óleo; farinha de mandioca crua que baste; 6 molhos grandes de agrião; sal e pimenta.

Antes de tudo, limpe a rabada já cortada pelos nós, de modo a retirar qualquer vestígio de sebo ou gordura. Depois lave em água com o caldo dos limões. Faça uma vinha d’alhos misturando o vinho com 1 cebola picada, 1 dente de alho amassado, 1 folha de louro, o tomilho, sal e pimenta.

Deixe a rabada de molho nessa vinha d’alhos por 4 horas. Frite o toucinho picado no óleo. Misture com 1 cebola batidinha e com 1 dente de alho amassado e espere alourar.

Refogue a rabada escorrida até que comece a frigir e tostar. Misture com os tomates amassados e molhe com a vinha d’alhos coada.

Deixe ferver por dois minutos, abaixe o fogo, junte 2 copos de água quente, tampe e deixe cozinhando em fogo brando, acrescentando mais água na medida do necessário.

Escume de vez em quando, para retirar o excesso de gordura. A rabada deve ficar com bastante caldo. Quando estiver quase no ponto, misture com o agrião limpo e grosseiramente picado. Prove o sal e tempere com o caldo de pimenta.

Retire quase todo o caldo da rabada para outra panela e vá juntando farinha de mandioca em chuva, sempre mexendo com colher de pau até obter um pirão não muito duro. Bata bem, para que fique fofo e transparente. Despeja a rabada com agrião numa terrina e tampe. Sirva o pirão em separado.


O Pirão de farinha de mesa pode ser substituído por polenta.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Novidades do front americano

Para continuar falando sobre marketing, antes de entrar em assuntos mais leves no fim de semana: o relatório anual Global Marketers, do AdAge, publicou a lista dos 100 maiores anunciantes mundiais em 2007, responsáveis por um investimento da órdem de 108 bilhões de dólares.

Os cinco primeiros lugares são ocupados pela Procter&Gamble , com US$9,4 bilhões, seguida de Unilever (5,3 bilhões), L’Oréal (3,5 bilhões), General Motors (3,3 bilhões) e Toyota (3,2 bilhões).

A GM caiu de terceiro para quinto lugar, trocando de posição com a L’Oréal. Todos os comentaristas de marketing na imprensa americana prevêem alterações drásticas nessa lista para 2009, numa visão pessimista influenciada pela crise.

No caso da GM, como também da Chrysler e da Ford, tudo vai depender das decisões do super-executivo que será nomeado para sanear o setor com a ajuda dos US$15 bilhões que serão liberados pelo governo. Este super-funcionário, que se reportará ao Congresso, vai administrar um orçamento de marketing maior do que o da Procter & Gamble e a imprensa já o chama de czar dos automóveis (em inglês, car czar). Os nomes falados para este belo e complicado emprego são os de Paul Volker, ex-chairman do Federal Reserve e Kenneth Feinberg, que administrou os fundos federais de ajuda às vítimas do ataque às torres gêmeas.

E chega de marketing. Amanhã, vamos falar de comida.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Vender para os pobres

Será moralmente licito avançar sobre o bolso dos pobres? Essa questão surgiu esta semana com o anúncio do lançamento de uma subsidiária da McCann Erickson (Interpublic Group), chamada Barrio, que pretende especializar-se em propaganda e marketing para as classes C e D da America Latina.

A agência terá escritórios em São Paulo, Santiago do Chile, Cidade do México, Bogotá e Costa Rica. Depois vai se expandir para Buenos Aires, Quito e Panamá.

Matthew Creamer, do jornal especializado Advertising Age, foi quem iniciou a polêmica na segunda-feira passada, num artigo em que aborda o que chamou de dilema ético. Recebeu algumas criticas de publicitários americanos, para quem vender desodorantes, por exemplo, aos quase miseráveis, vai aumentar sua auto-estima.

Embora a defesa seja discutível, o certo é que o grupo Interpublic resolveu vender aos anunciantes uma agência especializada no mercado formado pelos pobres da America Latina. No Brasil, este mercado é formado por 80 milhões de pessoas com renda inferior a 10 salários mínimos, que pertencem, no linguajar do marketing, às classes C, D e E - o chamado mercado de baixa renda.

Responsável por um consumo da ordem de R$180 bilhões por ano em produtos populares, os pobres brasileiros representam um mercado maior do que o dos ricos das classes A e B1, estimado em R$118 bilhões.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pugliese

Oswaldo Pugliese, maestro argentino, deixou o seu legado na história do tango e recebeu bela homenagem no centenário do seu nascimento, em 2005, com a edição pela EMI, de Buenos Aires, de um album com o título Edición de Aniversário.

Pugliese, assim como Anibal Troilo, compreendeu como poucos a forma elegante, bela e apaixonada de combinar os sons do piano, das cordas, dos bandoneones e da voz de grandes cantores de tango para um resultado único.

Esta coleção, em quatro CDs, traz práticamente toda a obra do maestro e me faz pensar que os buenoairenses têm razão quando dizem que, se existe algo que o tango não cantou, é porque não existiu.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O sufôco dos jornais

A midia impressa começa a dar sinais de cansaço. Circula hoje a notícia da concordata do grupo Tribune, que edita o Los Angeles Times, e da decisão do The New York Times de hipotecar o prédio que ocupa na Oitava Avenida.

Em 2006, em Dresden, na Alemanha, a professora Yunjae Cheong, da Universidade do Alabama, apresentou um trabalho na reunião anual da International Communication Association (http://tinyurl.com/5e6meq) em que analisa o retorno da publicidade em jornais, radio, tv e internet. As duas últimas – tv e internet – dão muito melhor resultado ao anunciante, é o que comprova o cuidadoso trabalho da professora.

Nos últimos anos, crescem os anúncios na internet, que já ultrapassou radio e out-door e avança na direção do mercado da mídia impressa.

Tudo indica que é uma questão de tempo: a internet vai engolir todas – ou quase todas - as outras mídias.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Gomorra

Gomorra ganhou o premio de melhor filme do Festival de Cinema Europeu e trouxe novamente à baila o drama vivido por Roberto Saviano, autor do livro com o mesmo título, que deu origem ao filme. Saviano, um jovem escritor napolitano de 29 anos, teve a coragem de denunciar a Camorra, violenta sociedade criminosa que domina a cidade de Nápoles. Condenado à morte pela Camorra, Saviano vive cercado de guardas-costas da Polícia e, na Itália, aposta-se no quanto lhe resta de vida.

O drama da população de Nápoles, exibido pelo escritor, é o mesmo das populações das favelas cariocas, reféns das associações criminosas que nada ficam a dever à Camorra. Talvez sejam até mais violentas.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Aligot

Hoje é domingo e, se você estiver disposto ou disposta a ir para a cozinha, eis aqui uma receita de aligot, que pode acompanhar qualquer prato que você vier a fazer, de preferência carnes.

O Aligot é um prato típico de Auvergne, uma das 26 regiões administrativas da França. Fica bem no centro do pais e sua gastronomia é de pratos fortes e generosos.

Você precisa de 500g de batatas, 100g de creme de leite, 1 dente de alho e 200g de queijo mussarela. Pode ser também 150g de mussarela e 50g de queijo minas meia cura. Sal a gosto. Em Auvergne é usado o queijo Tomme.

Descasque as batatas e o alho. Corte as batatas em pedaços grandes e cozinhe em água fervente e sal junto com o alho até ficarem macias. Enquanto as batatas cozinham, corte o queijo em lascas finas. Retire e descarte o alho, passe as batatas pelo espremedor. Coloque o purê de volta na panela, junte o creme de leite e leve novamente ao fogo até aquecer bem, junte o queijo, batendo energicamente com colher de pau até formar longos fios. Sirva imediatamente.

Os monges de Auvergne, por onde passava um dos vários caminhos de Santiago, faziam aligot com pão, para alimentar os peregrinos. A batata substituiu o pão quando foi levada da América para a Europa após os Descobrimentos.

Bon appetit

sábado, 6 de dezembro de 2008

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Duas dicas de botequim

A comida típica carioca é a do botequim. Já disse isso em artigo que escrevi para o site (http://www.umacoisaeoutra.com.br/viagem/boteco.htm) e torno a repetir que o botequim do Rio só tem concorrente em Belo Horizonte. Os de lá são extraordinários botecos. Fazem até um festival por ano e já publicaram um sofisticado livro de receitas.

Mas os do Rio têm seu caráter particular e mais personalidade do que, por exemplo, os restaurantes da orla de Copacabana. Dou aqui a dica de dois novos conhecidos que me foram apresentados por Nilo Pereira, emérito conhecedor dos botequins cariocas.

Na esquina de Gomes Freire com Riachuelo, na Lapa, o Boteco do Gomes chamava-se, antes de uma cuidadosa reforma, Made in Ceará. Numa oportuna crise de identidade, abandonou o nome anglo-cearense quando deixou de ser um pé sujo e sofisticou as instalações. Recomendo a costelinha com feijão branco, a lingüiça frita, o pernil assado e a rabada com polenta e agrião.

O outro fica na rua Teófilo Otoni, entre Uruguaiana e Miguel Couto, numa falsa esquina no meio do quarteirão. Acho que não tem nome. Mas tem qualidade. O cozido servido às quarta-feiras é inspirado. A rabada e a fritada de bacalhau merecem elogios.

Em ambos a cerveja é geladíssima, como deve ser a cerveja num clima como o nosso. E a coleção de diferentes cachaças abre o apetite.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ainda Vicky Christina Barcelona

Bebendo uns goles com o meu médico e também amigo Luiz Augusto Candau, ontem no fim da tarde, depois de uma consulta, ele me disse não ter gostado de Vicky Christina Barcelona. Achou que os personagens são estereotipados e que a personagem feita por Javier Bardem não convence como um tipo abrutalhado e ao mesmo tempo sensível e amoroso.

Argumentei que toda ficção assenta-se sobre tipos simbólicos e que a arte imita a vida, como disse Wilde, mas não é a vida. Os estereótipos estariam presentes em toda história que envolve tipos humanos. Não há como sair disso.

Mas fiquei com a impressão de que Candau tem uma certa razão. As personagens de Woody Allen, em todos os seus filmes, tendem a estereótipos, o que não diminui o interesse por Vicky Christina Barcelona.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Vicky Christina Barcelona

Fui ver ontem. Um pouco desconfiado, porque os últimos filmes de Woody Allen têm sido repetitivos e algumas vezes enfadonhos. Mas acho que a velhice está lhe fazendo bem, porque se trata de um filme maduro, contado em narrativa ágil, com afinado elenco, capaz de transmitir sutís nuances nas emoções de personagens complicadas.
O roteiro não é novo. A história de duas jóvens americanas em busca de romance num país latino não é diferente de tantas outras que Hollywood já explorou numa dezena de filmes. Mas o escritor/diretor/narrador prova que Joseph Campbell está correto na sua tese de que a história do heroi é sempre a mesma. O que muda é a maneira como é contada. Esse mesmo roteiro de Vicky Christina Barcelona poderia servir para uma comedia de costumes ou para um dramalhão derramado. Mas Woody Allen constrói com ele um filme equilibrado, bonito, diferente.
Barcelona - representada sempre por Gaudi, sempre pelas artes plásticas, como se este fosse o único talento catalão - é um belo cenário para um filme de amor e decepções, embora as tomadas feitas em Oviedo comprovem que as Astúrias podem ser tão ou mais belas que a Catalunha.
Woody Allen conseguiu fazer um filme sério e bom, como há tempos vem tentando, ao procurar se afastar das comedias espirituosas que fizeram a sua fama. Está bastante longe do jovem e ingênuo diretor de Bananas, de 1971, por exemplo. O Woody Allen de 2008 sabe mergulhar profundamente em seus personagens ao mesmo tempo em que se afasta cada vez mais da cultura do cinema americano e da sociedade "puritana e materialista", que é como o narrador de Vicky Christina Barcelona define a sociedade americana.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Cotas para negros

Confesso que demorei um pouco a definir o que penso, nesse debate público sobre se devem ou não existir cotas para estudantes negros nas universidades. As posições como sempre se extremam e surgem os desvios ideológicos. A opinião conservadora, a Direita, como sempre, é contra. Alguns fundamentam sua posição na dificuldade de definir quem é ou não negro. Mas há que considerar o fato de que a população descendente de escravos, chamada pelo modismo cuidadoso de ‘afro-brasileira’, ou 'afro-descendente', tem sido marginalizada desde 1888, quando a lei abolicionista lhe devolveu a liberdade e a jogou nos guetos das cidades.
As oportunidades de progresso social para os negros do Brasil foram retiradas pelo preconceito que, ao contrario do que se diz e às vezes se pensa, é muito forte no Brasil. Há 120 anos o negro é tratado como cidadão de segunda classe. Está na hora de mudar esse quadro. As cotas representam um passo importante.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A programação cultural do Ano da França no Brasil

A França pretende fazer bonito em 2009, quando vai se comemorar o Ano da França no Brasil. Seis grandes exposições estão marcadas:

• O Louvre vai comparecer com a exibição de 19 retratos esculpidos por Houdon, no Museu Histórico Nacional.
• O Musée du Dessin et de l’estampe originale, de Gravelines, vai trazer duas exposições: Os triunfos do carnaval e Estampas contemporâneas da França, para o Museu Histórico Nacional, no Rio, o Museu de Artes do Espírito Santo, em Vitória e para o Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte.
• Em O Brasil, a França e o Mar, no Museu Naval, no Rio, será contada a história da Marinha brasileira e as suas ligações com a Marinha francesa.
O olhar do viajante Francês, em Belo Horizonte, e também na internet, vai mostrar a impressão que o Brasil deixava nos europeus que aqui chegavam, desde os primeiros tempos, chegando à fundação da Escola de Minas de Ouro Preto por Claude Henri Gorceix.
• Em De Eckhout aos nossos dias, no Museu de Artes e Ofícios de Belo Horizonte e no Museu Histórico Nacional, serão exibidas as obras-primas em tapeçaria da coleção Gobelins.

Penso que o Brasil nunca teve uma programação cultural tão intensa como essa.